A minha paixão é simultaneamente o meu sofrimento.
Chama por mim quando me ausento muito tempo.
Dá-me preocupações, medos, insegurança, porque me submeto totalmente à
sua confiança.
Dá-me incomparável prazer nas aventuras que só ele me pode oferecer.
Quando me sento ao volante, deslizo sobre a estrada. Tudo são
possibilidades em diante.
O desejo nasce em sonhos. O destino marcado no mapa. E o jipe faz-se à
estrada.
Não há nada fora de alcance. Basta coragem e imaginação, e todos os
desejos vão de miragem a realização.
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Um caderno, uma Parker de mola, e um café. São os ingredientes para
abrir a mente. E despejar cá para fora tudo o que está entulhado lá
dentro.
A mente vai constantemente sussurrando, mas quando é para ter uma
conversa a sério, fecha-se no quarto como um adolescente na idade do
armário.
Para saber o que se pensa, não basta pensar nessa questão. É preciso
tocar à campainha, bater à porta e perguntar à mente se estão.
Porque embora "eu penso, logo existo", a mente seja eu, e eu a mente,
a verdade é que ela só consegue um diálogo com o subconsciente.
Por isso, aquilo que se quer e não quer pouco importa. Nas questões da
mente, é preciso escutar e saber ouvir. E um caderno, caneta, e café
são como um terapeuta sentado na sua cadeira, aberta a porta.
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Rodeado de prados verdejantes e floridos, e as montanhas como plano de
fundo, é a paisagem por que anseio, que chama por mim, que me atrai,
me obriga a sair de casa, me obriga a ir buscar a tranquilidade, a
paz, o sossego e a harmonia que o horizonte esconde.
Só quando estou rodeado de Natureza, só quando essa pintura
bidimensional da paisagem distante se torna um espaço tridimensional
comigo no meio inserido é que consigo respirar essa liberdade que a
pintura consegue descrever, mas só a realidade a consegue realizar.
De volta a casa, entre pinturas e fotografias, que descrevem sonhos e
capturam memórias, são desejos e histórias, do passado e do futuro.
E a vida é a perpetuidade do agora, ligando sonhos a destinos, e
experiências a memórias, consumindo o tempo que resta, e produzindo
uma história.
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Da minha alma uma centelha,
na fornalha divina vermelha,
consagrou a forjagem da deles.
Em diante, o amor por eles
deu à luz um novo sofrimento
eterno, ofegante, atento;
destruiu a primordial calma
que inteirara a minha alma.
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Não há como aguentar este todo.
Um pequeno alívio aparece como
um suspiro nos momentos de alegria.
Mas logo volta este peso aos ombros
que faz sentir que tudo na vida está em demasia.
Quando a alma deles foi consagrada
e uma centelha da minha tirada
para atear a fornalha divina,
nasceu o amor que tenho por eles e o medo,
também por eles, que o meu coração domina.
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Quando olho lá para fora
vejo tudo o que não tenho,
vejo tudo o que não sou.
Quero ir encontrar esse todo
lá fora onde estão os sonhos
mas a alma já desabou.
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Faz-me sentir. Faz-me novamente viver. Inspira-me a escapar deste
buraco onde me sinto a morrer.
A vida está toda lá fora. Quase lhe chego com a mão. Há uma força que
me enclausura numa cela de medos chamada depressão.
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A vida trouxe-me a este lugar desconhecido. Não sou corajoso ou
destemido. Não conheço aqui ninguém e para os outros sou ninguém
também. Ando camuflado pela multidão, vestido como eles e a minha cara
sem expressão.
O único traço que deles me separa é o segredo de onde eu viera, por
onde errara. Mas como poderei ao certo dizer eu, se realmente todos os
outros não terão também um segredo como o meu?
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Dizem que a vida deve ser vivida como uma jornada e não como uma
concretização porque na janela temporal limitada em que vivemos são
mais os momentos em trânsito do que o número de sucessos provindos da
nossa realização.
Se orquestrarmos a nossa felicidade em torno dos sucessos e não da
jornada, enfrentamos uma vida de sucessivos momentos árduos, repleta
de insucessos, e de infelicidade.
A ambição que serve a concretização e não a jornada de propósito é
desprovida, e desta maneira não acrescenta qualquer significado à
vida.
Esta ambição tem como origem uma bruta força de vontade sua que não
consegue explicar de onde vem ou porque actua.
Porque ela existe por existir e mais não precisa de justificação, ela
consegue impulsionar uma vida inteira em direcção à concretização sem
precisar de explicação.
Após uma vida vivida com uma ambição questionável, olhando para trás
faltam pois os momentos que haveriam tornado essa vida memorável.
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A nossa casa é o nosso lar. Mas onde fica o nosso lar? É o país onde
vivemos? É o país da língua que falamos? Ou da língua que faláramos?
É onde escolhemos? Ou onde queremos estar?
É onde o destino nos leva? Ou para onde as memórias mais fortes nos
estão a chamar?
É um sítio real ou imaginário? Será até que existe neste mundo, nesta
vida, neste calendário?
E se não existe poderá ser construído? Ou permanecerá para sempre um
sonho obstruído?
Haverá sequer uma pergunta que o possa interrogar? Ou permanecerá
para sempre um vácuo que a alma não irá colmatar?
É "lar" um segredo que se possa revelar?
Ou é uma terra de sonhos no Sul da França?
Ou é um acrónimo de três letras que significa Liberdade, Amor,
Realização?
Ou é uma palavra do dicionário?
Seja qual for o significado de "lar" ainda procuro esse significado
para mim.
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No monte, lá no topo,
onde está a minha imaginação
é onde encontro paz e serenidade
na companhia da solidão.
Não há outra alternativa que se compare,
não há outro desejo que mereça consideração.
Melhor não há não, do que estar a sós
na companhia da minha solidão.
Familiares e amigos vêm e vão.
Estranhos em grande maioria esquecidos são.
Mas lá no topo do monte, sempre confiável e nunca em falta,
é a constância da solidão.
Há quem dela medo tenha
por estar só ser uma consternação.
Sorte deles por encontrarem paz e serenidade
sem recorrerem à solidão.
Há quem ache que ir só ao monte é a Salvação.
Estais convidados a experimentar a minha meditação
mas encontrai vosso monte porque no meu
não há lugar para a multidão.
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O ruído é extenuante para os meus sentidos.
A minha atenção dispara em todas as direcções
e o meu cérebro retrai-se,
como se fora agredido.
Perante o cansaço, desfazem-se a esperança e a força de vontade.
Sinto que as paredes que me deveriam proteger,
afinal me sufocam,
me roubam a liberdade,
me confinem do mundo que me rodeia.
Saudáveis aqueles que
com estas questões não se preocupam,
cujas mentes serenas com estes problemas
não se ocupam.
Deles inveja tenho
porque ainda estou algo ciente,
embora não suficientemente como eles
para purgar esses problemas da mente.
Há uma vinda esperançosa
que se prenuncia
mas cuja hora concreta de chegada
nunca avisaria.
Tal como, o eventual comboio que me levará Salvação está cada vez mais atrasado
porque o maquinista no vagão de passageiros está sentado,
assim a vinda esperançosa quer do exterior fingir ser,
mas ela realmente nasce do interior que deste sítio quer morrer.
Enquanto esperamos pela mudança,
esperamos uma eternidade,
esperando com perseverança
porque numa invisível divindade
temos uma grande confiança
para quem renunciamos a nossa autoridade
em troca de uma herança inconcretizável
de prosperidade.
Porque afinal se calhar
quem não quer realmente sou eu!
Quero sair, mas não saio.
Quero fazer, mas não faço.
Quero largar, mas não largo.
Como um viciado que quer deixar em momentos de remorso
mas não quer deixar em momentos de vício.
É querer e não querer.
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Um novo capítulo, uma nova vida. Mas de que vale uma nova partida para
repetir os mesmos erros de seguida?
De que vale uma nova fonte se todas as águas rumam para o horizonte?
De que vale qualquer mais valia se a vida é sem esperança e sem magia?
De que vale tentar mudar quando tudo o que se mudou voltou ao mesmo
lugar?
De que vale continuar a querer quando tudo o que não queria acabou à
mesma por acontecer?
De que vale insistir nesta pergunta repetida? Entro neste novo
capítulo e já estou com o pé na saída.
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Preciso de expulsar da minha cabeça todo o mundo à minha volta para
poder ficar em silêncio total. E só assim é que consigo uma projecção
sem ruído da energia residual, que é a alma. Só assim é que consigo
realmente e verdadeiramente descansar.
Tudo o resto cansa. Viver cansa. Estar vivo cansa. Ter que estar
disponível a qualquer momento, para qualquer coisa, para responder por
toda e qualquer responsabilidade é um desgaste. Eu não subscrevi a
esta pena, a este castigo, a este tormento. Ou se calhar fi-lo
inconscientemente. Será que o fiz sem saber?
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Quando tenho sono, já não sei se estou cansado ou se estou
esgotado. Do cansaço descansa-se. Do esgotamento... bom, ainda não
descobri como se volta de lá.
Imagino um caminho de onde estou para fora deste lugar onde não quero
estar, mas é um traço inacabado, cheio de traço interropido, feito por
um lápis indeciso e mal afiado.
Porque o grande problema não é decidir se quero ou não estar
aqui. Isso eu já decidi. A grande questão é quando é que eu não quero
estar mais aqui.
A incerteza do "quando" deixa-me esgotado. O facto do "quando" não ser
agora deixa-me zangado. O tempo entre o agora e o "quando" é em parte
uma sentença auto-imposta. Seria uma benção o "quando" aparecer
sozinho, de surpresa. E se calhar até vem mas quando não sei.
Até o "quando" vir vou ter muito sono. O meu grande receio é que o
"quando" venha, o sono de vá, mas o esgotamento permaneça.
Quando é que "quando" é tarde demais?
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Sozinho no topo de uma montanha
a contemplar a vista sobre o vale
é o único sítio e o único momento
por que anseio.
Tudo o resto na vida são contratempos e imprevistos
entre os momentos que estou nesse tal lugar,
nesse único sítio que me dá paz
e me faz sonhar.
Tudo o resto são distracções, obrigações
e vacilações que me roubam as montanhas em saudade.
Mas por apenas um momento no relógio da alma,
embora uma eternidade no relógio da realidade.
Mas essa eternidade não pesa na alma, só na idade,
porque o amor ausentado do dia-a-dia
tanto dá ao tempo curto como ao longo
a mesma sinfonia.
Reina a saudade da paz interior
porque é a alegria dessa esperança que afasta a dor.
É sabido que o que determina na vida o seu sabor
é se nela há ou não há amor.
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Quem eu outrora fora já não existe
porque sem o medicamento que me subsiste
a saúde prometida pela Vida desiste.
E uma vez comprometida a longevidade,
sou obrigado a encarar esta realidade:
para salvaguardar à minha família a saudade
da minha prematura e fatal ausência
tenho de ceder a uma denegridora vivência
que me mancha e conspurca a consciência.
E tu, ó Vida, o que me prometeras?
Prometeras-me subsistência.
Prometeras-me longevidade.
E no final me traíste.
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Há uma crença em mim
que me a vida dirige.
E quando caio em erro
ela me perdoa e corrige.
Há quem "alma" lhe chame
por conferir a identidade.
Mas eu chamo-lhe "crença"
por me criar a realidade.
Se "crença" e "realidade"
afiguram-se incompatíveis
por desacordo de significado
no que diz respeito à vida,
constate-se que crença é
afinal uma sensação de certeza
guiadora pela realidade da vida,
toda ela repleta de incerteza.
Para quem nega a natureza da realidade
e que foge da incerteza
para o conforto da identidade
e no discurso do método se refugia,
é cego para a teia de ambiguidades
que se sobrepõem à Verdade,
que põe em causa a identidade
e a "crença" que sublinha a vida denuncia.
A crença nasce de uma sensação
confiante e forte no peito,
exigindo com tumultuosa vibração
uma existência de seu direito.
E embora a minha existência
pareça singular manifestação,
um binário da consciência,
se revela, com o coração.
Mas o sensível coração todavia
é fraco, e como um buraco negro
suga e substitui toda a alegria
com um triste vazio de enterro.
E a mente, embora lógica,
face à falta do sustento emocional
da sua cara-metade dialógica,
acaba colapsada numa espiral irracional.
Tão simples os alicerces da vida
e fácil ter de os explicar.
A sentença de prisão perpétua é
a dor do corpo ser obrigado a habitar.
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Que desperdício de vida a quem
por assombrada a mente viver
com a morte que advém
corrompe o restante da vida,
impelindo a morte do além.
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Há uma Estação da Mágoa em que o comboio nunca pára, o tempo nunca
passa, toda a acção é inconsequente, e uma vida nunca se esgota. A
linha de comboio navega para esse futuro tão distante e infinito, mas
fá-lo parecer tão nítido como o presente que o precede.
O olhar para o futuro é tranquilizador e salvaguarda a alma porque a
dor e a mágoa estão congeladas no tempo. A perspectiva não desvanece
com a distância porque o amanhã nunca vem.
O passado opõe-se com o peso e culpa perseguidores que assombram,
corrompem e entristecem. A sua fonte é uma linha de comboio que se
perde num nevoeiro denso. Não há brisa que o alevante ou lente que o
penetre.
Voltamo-nos em diante, de frente para o futuro e de costas para o
passado, fingindo que passado não existe porque não o conseguimos
ver. Enganamo-nos que o futuro nos resgatará porque eventualmente
há-de passar o comboio que nunca pára.
Quando finalmente, viajando do passado para o futuro, o comboio
passante não pára, é quando nos vemos petrificados nesta plataforma da
Estação da Mágoa, incrédulos, questionando os alicerces da vida, o
porquê da nossa mágoa e da nossa existência.
Apercebemo-nos de que o relógio traidor da estação avançou vários
anos, o nevoeiro passado intensificou-se e a linha infinita do futuro
encurtou-se, porque afinal não era assim tão infinita. Apesar de
estarmos mais velhos, estamos exactamente no mesmo sítio de partida,
mas aos poucos a vida escapa-se pelas mãos.
A ilusão da Estação da Mágoa é uma premissa pretensiosa. Queremos ser
um espectro que provoca uma excitação no campo de forças do presente,
para que o passado e o futuro não se repelem ou colapsem um sobre o
outro.
Mas rapidamente a ilusão desfaz-se. Viver a um ritmo incessante em
direcção a um futuro incerto e construir um passado irreclamável não é
uma mágoa: é um medo.
Para realmente viver, é necessário aproveitar o momento e viver uma
vida memorável. Mas acima de tudo, para viver é preciso aceitar que
num futuro e lugar incertos se vai certamente morrer.
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Evocara em mim a minha mantra sagrada um estado de espírito de paz
total. Houvera uma harmonia pacífica entre a alma e a Natureza. Dera-me sentido
à Vida. Confirmara-me constantemente. As minhas decisões pareceram
acertadas. Absolvera-me da constante culpa perseguidora.
Mas um alcance profundo trouxe uma brisa de honestidade que afastou o nevoeiro e
revelou que a Natureza é apenas uma miragem. Não é na Natureza harmioniosa na
qual nos revemos. É em nós mesmos. A Natureza fora espelho para a alma. É em nós
próprios que nos revemos realmente.
E é neste espelho que o nosso reflexo nos dá certeza, confiança, força de
vontade. Isto é, se nos vemos a nós próprios dessa maneira. Se nos vemos de
forma debilitada, então, vemos incerteza, insegurança, falta de vontade.
Como é que nos revemos?
A alma está em segurança porque está protegida, encerrada dentro do ser. O corpo
é o albergue da alma. Mas vivência é o oposto do auto-contido, é a abertura da
alma e os laços entrelaçados com os outros. Então quão protegida estará a alma
verdadeiramente?
Procurada a fonte da dor surge uma alma fragmentada. Cada laço criado é uma
vulnerabilidade que provoca preocupação, ansiedade e dor. A fragmentação da alma
é uma relevação que surge em retrospectiva. Cada pedaço seu habita fora do nosso
ser. Habita em outros seres, nos nossos filhos e cônjuges.
A felicidade é uma teia de laços. O bem-estar é o gradiente deste campo de
forças. Para estar bem, todos têm de estar bem. É um peso sobre os ombros. Uma
exaustão no peito. Um cansaço acumulativo.
Não há restituição da alma tal como não há como retroceder no tempo. Se um
pedaço da alma se destrói, corrompe ou morre, a teia anímica sofre um dano
irreparável e irreversível.
E embora a minha mantra sagrada profetizara uma vivência em paz de alma total,
as minhas decisões trouxeram-me para uma realidade de alma fragmentada. E desta
maneira a minha mantra sagrada abandonou-me, deixando-me sozinho, sem fé, sem
promessa, sem profecia, e sem esperança.
Ela fizera-me um ateu da vida continuamente em busca de um oásis de
felicidade. Sou um caixeiro viajante que anda de cidade hedónica em cidade
hedónica, procurando viciadamente um sustento prazeroso que me dê força
suficiente para ultrapassar a perversidade provocada na alma pela descrença que
fui obrigado a transpôr.
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Somos eu e tu. Nós os dois, apenas. Eu e a minha imaginação. Nesta folha de
papel. A página em branco e a caneta. Ela traça os contornos da projecção da
alma sobre a mente. O sentimento que se prende, se pendura caducamente ao peito
por um caule fino como o de uma folha de plátano que enfrenta o Outono escuro,
cinzento e frio.
É o sentimento, a última semente de energia, que propicia a vida. Alimenta a
vontade de ser.
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Alto e pára! Já chega! A discussão acaba aqui. Já chega de
discussões. Isto desgasta, enfurece, aborrece, paralisa,
condiciona. Para mim já chega.
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Eram 7 para a meia noite, num sítio qualquer do mundo. Sejam lá que
horas fossem era tarde. Tarde demais! A hora de dormir, da caminha, já
há muito passara.
E mesmo assim continuava para aqui a arrastar-me pela noite a dentro. Porque à
noite é quando as coisas excitantes acontecem. Porque a noite é o pressentimento
do sucesso que o amanhã trará. E é um pressentimento congelado no tempo, porque
embora os ponteiros do relógio batam, o tempo não passa. Porque embora a hora
avance, esta noite, a qualquer hora, é sempre o ontem do amanhã, é sempre a
esperança do futuro, é sempre cheia de possibilidades.
Até que o sono conquista, o corpo fraqueja, e o sustento da mente quebra-se. E,
desta manerai, quando o corpo quer ir dormir, assim quer a mente também. Sem um
não há o outro. A batalha que a mente luta contra o corpo eventualmente termina
em derrota. O esforço de manter um olho aberto eventualmente esgota-se. Não há
meio de continuar a escrever sob a energia e liberdade nocturnas. Não há mapa
cor-de-rosa mental que vença ao ultimato corporal.
E assim rendem-se a caneta e o papel, entrega-se a esperança ao arsenal (o
depósito de armas), e recolhe-se para casa, sabendo que amanhã se volta ao
patrulhamento. Isto é uma vida? Ou é um emprego?
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Há uma constante neblina que paira no ar. É intemporal, rasgadora, suprema,
autoritária. É pesada, é densa, é escura, cinzenta, e extensa. É penetrante e
omnipresente. É ditadora do humor. Impõe, retira a liberdade, a
escolha. Estabelece um regime de mal disposição. Retira a energia. Convence de
impossível o que é possível. Convence de mau o que é bom. Convence de insípido o
que é saboroso. Convence e convence. E acima de tudo convence de que não há
desconvencimento; de que não há esperança de um cerramento da cerração; de que
não há à vista um fim desta tumultuosa tempestade, que é uma vida constantemente
creditada na pequena liquidez que a alma consegue produzir, sobrando apenas um
estreito vazão fino de alegria medido justamente ao mínimo necessário para se
conseguir subsistir. É um resultado líquido positivo, mas infinitesimal, numa
balança tombada, contra-balançada por pesos descalibrados. É a depressão.
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Quebrei a promessa que te fiz e agora não há como voltar atrás. Prometi para
todo o sempre, na saúde e na doença, e no final não cumpri. O meu advogado diria
que as minhas acções foram involuntárias por ocorrerem quando eu estava
doente. E se calhar ele até teria razão. Mas eu não sei se acredito
nisso. Aliás, eu nem advogado tenho ou cheguei a ter. (Foi um impulso do
momento.) E se estava doente, então não era uma doença recente. Não, era uma
vida inteira doente. Desde sempre me senti assim, da mesma maneira, sem energia,
sem vontade, deprimido. E portanto dissociar a depressão de mim é como cisar a
minha identidade. E se calhar tem de ser feito. Eu simplesmente não sei o que
está em cada metade. E uma vez cisada a minha personalidade, em que metade
renasço?
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Dá-me prazer! Ordeno-te que me dês prazer! Eu sento-me aqui à tua espera e tu
não apareces? Como te atreves? Eu sou o teu mestre. A mente humana, lógica,
matemática, sempre correcta, sabedora. E tu és a mente primitiva. Tu dás-me a
inspiração, dás-me as vontades, dás-me as emoções. Eu alimento-me da tua fome,
de pôr as tuas contrariedades por escrito, da satisfação de dar voz à tua
mudez. E quando eu estou esfomeado dessa satisfação, a tua obrigação é
alimentares-me com mais emoções, mais desejos, mais raiva, mais, mais e mais.
Porque se eu não sinto, eu não escrevo. E, quando não escrevo, chega o final do
dia, aquele momento que se ri de mim, que goza comigo, por eu não ter conseguido
concretizar e realizar nada. É nada mais do que já tinha no dia anterior, e nos
dias antes desse. E é a constante falta de realização, de concretização, dia
após dia, que me faz sentir um fracasso.
E nesta perpetuidade, nesta ausência de vitória rotineira, eu sinto-me um
falhado, um ninguém. E este falhanço projectado para o futuro, semana após
semana, mês após mês, ano após ano, é o resto da minha vida: um falhanço futuro
já contabilizado no presente. O passado não conta, não contribui, não
desconta. O crédito está negativo e cada dia sinto-o. É uma dívida que já há
muito pesa, e que não sinto que vou ser capaz de pagar.
Tags: prosa, alma
Só, contigo. Só contigo.
Quero estar só, contigo. Quero estar só contigo.
Quero que eu e tu estejamos juntos. Quero eu e tu e mais ninguém.
Quero-te comigo, e só comigo, depois de estar só, contigo, e só contigo.
Quero-te comigo sempre e só comigo apenas.
Quero-te comigo agora, depois, mais tarde, à noite, amanhã, para a semana que vem, todos os dias e para sempre.
Quero-te comigo sem a mãe, sem os meus irmãos, sem os avós, sem os tios, sem os amigos, e sem mais ninguém.
Quero-te comigo sempre e apenas, só, contigo, e só contigo.
Quero que me vejas, que me escutes, que me respondas, que me mimes, me elogies, me entretenhas, me estimules, me trates, me ajudes, me favoreças, que de mim cuides, e em mim penses.
Quero-me como complemento directo e indirecto de todas as tuas acções. Quero que me, que de mim, e que em mim, e que para mim, tu-ar, tu-er, tu-ir. Quero que me, de, em, para mim, tu-ar, -er, -ir.
Quero que me, de-em-para mim, tu -ar-er-ir, sempre e apenas, só e só contigo.
E quero que escrevas as coisas que quero numa folha de papel para não
te esqueceres. Eu ainda não sei escrever e ainda não te sei pedir isto
e explicar o que quero porque só tenho 5 anos. Mas desconfio que tu
até já sabes melhor do que eu, o que eu quero e preciso. Só me resta
dizer, obrigado pai! E tu tens que dizer "de nada".
Assinado "pai" (alónimo) porque o autor ainda não tem idade para
assinar.
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É aquela hora outra vez. É tarde, pelo que já devia estar a preparar-me para ir
dormir. Mas ainda tenho alguma excitação dentro de mim que me ajuda a empurrar o
sono mais e mais, até ser mesmo tarde. Demasiado tarde. Tão tarde que quando
finalmente me deito me pergunto previsivelmente pela milionésima vez porque
repito este castigo. Tão tarde que o sono já não quer voltar, como um amigo que
perdi e que já não quer atender o telefone. E no entanto aqui estou eu outra
vez. A olhar para o relógio. Mas já está decidido, não está?
É um comportamento vicioso e louco, esta repetição contínua auto prejudicial, e
a recusa desse comportamento. Eu tenho uma opinião particular do vício na medida
em que é a recusa desse comportamento que é prejudicial, e não o comportamento
em si. Por outras palavras, o comportamento sem a recusa não é necessariamente
um vício. Por exemplo, se aceito que dormir mal e acordar maldisposto para
curtir a noite, então não há vício, embora possa haver um dano a muitos outros
níveis.
Mas para mim é sempre uma recusa, uma promessa de que amanhã será diferente, e
daí um vício.
E assim chegamos à Trindade do Sono: a curtição, a desilusão, e a repetição. Avé
fucking Maria.
E agora que a curtição chegou ao fim, e o relógio confere que é demasiado tarde,
venha a desilusão. Mas sem preocupação, pois amanhã há mais.
Tags: prosa, alma
Diário de um não-diarista - tem apenas uma página que conta toda a sua história,
do princípio ao fim, de uma só vez. Mas a vivência é diária à mesma. Não há
outra forma de viver. Portanto chamemos-lhe um resumo. Não é um resumo diário
mas... vá, um resumo pontual de uma vivência diária. Chamemos-lhe a suma
diária.
A suma diária vai às partes boas, saltando as partes aborrecidas. Vai
directamente à substância, ao miolo, ao sumo. Ao que enche a barriga. Salta as
parte moles, as que só servem para encher chouriços. Porque hoje em dia já anda
tudo de barriga cheia. Já ninguém tem tempo. É tudo instantâneo, interactivo, e
responsivo. É tudo ou imediato, ou já passou, não interessa. Se não me
entretenho num instante, já mudei de canal, passei para o próximo. Já estou a
ferver por não poder fazer scroll a esta folha de papel. (Sim, isto foi escrito
em papel. Papel!) Mas descontraiam-se porque assim também não há anúncios. (Pelo
menos até alguém publicar isto na internet.)
Bolas, já estou quase no final da minha página e ainda não fiz a minha suma
diária. Aqui vai. Enfim, em suma, a minha vida foi isto. É isso.
Tags: prosa, alma
Sento-me em silêncio à espera que uma voz distante me contacte. Não é uma voz
com palavras. É uma voz com sentidos, um sentido certo e um errado. Mas também
uma falta de sentido, uma grande incerteza, permeia este frágil médium de
comunicação.
O silêncio parece ser importante para se escutar a alma. Os barulhos exteriores
são ruído e interferência no rádio interior. Enquanto que as forças da Natureza
se ampliam com o inverso distância, e se sobrepõem consoante a sua magnitude, o
ruído distante, exterior, perturba a serenidade interior.
E porque a serenidade não tem força? Não se impõe? Não dita a atenção? Será
porque o interior tem tanto ou mais ruído do que o exterior? Será que os
próprios pensamentos são os intrusos da nossa serenidade? Aqueles que destroem a
paz interior, que dão origem ao ruído?
Se calhar é a dor que perturba. Pode ser a dor de costas ou a do joelho, para
quem as tem. Ou simplesmente a dor da Vida, de estar vivo. Este impulso de estar
vivo é tão proeminente que a conformidade com a dor é implícita e absoluta. Por
outras palavras, a dor é apenas ruído de fundo.
E portanto veja-se a quantidade de obstáculos que se interpõem entre a voz da
calma e a serenidade interior. Já parece mais que talvez não seja a voz interior
uma força fraca como a da gravidade, mas os obstáculos que tornam esse caminho
intransponível, pelo menos a maior parte do tempo.
E assim surgem todas aquelas técnicas, como meditação, que pretendem acalmar o
médium de maneira a reduzir o ruído interior. Mas como amante de carros não
descarto também a hipótese de que quando o chaço é velho, os problemas começam a
aparecer. E como engenheiro informático sei muito bem que nenhum sistema
funciona bem sem de vez em quando ser reiniciado ou, em casos extremos,
reinstalado. Às vezes, até se mete mais memória ou mais disco (um disco maior,
para quem não fala o dialecto). Porque haveria o corpo humano de ser diferente?
Enfim, tentarei fazer desta cabeça o que der enquanto este chaço não apodrecer,
até ao inevitável reboot. Pode ser que volte com um processador mais rápido, Ah,
e mais disco também, porque estes biscoitos italianos são mesmo muito bons, e
consomem espaço.
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Há que escreva por uma questão de subsistência.
Mas eu sobrevivência.
Quem escreva muito, com ganância, por remuneração.
Eu sucinto, sem competição.
Quem com pudor, desdém, inveja, e desprezo.
Eu com clareza.
Quem subserviente de uma ilustre carreira.
Eu à minha maneira.
Quem ponha p'ra baixo com grande alarido.
Eu sempre descomprometido.
Que destrua e derrote porque é intolerável perder.
Eu sempre vencedor porque nunca preciso de vencer.
Tags: poesia, alma
Frequentemente imagino como seria se alguém lesse o que escrevo. Mas ao mesmo
tempo sei que nunca irá acontecer. Imagino como seria se me compreendessem. Se
me entendessem. Se me aceitassem. Toda a gente quer ser aceite, não quer? Mas ao
mesmo tempo sei que aceitação vem de dentro. Não é preciso uma multidão para nos
sentirmos aceites. Basta apenas um. E às vezes parece que a aceitação desse um é
mais difícil do que a da multidão.
Mas porquê? Porque a aceitação do um requer iniciativa do próprio, requer
decisão, requer a própria auto aceitação. Requer tomar um passo. Uma passo que é
difícil de tomar ou um passo que não se quer tomar? Há uma resistência. É
claro. Mas de origem desconhecida. Não se consegue tomar um passo quando não se
sabe o que quer.
E por que é que saber não chega? Se sei qual o problema, não saberei já tudo?
Que mais há quando já se sabe? Quando é insuficiente com o todo que já se sabe,
o que sobra é uma incongruência que nos leva a ter que concluir que a única
explicação é uma fissura na personalidade. São duas vozes. A do humano, lógica,
sabedora, científica; e a do ser, honesta, enraizada na realidade, profunda,
ensurdecedora mas sem palavras, como o rugido de um mudo que está preso num
colete de forças.
São duas vozes que comunicam através de um canal de largura de banda mínimo,
como uma página de texto, um desenho, uma fotografia, ou um vídeo. Um processo
criativo conduzido por uma bússola moral que apenas diz "certo" ou "errado",
"melhor" ou "pior", "quente" ou "frio". O que está mais certo é aquilo que mais
de acordo está com o que o mudo quer comunicar. Estes média artísticos são a
manifestação da voz do mudo. Eles vêm e vão consoante o que me vai na alma. Ora
o saco está cheio, ora vazio. É autónomo e de vontade própria. Quando se esgota,
esgota-se. Não há como mais produzir. Quem não entende, não entende. A
explicação é simples, e já foi exposta. Querem chamar-lhe de inspiração, estão à
vontade.
Mas não é inspiração. E por mim estejam à vontade quão enganados queiram
estar. Eu não me ofereço a juízos públicos. Nunca quis saber e assim o há-de
continuar a ser. Não quero saber do que pensam de mim.
E também não é um bloqueio mental do artista. O artista nunca existiu. O artista
aparente é um medium (um veículo) condutivo à voz do mudo. E para quem ainda não
compreende, não aceita, mais ainda se recusará a compreender e a aceitar o
desfecho disto.
A verdade é: alguém que venha e salve o mudo porque eu não sei como.
Tags: prosa, alma
Como escapar? Bom... há escapes e escapes. Há escapes difíceis de tomar, fáceis
de lidar. Há escapes fáceis de tomar, difíceis de lidar. Quer-se um escape
rápido e limpo. Indolor. Bom... indolor para o próprio. Nunca é indolor para os
demais, assumindo que demais se tem. Como se tem...
Indolor... Parece que a dor é o factor determinante. Parece... será que é? E se
não houvesse dor, como seria? Seria banal? Ou convencional? Normal? Talvez até
casual, quem sabe? Não seria medicinal. Mas... e higiénico? Poderia sê-lo?
Certamente não seria constitucional. Excepcionalmente talvez o fosse em
circunstâncias de segurança nacional. Uma aperto de mão, um piscar de olho, um
olhar para o lado, e o horror nem é assim tão sensacional.
E a dor. O que aconteceu à dor? Bom... há duas dores: a do próprio e as dos
outros. Bom, são três dores, porque também há a dor do próprio pela dor dos
outros. E quatro haveriam se os outros desconfiassem da do próprio, mas
raramente acontece. Nunca a há porque isto é sempre tudo segredo. E por que é
que o tem de ser? Não sei. Parece que é como é.
E se não houvesse a dor do próprio? Bom, há a dor dos outros. Parece um alívio,
não parece? Incongruente o próprio julgar a sua dor um obstáculo e a dos outros
um travão. Parece que o próprio rendeu o seu poder de decisão. Assim é sempre
tudo mais fácil. Porque sobram apenas as consequências "inevitáveis" que nunca
estiveram sob controlo, não é? Não!
É incongruente, é ilógico, é desonesto. Embora haja muitas formas de
desonestidade no mundo (e elas pesam muito), esta, a auto desonestidade, é uma
que não tem como existir. Só se o próprio se mente em relação à sua
honestidade. Portanto é preciso desonestidade para se conseguir ser auto
desonesto. Parece que pelo menos a lógica prevalece, mesmo quando se parte de um
princípio de incongruência. Será que há esperança afinal? Bom a dor não é
lógica.
Então, mas e a dor que o próprio sente pela dor dos outros? Essa sim é uma dor
real. Inquestionável. Imparável? Sim, imparável! Um facto indisputado. Até então
ou até demais? Até então, sem dúvida. Até demais quem saberá? Apenas a bola de
cristal, que não há. E se houvesse seria também um alívio, mas um refúgio para a
renegação do poder de decisão. Estas esquinas estão sempre à espreita. E quando
não se presta atenção ao caminho, está-se logo a virar à direita. Só que nesta
direita não há nada de certo. É uma esquerda disfarçada de caminho correcto.
Mas essa dor pelos outros, a tal dor real, essa sim tem uma força
brutal. É a única que obriga à perpetuidade desta constante asfixia
habitual.
Tags: prosa, alma
Uma vida de contradições. São lições para mim próprio. Mas recuso-me a
aprender. Não é falta de vontade. Até sei o que fazer. É no momento de
aplicá-las que falho. Sei que falho e falho à mesma. Quero fazer melhor e falho
à mesma. Prometo-me que é a última vez que falho. Prometo-me que da próxima vez
não falharei, e falho à mesma. E não é só comigo que falho. É com os outros
também. É com os que mais dependem de mim que falho. E continuarei a falhar. E
eles continuarão a dar-me segundas oportunidades. Continuarão a tentar que o pai
seja o pai que eles precisam. Continuarão a tentar com o pai até ao dia em que
desistem. E nesse dia é um alívio, e posso respirar. Mas esse mesmo dia é o dia
em que perco. Deixo de falhar porque perco. Já não há como falhar porque já
perdi. É um alívio quando já não tem como se falhar mas não se é mais feliz
quando já se perdeu. Ideal seria não se perder e não ter como se falhar. Mas
voltar atrás não há como. Daí uma vida de contradições. Lições com as quais não
aprendo.
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