Dá-me prazer! Ordeno-te que me dês prazer! Eu sento-me aqui à tua espera e tu não apareces? Como te atreves? Eu sou o teu mestre. A mente humana, lógica, matemática, sempre correcta, sabedora. E tu és a mente primitiva. Tu dás-me a inspiração, dás-me as vontades, dás-me as emoções. Eu alimento-me da tua fome, de pôr as tuas contrariedades por escrito, da satisfação de dar voz à tua mudez. E quando eu estou esfomeado dessa satisfação, a tua obrigação é alimentares-me com mais emoções, mais desejos, mais raiva, mais, mais e mais.
Porque se eu não sinto, eu não escrevo. E, quando não escrevo, chega o final do dia, aquele momento que se ri de mim, que goza comigo, por eu não ter conseguido concretizar e realizar nada. É nada mais do que já tinha no dia anterior, e nos dias antes desse. E é a constante falta de realização, de concretização, dia após dia, que me faz sentir um fracasso.
E nesta perpetuidade, nesta ausência de vitória rotineira, eu sinto-me um falhado, um ninguém. E este falhanço projectado para o futuro, semana após semana, mês após mês, ano após ano, é o resto da minha vida: um falhanço futuro já contabilizado no presente. O passado não conta, não contribui, não desconta. O crédito está negativo e cada dia sinto-o. É uma dívida que já há muito pesa, e que não sinto que vou ser capaz de pagar.