É aquela hora outra vez. É tarde, pelo que já devia estar a preparar-me para ir dormir. Mas ainda tenho alguma excitação dentro de mim que me ajuda a empurrar o sono mais e mais, até ser mesmo tarde. Demasiado tarde. Tão tarde que quando finalmente me deito me pergunto previsivelmente pela milionésima vez porque repito este castigo. Tão tarde que o sono já não quer voltar, como um amigo que perdi e que já não quer atender o telefone. E no entanto aqui estou eu outra vez. A olhar para o relógio. Mas já está decidido, não está?
É um comportamento vicioso e louco, esta repetição contínua auto prejudicial, e a recusa desse comportamento. Eu tenho uma opinião particular do vício na medida em que é a recusa desse comportamento que é prejudicial, e não o comportamento em si. Por outras palavras, o comportamento sem a recusa não é necessariamente um vício. Por exemplo, se aceito que dormir mal e acordar maldisposto para curtir a noite, então não há vício, embora possa haver um dano a muitos outros níveis.
Mas para mim é sempre uma recusa, uma promessa de que amanhã será diferente, e daí um vício.
E assim chegamos à Trindade do Sono: a curtição, a desilusão, e a repetição. Avé fucking Maria.
E agora que a curtição chegou ao fim, e o relógio confere que é demasiado tarde, venha a desilusão. Mas sem preocupação, pois amanhã há mais.