Há uma tempestade à espreita. Se ela vem, tudo arrasa. E se não vem, a
premonição nunca acaba.
É um prenúncio de um fado destinado àquele que a tempestade pressente.
É um castigo por se ser consciente, e ser-se conscientemente
negligente.
O destino é a decisão que se espera tomar, e não a espera pela decisão
que se torna a adiar.
É dando rumo ao destino que a vida toma sentido.
Não é por acaso que são anagramas: são um e a mesma coisa.
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Rodeado de prados verdejantes e floridos, e as montanhas como plano de
fundo, é a paisagem por que anseio, que chama por mim, que me atrai,
me obriga a sair de casa, me obriga a ir buscar a tranquilidade, a
paz, o sossego e a harmonia que o horizonte esconde.
Só quando estou rodeado de Natureza, só quando essa pintura
bidimensional da paisagem distante se torna um espaço tridimensional
comigo no meio inserido é que consigo respirar essa liberdade que a
pintura consegue descrever, mas só a realidade a consegue realizar.
De volta a casa, entre pinturas e fotografias, que descrevem sonhos e
capturam memórias, são desejos e histórias, do passado e do futuro.
E a vida é a perpetuidade do agora, ligando sonhos a destinos, e
experiências a memórias, consumindo o tempo que resta, e produzindo
uma história.
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Perguntam-me o que acho das flores não porque querem saber o que delas
penso, mas porque pensam que vão saber quem sou pela maneira como
respondo.
Pensam que as flores lhes vão dizer como estou? Então perguntem às
flores directamente e deixem-me sossegado. Se quisesse falar falava,
mas não vêem que estou calado? Ide perguntar às flores porque eu estou
ocupado.
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Preciso de expulsar da minha cabeça todo o mundo à minha volta para
poder ficar em silêncio total. E só assim é que consigo uma projecção
sem ruído da energia residual, que é a alma. Só assim é que consigo
realmente e verdadeiramente descansar.
Tudo o resto cansa. Viver cansa. Estar vivo cansa. Ter que estar
disponível a qualquer momento, para qualquer coisa, para responder por
toda e qualquer responsabilidade é um desgaste. Eu não subscrevi a
esta pena, a este castigo, a este tormento. Ou se calhar fi-lo
inconscientemente. Será que o fiz sem saber?
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Quando tenho sono, já não sei se estou cansado ou se estou
esgotado. Do cansaço descansa-se. Do esgotamento... bom, ainda não
descobri como se volta de lá.
Imagino um caminho de onde estou para fora deste lugar onde não quero
estar, mas é um traço inacabado, cheio de traço interropido, feito por
um lápis indeciso e mal afiado.
Porque o grande problema não é decidir se quero ou não estar
aqui. Isso eu já decidi. A grande questão é quando é que eu não quero
estar mais aqui.
A incerteza do "quando" deixa-me esgotado. O facto do "quando" não ser
agora deixa-me zangado. O tempo entre o agora e o "quando" é em parte
uma sentença auto-imposta. Seria uma benção o "quando" aparecer
sozinho, de surpresa. E se calhar até vem mas quando não sei.
Até o "quando" vir vou ter muito sono. O meu grande receio é que o
"quando" venha, o sono de vá, mas o esgotamento permaneça.
Quando é que "quando" é tarde demais?
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Dizem que quando morremos a vida passa-nos à frente dos nossos olhos. Mas se
calhar referem-se ao futuro e não ao passado. Se calhar não é o passado que
passa como um filme acelerado na nossa mente.
Se calhar é o nosso futuro que passa. Uma segunda oportunidade de podermos ver
os nossos filhos a crescer, de os acompanhar e ajudar quando precisarem, de ver
os homens e mulheres que se tornarão.
Esta alternativa oferece pelo menos alguma esperança na eventualidade da sorte
da vida não ser tão sortuda.
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A força que me propela contra a minha vontade. É a força da tentação.
Ela alicia-me com sabores prazerosos, seduz-me com a sua irrefutável
lógica, e garante-me ilibação de toda a responsabilidade.
Uma vez o acto cometido, ela desaparece. O sabor prazeroso torna-se
agoniante. O sistema lógico colapsa e a realidade reinstaura-se. E o
remorso enraíza-se, persegue, e tormenta.
Nasce depois o vício: a perseguição entre a tentação e o remorso. A
tentação leva ao acto, o acto ao remorso, e finalmente a tentação
suplanta de novo o remorso. É um ciclo vicioso.
Quanto mais se nega o vício, quanto mais se tenta quebrar o ciclo,
mais forte o vício se torna, mais viciados nos tornamos, e maior o
remorso.
É preciso aceitar que o vício é normal, que no acto não há nada de
mal.
É assim que a tentação é derrotada. Porque quando se torna banal, o
vício já não tem por onde seduzir.
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Separar o ruído da essência para que a fibra residual seja a captura mais
autêntica da imagem do ser. É apenas quando este longo e difícil processo de
meditação está concluído que podemos dar início à jornada de tentarmos perceber
quem somos.
É irónico o esforço e energia gastos para perceber os mistérios do Universo,
quando o mistério de quem somos está dentro de nós e não poderia estar mais
perto. E quanta dedicação aplicamos na meditação? Provelmente não o suficiente.
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Este é um segredo que toda a gente teria curiosidade em ouvir mas que
ninguém quer realmente escutar ou ficar a saber.
É um segredo que não só aguça a curiosidade mas também provoca
desconforto e deslealdade depois de sabido.
É uma real espada de dois gumes. Mas infelizmente parece que esses
dois gumes estão apontados para mim.
É um segredo que levo comigo para a sepultura.
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Publicado a 32/01/2025.
Hoje é um dia glorioso. É o dia em que o Passado pertence ao Passado. O Futuro é
brilhante, esperançoso e repleto de oportunidades. É uma nova perspectiva sobre
a vida, uma perspectiva que me leva a apreciar cada dia, que me empurra para a
aventura do que está ainda por descobrir.
Hoje é o dia da redenção. Durante toda a minha vida esperei que o Universo (ou
deuses, ou Natureza) me perdoasse, me trouxesse paz interior. E hoje esse dia
chegou. Não porque essa entidade divina se manifestou. Não. Mas porque eu me
perdoei. Porque finalmente me apercebi que toda a força de vontade que precisava
para adoptar uma nova perspectiva esteve sempre dentro de mim.
Estas são palavras que nunca imaginei escrever. Mas este é finalmente o dia em
que tive de me render.
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Mortalidade - é simultaneamente a maior certeza e incerteza da
Vida. Todos lhe estão sujeitos mas ninguém sabe quando.
Morrer é assustador. Estar morto é libertador. A ideia de que morrer é
doloroso é a fonte do medo. Mas a morte é pacífica porque nem o medo
ou a dor lhe sobrevivem.
A morte é a única eventualidade da vida que é, e sempre será,
individual. Não é transferível para outra pessoa. Não se pode falar
sobre a sua experiência ou memória.
É a única experiência da vida que só pode ser vivida comunitariamente,
empaticamente. Ela só pode ser vivida pelos outros que estão
vivos. Mas mesmo esses não vivem a experiência da morte. O que eles
vivem é a perda que sentem. Até no momento em que alguém morre aquilo
que se vive, que se sente e em que se pensa é dos outros.
A morte é o único facto da vida que é realmente tautológico, que não
pode ser desprovado, não está sujeito a honestidade, a teorias, e às
falhas da ciência. Todos os outros factos da vida são aproximações da
realidade, são fórmulas matemáticas a que faltam factores, são leis
sujeitas a ambiguidade, são pedaços de história sujeitos a
interpretação. A morte não.
Até a frase "Eu penso logo existo" é uma suposição, uma convicção. Mas
facto? Não!
Queremos afirmar que a Vida é um facto quando simultaneamente
vivêmo-la supondo a nossa existência?
Por seu lado, a morte não se deixa questionar em termos de suposições
ou convicções.
Portanto entre vida e morte qual é que é facto? É aquela que
providencia uma existência questionável? Ou aquela que por retrair a
existência se torna irrefutável?
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As noites no Padrão eram calmas. No meio do campo, na escuridão da
noite, a única luz radiante era a das estrelas. E no silêncio, o único
ruído era o da própria respiração.
Era uma ausência total de vida em rodeio e o céu estrelado o único
sinal de vida, que me convidava a olhar incessantemente para a sua
radiância, a contemplar a sua expansividade, a desejar trocar a
solidão que me regia pela companhia estelar dos astros.
Se ao menos pudesse partilhar este momento com alguém...
Este sentimento, eu muitas vezes o desejara, desejava, desejei...
No final, a realidade para a qual me voltei é uma em que estou rodeado
de uma família que não deixa o enraizar da solidão.
Mas apesar disso, eu sinto-me profundamente sozinho.
E, portanto, ao realizar o meu desejo dos dias do Padrão, troquei a
solidão pela companhia da família, mas esse desejo não trouxe o
prometido: foi simultaneamente realizado e não realizado porque me
sinto da mesma forma, abandonado.
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Queremos viver num mundo guiado pela virtude. Mas vivemos num mundo de
ganância, exploração e corrupção. Queremos viver num mundo justo, mas
vemos a impunidade do sucesso e da riqueza. Queremos viver num mundo
em que podemos exprimir a nossa consternação sobre ele mesmo, em que
podemos gritar, protestar, marchar. Queremos poder usar livremente a
nossa liberdade de expressão.
Mas de repente deparamo-nos com: a expressão já não é virtuosidade; o
protesto já não é justo; e a marcha já não é sucesso.
A conclusão é muito simples: a maioria das regras existem para
governar a maioria. E os buracos que nelas existem estão lá para que a
minoria que pode pagar se possa desgovernar quando precisa.
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Se algum dia lerem este caderno vão achar que o autor era um tipo
altamente perseguido pelo Passado, assombrado pelo sofrimento, e
deprimido, não vão?
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Olhamos para o Passado para sabermos quem somos. Procuramos nele uma constância,
um padrão, uma repetição. Enfim, uma resposta. Porque se há algo duradouro,
então é porque deverá ser uma lei, uma regra, uma equivalência. Não é essa a
resposta da física (ciência)? E porque só poderá ser da física e não minha
também.
Se há algo que permanece imutável, inconstante, sereno, ao longo do tempo será
certamente um traço meu. A tal resposta.
Porque apenas o eu poderia sobreviver às mudanças do tempo.
Mas o que é que eu vejo quando olho para trás?
Vejo uma exigência desnecessária com o cumprimento das regras.
Vejo uma fuga amedrontada de confrontos.
Vejo uma subserviência à autoridade sem questionar.
Portanto, quando olho para o Passado vejo todas aquelas coisas que não quero
ser, não quero ter, não quero encontrar, nunca mais.
Como posso assim querer encontrar uma resposta no Passado, quando o meu Presente
é definido por uma negação do Passado?
Posso continuar a não saber quem sou. Mas parece que, sem saber como, acabo por
saber muito bem que não sou: eu sou pelo menos aquilo que decidi deixar para
trás, e pelo todo aquilo que irei deixar construído para a frente.
Esta antítese entre o Passado e o Futuro chama-se esperança. O presente chama-se
aposta. A soma destas duas partes chama-se vida.
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Há muito que me interrogo sobre "quem sou?". É uma pergunta que
externalizo constantemente para que vagueie livremente e encontre uma
resposta, sabendo perfeitamente que não há nada lá fora que me possa
dizer quem sou porque quem sou parte do interior.
E é previsível que ande à procura dessa resposta lá fora porque no meu
interior resposta não há, ou pelo menos desconheço que tenha.
Da mesma maneira que essa procura é previsível, não seria também de
constatar (e aceitar) que essa procura do "quem sou" fora de mim não
vai produzir resultado nenhum?
E no entanto essa previsibilidade já não é assim tão óbvia. É caso
para dizer que a previsibilidade não determina o que vai
acontecer. Por exemplo, sei que para descobrir quem sou tenho de tomar
um passo, tomar decisões. E mesmo assim desconfio que já sei o que é
que vai realmente acontecer. Ou dito melhor ainda, o que não vai
acontecer.
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Na Vida há uma necessidade constante de simplificar. A complexidade gera
desentendimentos, que se quer evitar.
A simplificação é o encontro da linguagem comum entre duas pessoas, a procura de
uma semântica desprovida de ambiguidades ou duplo sentido. Uma maneira mais
directa de comunicar.
A experiência leva-nos a encontrar essa ferramenta da simplificação através da
tentativa e erro.
Mas como na vida nada se perde, tudo se transforma, se encontramos algo de novo,
é porque deixamos algo perdido lá para trás.
A simplificação é a aceitação de que o mundo é muito mais complexo do que a
capacidade que as pessoas têm de comunicar, sobre ele.
E portanto adoptar esta nova perspectiva pressupõe o abandono do ideal sobre o
mundo que guardamos connosco desde a juventude.
É aquele ideal cheio de certezas, de como o mundo é concreto, de como os outros
estão sempre enganados e o próprio tem sempre razão. O ideal que dá a confiança
necessária para deixar a juventude para trás e entrar neste complexo mundo como
adulto.
Parece que é preciso uma certa inocência e ignorância para dar o salto da jovem
certeza para o meio da incerteza que governa sem se achar que nada mudou.
Só anos mais tarde é que isso se torna óbvio, claro!
E portanto da mesma maneira que deixamos a juventude para a vida adulta,
deixamos a certeza para a incerteza, deixamos a complexidade para a
simplificação, e a cada passo vemo-nos confrontados com a nossa própria
moralidade, agora temos uma vez mais de lidar com um semelhante conflicto: se
deixadas para trás todas as construções que fizéramos sobre a vida, teremos pois
também de abandonar a razão?
Se calhar sou eu quem recusa andar para a frente. Ou se calhar a Sociedade
actual não reconhece a moralidade como importante. Deve achá-la inconveniente.
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A vida é uma aprendizagem contínua. Cada nova experiência dá-nos uma
nova perspectiva que pode mudar completamente a maneira como vemos o
mundo. E não é só como vemos o mundo agora, mas pode também relevar
como víamos o mundo antes, no Passado.
Quando confrontada com as nossas memórias, essas novas perspectiva e
experiência podem levar-nos a concluir que na altura nós não fazíamos
nenhuma ideia do que se estava a passar.
São a nossa falta de maturidade, de experiência, de tacto que são
reveladas a posteriori pela pessoa que nos tornamos mais tarde.
Esse confronto pode gerar remorso, dúvida, conflicto. Temos de nos
confrontar com nós mesmos, com a nossa própria discórdia, a nossa
ignorância e hipocrisia.
Essa trajectória entre quem éramos e quem somos leva à dúvida, a
questionar-nos então se quem somos no Presente não é também uma
desilusão para a nossa futura pessoa.
Queremos orgulhar o futuro "eu", queremos a sua admiração e respeito,
queremos que se torne tudo aquilo que desejamos de bom e de melhor
para nós próprios, tudo aquilo que sonhamos.
Se a construção do nosso futuro parte de um alicerce duvidoso, então
não haverá como atingir os nossos sonhos. Precisamos de uma nova
perspectiva.
Sirva este texto como uma aprendizagem, uma experiência, para quem
quer saltar directamente para o futuro em vez de gastar anos do seu
Presente até finalmente a sua vida lhe oferecer esta lição.
Eu próprio, como autor do texto, já conheço as palavras, mas
aparentemente ainda não as aprendi porque preciso de mais uns anitos
para incorporá-las nesta cabeça.
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Há uma enorme carga em mim que me obriga a fazer aquilo que está
moralmente correcto. Não há outra maneira de fazer as coisas. Essa
obrigação transcende-me como indivíduo, transcende os familiares e
amigos, transcende até os desconhecidos.
É uma obrigação que transcende o ser e que encontra a sua
responsabilidade apenas quando alargamos o seu âmbito até incluir toda
a Humanidade.
É uma obrigação para com o ser humano. De todas as obrigações que me
podiam ter calhado, esta é das maiores. E não a tenho porque
quero. Tenho-a porque não me consigo livrar dela.
Não é lógico nem (biologicamente) vantajoso uma obediência excessiva
pelos outros. É muito fácil os outros roubarem-nos as oportunidades
quando nós estamos distraídos com o que é moralmente correcto.
Portanto, não há uma explicação para isto no cérebro reptiliano. Será
uma vantagem para viver em sociedade, uma instrução do cérebro
humano. Quem sabe?
A obrigação com o ser humano é a preservação da mente e o corpo, a
salvaguarda do sofrimento. Nenhum ser humano tem o direito de provocar
sofrimento a outro ser humano. Não há tribunal, guerra, ou Estado que
tenha esse direito. Não há condição de retribuição, de vingança, de
justiça que tenha esse direito. Não há justificação pelo capital
também. Há apenas a autodefesa.
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Uma premonição de que algo está para vir, para acontecer. Não é
necessariamente algo bom ou algo mau. Simplesmente algo. É o
sentimento de antecipação, de incerteza que há entre a noite do hoje e
a manhã do amanhã.
Enquanto esse sentimento reina, a dúvida e a preocupação acrescem, e o
tempo parece congelar. Quanto maior a ansiedade, mais devagar o tempo
passa. Parece haver algo na vida que: quanto maior a dificuldade, mais
prolongada a vivência da mesma. Nunca pode ser só difícil: tem de ser
muito difícil.
Na noite roxa contemplamos a cor bonita do céu. Asseguramo-nos de que
esta noite roxa é como as outras que já passaram, e de que não há nada
de diferente nesta. Sentimo-nos reconfortados. Apaziguamos a nossa
alma relembrando que este processo repetitivo das incertas noites
roxas é ele próprio uma forma de certeza. E da mesma maneira que
muitas já vieram, muita outras virão... certamente...
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Purgatório - é um tribunal para o julgamento da alma ou um santuário
para a redenção da mesma?
Embora juízo signifique absolvição ou castigo para muita gente, para
aqueles que vivem uma vida inteira em remorso, e que procuram
desesperadamente um resgate dessa culpa perpétua e perseguidora, o
juízo é a salvação. Vão poder finalmente descansar de uma vida de
agonia, no Paraíso ou no Inferno.
A agonia advém em parte do constante auto juízo e da incapacidade de
se auto decidir se se age correctamente ou não, dia após dia após
dia. Assim, o santuário da alma, o tal tribunal, é em primeira
instância um alívio imediato dessa responsabilidade. Dá logo fim a
essa voz interior incessante, esse juiz interno que não dá sossego.
Venha pois o juízo final. Uma eternidade, no Paraíso ou Inferno,
embora incerta, trará a certeza de que mais nenhum juízo virá.
E portanto só resta mesmo a decisão se a vida na terra em sofrimento
não é ela mesmo uma pena de prisão à espera da absolvição pelo
tribunal da alma, o santuário.
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Durante muito tempo achava que paixão era algo que existia dentro de
uma pessoa, em mim por exemplo. E que era algo que uma pessoa tinha
mais ou tinha menos. Era uma característica individual. E mais do que
isso era também algo que essa pessoa exercia, uma vez mais, podendo
exercer mais ou exercer menos.
Parecia que era Bem, que era melhor, quando eu sentia mais paixão, mas
mais importante quando eu fazia o esforço de exercer essa paixão,
mostrá-la à minha alma gémea, e colher a minha alegria na alegria
dela.
E parece que durante muito tempo assim foi. Até que chegou uma altura
em que eu só colhia o que plantava e quando não plantava não
colhia. Era unidireccional. Aliás passou a ser unidireccional.
Por isso, surgiu a questão: porquê exercer a paixão de todo? Porquê
ser eu responsável pela paixão do dois? Não deverá haver uma igualdade
de ambas as partes?
Como disse antes há a parte do exercício da paixão e há a parte da
residência dessa paixão. Na ausência da recepção dessa paixão, poderei
questionar se a paixão por mim existe de todo?
Queira ou não questionar, essa dúvida existe certamente e vai ser
muito difícil arranjar maneira de a clarificar: não há maneira simples
de perguntar e não parece haver maneira de obter a resposta senão
perguntando.
A dúvida provocada pela paixão não correspondida não tem como ser
abordada a não ser que respondida essa difícil questão que põe em
causa se a paixão já estará mesmo perdida.
Mas como aceitar o risco do que poderá suceder se a aparente solução
for criadora do problema que tenta resolver? Daí o dilema.
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Uma das formas mais importantes de honestidade é a autenticidade. É a
honestidade do próprio com os outros e, ainda mais importante, consigo
mesmo. A autenticidade vem através de forma e através de informação.
A forma é a nossa postura, linguagem corporal,
apresentação. Apresentamo-nos como somos realmente, ou somos actores
de um ou mais personagens inventadas?
A informação são os factos que decidimos comunicar, ou até ocultar,
distorcer, manipular ou mesmo fabricar.
As pessoas autênticas são as únicas com quem nos devemos querer
relacionar. Tudo o resto é intriga, burla, sedução, mentira. É melhor
um confronto ou desacordo com uma pessoa autêntica do que uma
experiência agradável com alguém inautêntico, porque nunca se sabe
quando nos vão trair.
Eu escolho ser autêntico correndo o risco de que possam tirar proveito
de mim, de que me possam trair, de que me possam roubar uma
oportunidade.
Isto porque eu escolho viver não do modo com o mundo realmente
funciona, mas do modo como eu quero que ele funcione.
É esta a minha contribuição para a transformação do mundo para um
mundo melhor: continuar a exercer autenticidade até que os que me
rodeiam aprendam também a ser autênticos.
Se for traído pago o preço e sou prejudicado pontualmente. Mas este é
também o mecanismo que me permite dividir o mundo no grupo dos que
estão comigo e dos que estão contra.
Por isso, o meu ponto fraco é também uma armadilha para eu ficar a
conhecer com quem estou realmente a lidar.
Tags: gratidão, prosa
Em frente ao espelho surge o nosso reflexo, uma imagem nossa, do nosso
corpo. E embora vejamos a nossa aparência, aquilo que de mais
importante acontece é a reacção emocional, a resposta emocional, ao
confrontarmo-nos com nós mesmos. Esperamos ver, ou avaliar, o nosso
nível de alegria ou tristeza. Estamos desiludidos se calhar quando nos
revemos nessa constante reflexão diária que nunca muda, nunca melhora,
nunca se alegra, mas sempre envelhece. Nesse instante reflectimos
sobre o nosso reflexo. É uma reflexão sobre a reflexão. E apesar de
reflectir e reflectir, tudo aquilo de mim que quero mudar permanece
constante, e a única inconstância da minha vida é o contínuo tempo
passante que tanto desejo travar. Mas talvez mais do que travar é o
tempo retroceder, para um tempo em que a constância e a inconstância
ter-me-iam necessariamente de obedecer. E essa incapacidade no
Presente de mudar o impossível e criar novas possibilidades no Futuro
leva à frustração, que por sua vez leva à desilusão; ambas
visivelmente reflectidas no meu reflexo... na minha reflexão.
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Gratidão - A palavra que está no centro deste caderno. É também a
palavra que menos me diz das palavras que estão na primeira
página. Dizem para estar grato por estar vivo. Isso vai ser muito
difícil. Eu vivo com uma constante dívida às costas que nunca será
paga, e não há um número de actos bondosos que conseguirá apagar essa
culpa, esse remorso.
O futuro ser uma oportunidade é algo difícil de entender também. O
futuro é a perpetuação do Presente, sem diferença. É sempre e sempre
igual até à morte. A incapacidade de transformar a vida e de trazer
uma diferença faz com que esse futuro se comprima num instante só, mas
muito longo. E a aparentada distante morte está senão à espreita, e
estas são as últimas horas que se vive, já contabilizadas, descontando
no relógio segundo a segundo.
Tags: gratidão, prosa
Para que a minha vida sentido faça, é necessário que haja um propósito
(um sentido de vida).
Tags: gratidão, prosa
No final de um dia surpreendemente normal, sinto-me apenas bem. Nem
mal. Nem excelente. Simplesmente bem. Recordando este dia e tentando
descobrir o que acontecera que fora diferente dos outros dias, nada me
ocorre. Não há qualquer conclusão. Não há lição. É o fruto do
acaso. São as coisas que acontecem.
Tags: prosa
Há uma Estação da Mágoa em que o comboio nunca pára, o tempo nunca
passa, toda a acção é inconsequente, e uma vida nunca se esgota. A
linha de comboio navega para esse futuro tão distante e infinito, mas
fá-lo parecer tão nítido como o presente que o precede.
O olhar para o futuro é tranquilizador e salvaguarda a alma porque a
dor e a mágoa estão congeladas no tempo. A perspectiva não desvanece
com a distância porque o amanhã nunca vem.
O passado opõe-se com o peso e culpa perseguidores que assombram,
corrompem e entristecem. A sua fonte é uma linha de comboio que se
perde num nevoeiro denso. Não há brisa que o alevante ou lente que o
penetre.
Voltamo-nos em diante, de frente para o futuro e de costas para o
passado, fingindo que passado não existe porque não o conseguimos
ver. Enganamo-nos que o futuro nos resgatará porque eventualmente
há-de passar o comboio que nunca pára.
Quando finalmente, viajando do passado para o futuro, o comboio
passante não pára, é quando nos vemos petrificados nesta plataforma da
Estação da Mágoa, incrédulos, questionando os alicerces da vida, o
porquê da nossa mágoa e da nossa existência.
Apercebemo-nos de que o relógio traidor da estação avançou vários
anos, o nevoeiro passado intensificou-se e a linha infinita do futuro
encurtou-se, porque afinal não era assim tão infinita. Apesar de
estarmos mais velhos, estamos exactamente no mesmo sítio de partida,
mas aos poucos a vida escapa-se pelas mãos.
A ilusão da Estação da Mágoa é uma premissa pretensiosa. Queremos ser
um espectro que provoca uma excitação no campo de forças do presente,
para que o passado e o futuro não se repelem ou colapsem um sobre o
outro.
Mas rapidamente a ilusão desfaz-se. Viver a um ritmo incessante em
direcção a um futuro incerto e construir um passado irreclamável não é
uma mágoa: é um medo.
Para realmente viver, é necessário aproveitar o momento e viver uma
vida memorável. Mas acima de tudo, para viver é preciso aceitar que
num futuro e lugar incertos se vai certamente morrer.
Tags: prosa, alma
Evocara em mim a minha mantra sagrada um estado de espírito de paz
total. Houvera uma harmonia pacífica entre a alma e a Natureza. Dera-me sentido
à Vida. Confirmara-me constantemente. As minhas decisões pareceram
acertadas. Absolvera-me da constante culpa perseguidora.
Mas um alcance profundo trouxe uma brisa de honestidade que afastou o nevoeiro e
revelou que a Natureza é apenas uma miragem. Não é na Natureza harmioniosa na
qual nos revemos. É em nós mesmos. A Natureza fora espelho para a alma. É em nós
próprios que nos revemos realmente.
E é neste espelho que o nosso reflexo nos dá certeza, confiança, força de
vontade. Isto é, se nos vemos a nós próprios dessa maneira. Se nos vemos de
forma debilitada, então, vemos incerteza, insegurança, falta de vontade.
Como é que nos revemos?
A alma está em segurança porque está protegida, encerrada dentro do ser. O corpo
é o albergue da alma. Mas vivência é o oposto do auto-contido, é a abertura da
alma e os laços entrelaçados com os outros. Então quão protegida estará a alma
verdadeiramente?
Procurada a fonte da dor surge uma alma fragmentada. Cada laço criado é uma
vulnerabilidade que provoca preocupação, ansiedade e dor. A fragmentação da alma
é uma relevação que surge em retrospectiva. Cada pedaço seu habita fora do nosso
ser. Habita em outros seres, nos nossos filhos e cônjuges.
A felicidade é uma teia de laços. O bem-estar é o gradiente deste campo de
forças. Para estar bem, todos têm de estar bem. É um peso sobre os ombros. Uma
exaustão no peito. Um cansaço acumulativo.
Não há restituição da alma tal como não há como retroceder no tempo. Se um
pedaço da alma se destrói, corrompe ou morre, a teia anímica sofre um dano
irreparável e irreversível.
E embora a minha mantra sagrada profetizara uma vivência em paz de alma total,
as minhas decisões trouxeram-me para uma realidade de alma fragmentada. E desta
maneira a minha mantra sagrada abandonou-me, deixando-me sozinho, sem fé, sem
promessa, sem profecia, e sem esperança.
Ela fizera-me um ateu da vida continuamente em busca de um oásis de
felicidade. Sou um caixeiro viajante que anda de cidade hedónica em cidade
hedónica, procurando viciadamente um sustento prazeroso que me dê força
suficiente para ultrapassar a perversidade provocada na alma pela descrença que
fui obrigado a transpôr.
Tags: prosa, alma
Somos eu e tu. Nós os dois, apenas. Eu e a minha imaginação. Nesta folha de
papel. A página em branco e a caneta. Ela traça os contornos da projecção da
alma sobre a mente. O sentimento que se prende, se pendura caducamente ao peito
por um caule fino como o de uma folha de plátano que enfrenta o Outono escuro,
cinzento e frio.
É o sentimento, a última semente de energia, que propicia a vida. Alimenta a
vontade de ser.
Tags: prosa, alma
Por muito que queiramos, digamos e repitamos que todos os indivíduos são únicos,
individuais e especiais, que têm direito a ser ouvidos, entendidos e
compreendidos, a realidade é que o único referencial que temos é o nosso
próprio.
Assim, tudo o que escutamos, entendemos e compreendemos sobre os outros é
relativo ao nosso referencial. Eles são postos no enquadramento da nossa
perspectiva. Na nossa mente, eles deixam de ser indivíduos únicos e especiais, e
passam a projecções da nossa existência geocêntrica.
O cúmulo da irónica hipocrisia surge na incapacidade do próprio se aperceber do
seu próprio preconceito. "Eu sei que tu és especial. Mas olha que, naquilo que
estás a pensar e a dizer, estás enganado."
Portanto, este mundo de indivíduos é na verdade apenas um mundo de um só
indivíduo em que todas as outras pessoas são projecções da sua mente. E isto
repete-se para todos e cada um dos indivíduo que existem.
A vida é então reduzida a uma sobreposição de realidades individuais todas elas
não mais do que projecções. Portanto, a Realidade de realidade não tem quase
nada.
Tags: prosa
Estou tãããããããããão cansado. É um cansaço físico ou um cansaço
psicológico? Não sei. Estarei cansado da vida? Nem sei. Sinto-me
demasiado cansado para me desconformar sequer com o que não sei, para
pensar nas perguntas cujas respostas só apenas eu vou conseguir
desvendar.
Faça-se o teste, para se saber! Como se houvesse um teste... Na vida,
o único teste que há é a própria vida. É uma vivência atestada de
emoções, de medos, de pressões, de decisões. As decisões são
particularmente difíceis. Mais difíceis do que atravessar emoções?
Bom, depende das emoções em questão. E das decisões em concreto.
Mas se às vezes nem conseguimos decidir como nos sentimos, como nos
vamos sentir em relação à questão de que muitas das tomadas de decisão
são elas próprias travessias carregadíssimas de muita emoção?
Deixo a pergunta acima para reflexão.
No final, poderemos olhar para trás e dizer - Pois, ali devia ter
enveredado por outro caminho, tomado uma outra decisão. Mas uma vez
enveredado nesse outro caminho diferente, reencontramo-nos novamente
no ponto de arrependimento, novamente questionando decisões,
questionando até decisões já questionadas e decisões já retomadas.
E tomando, questionando, retomando, e re-questionando, acabamos por
retomar decisões que já tivéramos anulado e por anular retomadas que
já tivéramos questionado. No fundo, acabamos com uma superposição
quântica de realidades contraditórias, ou como quem diz sem complicar
muito a linguagem, nunca estamos feliz.
Tags: prosa
Alto e pára! Já chega! A discussão acaba aqui. Já chega de
discussões. Isto desgasta, enfurece, aborrece, paralisa,
condiciona. Para mim já chega.
Tags: prosa, alma
Eram 7 para a meia noite, num sítio qualquer do mundo. Sejam lá que
horas fossem era tarde. Tarde demais! A hora de dormir, da caminha, já
há muito passara.
E mesmo assim continuava para aqui a arrastar-me pela noite a dentro. Porque à
noite é quando as coisas excitantes acontecem. Porque a noite é o pressentimento
do sucesso que o amanhã trará. E é um pressentimento congelado no tempo, porque
embora os ponteiros do relógio batam, o tempo não passa. Porque embora a hora
avance, esta noite, a qualquer hora, é sempre o ontem do amanhã, é sempre a
esperança do futuro, é sempre cheia de possibilidades.
Até que o sono conquista, o corpo fraqueja, e o sustento da mente quebra-se. E,
desta manerai, quando o corpo quer ir dormir, assim quer a mente também. Sem um
não há o outro. A batalha que a mente luta contra o corpo eventualmente termina
em derrota. O esforço de manter um olho aberto eventualmente esgota-se. Não há
meio de continuar a escrever sob a energia e liberdade nocturnas. Não há mapa
cor-de-rosa mental que vença ao ultimato corporal.
E assim rendem-se a caneta e o papel, entrega-se a esperança ao arsenal (o
depósito de armas), e recolhe-se para casa, sabendo que amanhã se volta ao
patrulhamento. Isto é uma vida? Ou é um emprego?
Tags: prosa, alma
Há uma constante neblina que paira no ar. É intemporal, rasgadora, suprema,
autoritária. É pesada, é densa, é escura, cinzenta, e extensa. É penetrante e
omnipresente. É ditadora do humor. Impõe, retira a liberdade, a
escolha. Estabelece um regime de mal disposição. Retira a energia. Convence de
impossível o que é possível. Convence de mau o que é bom. Convence de insípido o
que é saboroso. Convence e convence. E acima de tudo convence de que não há
desconvencimento; de que não há esperança de um cerramento da cerração; de que
não há à vista um fim desta tumultuosa tempestade, que é uma vida constantemente
creditada na pequena liquidez que a alma consegue produzir, sobrando apenas um
estreito vazão fino de alegria medido justamente ao mínimo necessário para se
conseguir subsistir. É um resultado líquido positivo, mas infinitesimal, numa
balança tombada, contra-balançada por pesos descalibrados. É a depressão.
Tags: prosa, alma
Quebrei a promessa que te fiz e agora não há como voltar atrás. Prometi para
todo o sempre, na saúde e na doença, e no final não cumpri. O meu advogado diria
que as minhas acções foram involuntárias por ocorrerem quando eu estava
doente. E se calhar ele até teria razão. Mas eu não sei se acredito
nisso. Aliás, eu nem advogado tenho ou cheguei a ter. (Foi um impulso do
momento.) E se estava doente, então não era uma doença recente. Não, era uma
vida inteira doente. Desde sempre me senti assim, da mesma maneira, sem energia,
sem vontade, deprimido. E portanto dissociar a depressão de mim é como cisar a
minha identidade. E se calhar tem de ser feito. Eu simplesmente não sei o que
está em cada metade. E uma vez cisada a minha personalidade, em que metade
renasço?
Tags: prosa, alma
Dá-me prazer! Ordeno-te que me dês prazer! Eu sento-me aqui à tua espera e tu
não apareces? Como te atreves? Eu sou o teu mestre. A mente humana, lógica,
matemática, sempre correcta, sabedora. E tu és a mente primitiva. Tu dás-me a
inspiração, dás-me as vontades, dás-me as emoções. Eu alimento-me da tua fome,
de pôr as tuas contrariedades por escrito, da satisfação de dar voz à tua
mudez. E quando eu estou esfomeado dessa satisfação, a tua obrigação é
alimentares-me com mais emoções, mais desejos, mais raiva, mais, mais e mais.
Porque se eu não sinto, eu não escrevo. E, quando não escrevo, chega o final do
dia, aquele momento que se ri de mim, que goza comigo, por eu não ter conseguido
concretizar e realizar nada. É nada mais do que já tinha no dia anterior, e nos
dias antes desse. E é a constante falta de realização, de concretização, dia
após dia, que me faz sentir um fracasso.
E nesta perpetuidade, nesta ausência de vitória rotineira, eu sinto-me um
falhado, um ninguém. E este falhanço projectado para o futuro, semana após
semana, mês após mês, ano após ano, é o resto da minha vida: um falhanço futuro
já contabilizado no presente. O passado não conta, não contribui, não
desconta. O crédito está negativo e cada dia sinto-o. É uma dívida que já há
muito pesa, e que não sinto que vou ser capaz de pagar.
Tags: prosa, alma
É aquela hora outra vez. É tarde, pelo que já devia estar a preparar-me para ir
dormir. Mas ainda tenho alguma excitação dentro de mim que me ajuda a empurrar o
sono mais e mais, até ser mesmo tarde. Demasiado tarde. Tão tarde que quando
finalmente me deito me pergunto previsivelmente pela milionésima vez porque
repito este castigo. Tão tarde que o sono já não quer voltar, como um amigo que
perdi e que já não quer atender o telefone. E no entanto aqui estou eu outra
vez. A olhar para o relógio. Mas já está decidido, não está?
É um comportamento vicioso e louco, esta repetição contínua auto prejudicial, e
a recusa desse comportamento. Eu tenho uma opinião particular do vício na medida
em que é a recusa desse comportamento que é prejudicial, e não o comportamento
em si. Por outras palavras, o comportamento sem a recusa não é necessariamente
um vício. Por exemplo, se aceito que dormir mal e acordar maldisposto para
curtir a noite, então não há vício, embora possa haver um dano a muitos outros
níveis.
Mas para mim é sempre uma recusa, uma promessa de que amanhã será diferente, e
daí um vício.
E assim chegamos à Trindade do Sono: a curtição, a desilusão, e a repetição. Avé
fucking Maria.
E agora que a curtição chegou ao fim, e o relógio confere que é demasiado tarde,
venha a desilusão. Mas sem preocupação, pois amanhã há mais.
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Diário de um não-diarista - tem apenas uma página que conta toda a sua história,
do princípio ao fim, de uma só vez. Mas a vivência é diária à mesma. Não há
outra forma de viver. Portanto chamemos-lhe um resumo. Não é um resumo diário
mas... vá, um resumo pontual de uma vivência diária. Chamemos-lhe a suma
diária.
A suma diária vai às partes boas, saltando as partes aborrecidas. Vai
directamente à substância, ao miolo, ao sumo. Ao que enche a barriga. Salta as
parte moles, as que só servem para encher chouriços. Porque hoje em dia já anda
tudo de barriga cheia. Já ninguém tem tempo. É tudo instantâneo, interactivo, e
responsivo. É tudo ou imediato, ou já passou, não interessa. Se não me
entretenho num instante, já mudei de canal, passei para o próximo. Já estou a
ferver por não poder fazer scroll a esta folha de papel. (Sim, isto foi escrito
em papel. Papel!) Mas descontraiam-se porque assim também não há anúncios. (Pelo
menos até alguém publicar isto na internet.)
Bolas, já estou quase no final da minha página e ainda não fiz a minha suma
diária. Aqui vai. Enfim, em suma, a minha vida foi isto. É isso.
Tags: prosa, alma
"Portugal Caralho" é o nome de um canal do Reddit. À primeira vista parece uma
ordinarice, e das piores. Mas em segunda observação, ora aqui está uma coisa que
só um português a sério entende. É preciso um português de Portugal para ouvir
esse, "Portugal Caralho", com a entoação certa, diga-se de passagem, e responder
"Sim, senhor! Está certo! É assim mesmo". Este país é um buraco, diz esta
expressão, embora em muitos outros contextos, "caralhos" e "buracos" se
encontrem diametralmente opostos. Mas em todo o caso, até mesmo nesses contextos
se acabam por encontrar no meio, "caralhos" e "buracos", aos beijinhos e
abraços, e acaba tudo numa festarola.
"Portugal Caralho" é uma versão sucinta da outra máxima "Portugal, um buraco
onde se cai, um cu de onde se não sai". Já tínhamos "caralhos" e "buracos" e
"festarolas", agora com "cus" temos todos os órgãos soberanos. Já só faltam as
espanholas. E isso traz-nos a uma outra parte, que em Portugal tudo quer
mamar. Coincidentalmente, também o título de um post do Reddit.
Em Portugal, "tudo quer mamar", ou "anda tudo à mama", é uma expressão que diz
que querem viver às custas uns dos outros. Se se mamasse menos, como quem diz,
não andasse tudo à mama, se calhar o buraco onde se cai já dava para sair, não
era tão grande. E o "Portugal Caralho" não era tão ordinário. Era mais um
"Portugal, então?"
E parece que assim até se passa de uma expectativa para uma desilusão. Ou até um
"Portugal, bolas!", como quem diz "cometemos um erro". Quem não gosta de um
pouco de arrependimento? "Caralhos" e "bolas" nem estão assim tão longe uns dos
outros. Às vezes são os pequenos passos que fazem a maior diferença.
Mas, enfim, o que temos é esta masturbação pública de país, com "caralhos" e
"cus" e "mamas". E enquanto assim for, "Portugal Caralho" continuará forte e
duradouro, como deles se gostam. E enquanto assim for, "Portugal Caralho"
continuará aquela máxima a que o português de Portugal responde "Sim, senhor!" e
"É assim mesmo!", com orgulho.
E a todos os orgulhosos e tesos que leram isto e estão agora voltados para os
vossos compatriotas gritando conjuntamente "Portugal Caralho", sugiro também o
"Ide-vos com o caralho". Ainda não é um canal do Reddit mas poderei criá-lo se
vos deixar mais apaziguados.
Nâo passe por insultado. Lembre-se "Portugal Caralho". Agarre-se a essa
máxima. Agarre-se bem agarrado.
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Sento-me em silêncio à espera que uma voz distante me contacte. Não é uma voz
com palavras. É uma voz com sentidos, um sentido certo e um errado. Mas também
uma falta de sentido, uma grande incerteza, permeia este frágil médium de
comunicação.
O silêncio parece ser importante para se escutar a alma. Os barulhos exteriores
são ruído e interferência no rádio interior. Enquanto que as forças da Natureza
se ampliam com o inverso distância, e se sobrepõem consoante a sua magnitude, o
ruído distante, exterior, perturba a serenidade interior.
E porque a serenidade não tem força? Não se impõe? Não dita a atenção? Será
porque o interior tem tanto ou mais ruído do que o exterior? Será que os
próprios pensamentos são os intrusos da nossa serenidade? Aqueles que destroem a
paz interior, que dão origem ao ruído?
Se calhar é a dor que perturba. Pode ser a dor de costas ou a do joelho, para
quem as tem. Ou simplesmente a dor da Vida, de estar vivo. Este impulso de estar
vivo é tão proeminente que a conformidade com a dor é implícita e absoluta. Por
outras palavras, a dor é apenas ruído de fundo.
E portanto veja-se a quantidade de obstáculos que se interpõem entre a voz da
calma e a serenidade interior. Já parece mais que talvez não seja a voz interior
uma força fraca como a da gravidade, mas os obstáculos que tornam esse caminho
intransponível, pelo menos a maior parte do tempo.
E assim surgem todas aquelas técnicas, como meditação, que pretendem acalmar o
médium de maneira a reduzir o ruído interior. Mas como amante de carros não
descarto também a hipótese de que quando o chaço é velho, os problemas começam a
aparecer. E como engenheiro informático sei muito bem que nenhum sistema
funciona bem sem de vez em quando ser reiniciado ou, em casos extremos,
reinstalado. Às vezes, até se mete mais memória ou mais disco (um disco maior,
para quem não fala o dialecto). Porque haveria o corpo humano de ser diferente?
Enfim, tentarei fazer desta cabeça o que der enquanto este chaço não apodrecer,
até ao inevitável reboot. Pode ser que volte com um processador mais rápido, Ah,
e mais disco também, porque estes biscoitos italianos são mesmo muito bons, e
consomem espaço.
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Frequentemente imagino como seria se alguém lesse o que escrevo. Mas ao mesmo
tempo sei que nunca irá acontecer. Imagino como seria se me compreendessem. Se
me entendessem. Se me aceitassem. Toda a gente quer ser aceite, não quer? Mas ao
mesmo tempo sei que aceitação vem de dentro. Não é preciso uma multidão para nos
sentirmos aceites. Basta apenas um. E às vezes parece que a aceitação desse um é
mais difícil do que a da multidão.
Mas porquê? Porque a aceitação do um requer iniciativa do próprio, requer
decisão, requer a própria auto aceitação. Requer tomar um passo. Uma passo que é
difícil de tomar ou um passo que não se quer tomar? Há uma resistência. É
claro. Mas de origem desconhecida. Não se consegue tomar um passo quando não se
sabe o que quer.
E por que é que saber não chega? Se sei qual o problema, não saberei já tudo?
Que mais há quando já se sabe? Quando é insuficiente com o todo que já se sabe,
o que sobra é uma incongruência que nos leva a ter que concluir que a única
explicação é uma fissura na personalidade. São duas vozes. A do humano, lógica,
sabedora, científica; e a do ser, honesta, enraizada na realidade, profunda,
ensurdecedora mas sem palavras, como o rugido de um mudo que está preso num
colete de forças.
São duas vozes que comunicam através de um canal de largura de banda mínimo,
como uma página de texto, um desenho, uma fotografia, ou um vídeo. Um processo
criativo conduzido por uma bússola moral que apenas diz "certo" ou "errado",
"melhor" ou "pior", "quente" ou "frio". O que está mais certo é aquilo que mais
de acordo está com o que o mudo quer comunicar. Estes média artísticos são a
manifestação da voz do mudo. Eles vêm e vão consoante o que me vai na alma. Ora
o saco está cheio, ora vazio. É autónomo e de vontade própria. Quando se esgota,
esgota-se. Não há como mais produzir. Quem não entende, não entende. A
explicação é simples, e já foi exposta. Querem chamar-lhe de inspiração, estão à
vontade.
Mas não é inspiração. E por mim estejam à vontade quão enganados queiram
estar. Eu não me ofereço a juízos públicos. Nunca quis saber e assim o há-de
continuar a ser. Não quero saber do que pensam de mim.
E também não é um bloqueio mental do artista. O artista nunca existiu. O artista
aparente é um medium (um veículo) condutivo à voz do mudo. E para quem ainda não
compreende, não aceita, mais ainda se recusará a compreender e a aceitar o
desfecho disto.
A verdade é: alguém que venha e salve o mudo porque eu não sei como.
Tags: prosa, alma
Como escapar? Bom... há escapes e escapes. Há escapes difíceis de tomar, fáceis
de lidar. Há escapes fáceis de tomar, difíceis de lidar. Quer-se um escape
rápido e limpo. Indolor. Bom... indolor para o próprio. Nunca é indolor para os
demais, assumindo que demais se tem. Como se tem...
Indolor... Parece que a dor é o factor determinante. Parece... será que é? E se
não houvesse dor, como seria? Seria banal? Ou convencional? Normal? Talvez até
casual, quem sabe? Não seria medicinal. Mas... e higiénico? Poderia sê-lo?
Certamente não seria constitucional. Excepcionalmente talvez o fosse em
circunstâncias de segurança nacional. Uma aperto de mão, um piscar de olho, um
olhar para o lado, e o horror nem é assim tão sensacional.
E a dor. O que aconteceu à dor? Bom... há duas dores: a do próprio e as dos
outros. Bom, são três dores, porque também há a dor do próprio pela dor dos
outros. E quatro haveriam se os outros desconfiassem da do próprio, mas
raramente acontece. Nunca a há porque isto é sempre tudo segredo. E por que é
que o tem de ser? Não sei. Parece que é como é.
E se não houvesse a dor do próprio? Bom, há a dor dos outros. Parece um alívio,
não parece? Incongruente o próprio julgar a sua dor um obstáculo e a dos outros
um travão. Parece que o próprio rendeu o seu poder de decisão. Assim é sempre
tudo mais fácil. Porque sobram apenas as consequências "inevitáveis" que nunca
estiveram sob controlo, não é? Não!
É incongruente, é ilógico, é desonesto. Embora haja muitas formas de
desonestidade no mundo (e elas pesam muito), esta, a auto desonestidade, é uma
que não tem como existir. Só se o próprio se mente em relação à sua
honestidade. Portanto é preciso desonestidade para se conseguir ser auto
desonesto. Parece que pelo menos a lógica prevalece, mesmo quando se parte de um
princípio de incongruência. Será que há esperança afinal? Bom a dor não é
lógica.
Então, mas e a dor que o próprio sente pela dor dos outros? Essa sim é uma dor
real. Inquestionável. Imparável? Sim, imparável! Um facto indisputado. Até então
ou até demais? Até então, sem dúvida. Até demais quem saberá? Apenas a bola de
cristal, que não há. E se houvesse seria também um alívio, mas um refúgio para a
renegação do poder de decisão. Estas esquinas estão sempre à espreita. E quando
não se presta atenção ao caminho, está-se logo a virar à direita. Só que nesta
direita não há nada de certo. É uma esquerda disfarçada de caminho correcto.
Mas essa dor pelos outros, a tal dor real, essa sim tem uma força
brutal. É a única que obriga à perpetuidade desta constante asfixia
habitual.
Tags: prosa, alma
Uma vida de contradições. São lições para mim próprio. Mas recuso-me a
aprender. Não é falta de vontade. Até sei o que fazer. É no momento de
aplicá-las que falho. Sei que falho e falho à mesma. Quero fazer melhor e falho
à mesma. Prometo-me que é a última vez que falho. Prometo-me que da próxima vez
não falharei, e falho à mesma. E não é só comigo que falho. É com os outros
também. É com os que mais dependem de mim que falho. E continuarei a falhar. E
eles continuarão a dar-me segundas oportunidades. Continuarão a tentar que o pai
seja o pai que eles precisam. Continuarão a tentar com o pai até ao dia em que
desistem. E nesse dia é um alívio, e posso respirar. Mas esse mesmo dia é o dia
em que perco. Deixo de falhar porque perco. Já não há como falhar porque já
perdi. É um alívio quando já não tem como se falhar mas não se é mais feliz
quando já se perdeu. Ideal seria não se perder e não ter como se falhar. Mas
voltar atrás não há como. Daí uma vida de contradições. Lições com as quais não
aprendo.
Tags: prosa, alma
Era meia-noite e vinte e um quando olhei para o relógio. Um copo de vinho branco
agitava-se à frequência da turbulência, da cor do engano porque afinal de contas
"red" não era branco e, ou a hospedeira não sabe inglês, ou eu não sei
alemão. Por acaso não sei alemão.
O indesejado vinho branco sabia a sumo ranhoso com bolhinhas de água das
pedras. Mas as memórias a que lembrava eram de longe comparáveis a este vinho:
eram oito meses de aventura, amor, ódio, felicidade, tristeza, arrependimento, e
saudade. Oito meses que haviam começado com um copo não tão diferente deste.
Um golo deste ranhoso de 2012 para relembrar os oito meses que passaram. O
passageiro da frente concorda e até reclina o banco para trás, trazendo-me o
copo mais perto da fonte sagrada.
A turbulência aumenta, o meu braço agita-se e gotas do ranhoso caem na minha
roupa e no caderno onde assento estes pensamentos. Como se não bastasse ter
ranhoso dentro de mim, agora também o tenho na t-shirt.
Mas o copo de há oito meses não era de ranhoso porque há oito meses eu não bebia
álcool, por uma questão de princípio. De que é que seria o copo de há oito
meses?
O copo de oito meses
A descarga emocional dos pais encontra terra no último filho que sai de casa,
que é simultaneamente muito amado e muito culpado. A acrescentar à lista de
problemas é o curioso facto de neste caso o filho ser uma fria barreira
emocional que vê a sua posição reduzida a psicólogo parental ou, por outras
palavras, uma carga de trabalhos.
Esta sóbria mente, que não vê a hora da partida, encontra-se uma vez mais a
ouvir as histórias de quando era pequeno e refilava, do quanto cresceu, e no
homem que se veio a tornar. Histórias que, uma vez mais, rejeita
impacientemente.
A partida aproxima-se, as demoras nos postos de controlo e emigração são
argumentos para sair mais cedo daquele impriosionamento, e de malas prontas
corre em direcção ao interior do aeroporto. Bejinhos, abraços e promessas de
contactos, seguidos de exageradas expressões de afecto, as quais têm de ser
acompanhadas de uma resposta devida, para evitar o risco de atravessar a linha
para o lado do anti-social.
Claro que depois desta peça de teatro, já no interior do aeroporto segue-se uma
brincadeira ainda maior: o controlo de bagagem.
Este processo é uma brincadeira porque eles tiram-nos as calças para ver a cor
das nossas cuecas, mas nem nos perguntam o que temos na mão. E se as cuecas têm
foguetões, líquidos ou são afiadas, então, temos de as colocar dentro de um
saquinho de plástico, bem fechadinho, para que não haja incidentes.
Enfim... o que vale é que podemos sempre meter-lhes as cuecas nas orelhas e
comprar novas no destino. O tax free é outra simpatia porque conseguimos
encontrar aquela garrafa de vinho que queríamos oferecer. E, no final, saímos do
tax free com a carteira mais leve do que se tivéssemos ido à loja normal.
Esta arrogância contra os aeroportos é porque apesar do fascínio de viajar, a
verdade é que aviões e turbulência dão nervoso às pessoas.
De volta ao voo
O vinho branco agitava-se e a prenûncia de que o voo turbulento cai abrubtamente
contra o mar flui pelos passageiros que na cabine gemem e gritam e verbalizam
cada um a sua própria antecipação do que procede na sua mente agitada.
E o observador que nada geme, nada diz, é o único que profeça a visão correcta
dos acontecimentos que se seguirão, e aproveita a sua vantagem natural para
apontar a profecia anunciada.
E quando o seu corpo embate nas águas do mar, os seus olhos sentem o sal a
arder, e os seus ossos se estalam no demolho, o seu corpo flutua perdido na maré
do acaso.
Mas o seu bloco de apontamentos devolve-lhe o nome e a cara, e o seu corpo é
devolvido ao destino, para que o observador e o seu bloco caminhem juntamente
numa próxima vida para que este continue o seu trabalho.
O sono invade mas os pensamentos não querem morrer, por isso, lutam para manter
a mente acordada. Mais pensamentos se alistam neste exército que luta pela sua
sobrevivência. O fraco sono cientista não é forte o suficiente para combater a
excitação de novas ideias que pretendem mudar o mundo. E, assim, todas as
noites, novas ideias nascem de neurónios que se sacrificam. E ao ver o mundo a
mudar por efeito da sua accção, o cientista sorri de alegria.
Mas não sorri por muito tempo, já que o sono ganha a senilidade como novo
aliado.
Hong Kong é um sítio de que não se gosta quando se está, e de que se precisa
quando se não tem. É a antítese do escritor, que dá sabor à escrita, inspiração
à história, e imagens para as memórias.
Mas a história, quando escrita em Hong Kong, é um ódio à distância, à cultura e
à temperatura. Mas, quando há distância, a história é uma ode aos arranha-céus,
ao rio e à passagem urbana. Ou é a saudade da família, ou é a saudade da
comida. Mas, ou é o cansaço da comida, ou o cansaço da família. Como Hong Kong
não há dois. Mas, tal como Hong Kong, só há um.
O livro do Dragão
The Book of the Dragon, buried underneath the staircase, inside the last
remaining bookcase that was used to hold several magical books in the
past. Containing unlimited power, the one possessing the book will be capable of
maneuvering any kind of force. But the last time the book was found and used it
pushed its owner straight to the grave. And the book was left forgotten on the
floor and it was naturally swept by unsettling winds, covered with dust and
buried by Nature because such a powerful tool is too unnatural to be allowed an
owner.
History also tells, in the form of another book, about his last owner, who
wielding the book in his hand navigated from this planet to a different galaxy
where he created an immortal figure, several planets and a star, which would
feed the surrounding planets of energy and warmth. He also created a language
whose elements are known as atoms and phrases as molecules. And atoms an
molecules led to greater, autonomous compounds called cells which make life
possible. And life, the byproduct of his greatest creation, evidently comsumed
him, killing his material side, but preserving his spiritual side.
But the power remains in the Book of the Dragon, not on the story of the
residual faith. And this book contains the metalanguage for life, the language
that describes the complicated equations of life. And whoever possesses this
book is capable of rewriting life as they see fit.
But no matter what rules are written in this book, there is always an invisible
equation that is impossible to escape, an equation that preserves the cycle of
life and eventually will see the owner meet its fate. In order to rule like a
god, fate has it that one must also die like a god.
The last owner realized that seeking immortality was a useless quest. So he
created life so that one day he would comeback in another form. Afterall we are
all his creation and naturally we will never escape him.
Flight 227
Flight 227 departed and was flying high until a sudden breeze of wind in a
supersonic wave replaced the atmosphere inside and outside the cabin so
abruptely that passengers' minds were only able to state what in words would
have been "one second I was seating down, the next I was free falling" if only
they had survived to say those words.
But one of the passengers did survive the fall, a physicist who understood the
quantum reaction that had taken place. And as he was free falling he developed a
theory that explained the exchange of atmospheres. He then applied this same
theory to save himself. Evidently, the satisfaction, the adrenaline caused by
the idea of falling to die was enough to believe that this theory could save
him. So his brain fooled his body, which inevitable died after impact with the
ground.
Nevertheless, there is still an explanation missing to account for these
events. Well, I guess we can just say they were also theorized by some other
mind in the eminence of death as a refusal to die.
Pecador
Sete dias haviam passado desde a última vez que pequei. Esse terminaria os 12
anos de tormento que me perseguiam de culpa. Agora, livre, poderia fazer o que
quisesse sem medo de ser perseguido para responder pelos meus pecados. A
absolvição era o que procurava. Os meus inimigos não ma queriam dar. Queriam
apanhar-me antes que eu escapasse. Mas eu venci-lhes finalmente... pelo menos
assim o achava. Agora vagueio de cidade em cidade à procura de redenção, à
procura de algo que me permita esquecer o que aconteceu.
Mas isso os meus inimigos não vão permitir, eles não vão esquecer, e as suas
vozes para sempre ecoarão na minha cabeça gritando que foi a minha fraqueza e
falta de coragem que deixou a que era mais do que preciosa para mim morrer.
Salamanca
Em Salamanca, Espanha, uma bonita cidade universitária, esconde-se uma mágoa
tremenda que o horizonte distante revela com uma lágrima ao pôr-do-Sol. Uma
lágrima que se sacrifica em queda livre, se deixa morrer, e com ela mata a
promessa de um própero e feliz futuro que sempre esteve ao meu alcance mas que a
dúvida do sucesso me fez virar costas ao mundo e esconder-me nesta bonita
cidade, preso no mesmo buraco sem sonhos onde sempre me encontrei. Podia ter
sido quem quisesse, mas era demasiado difícil e o tempo passa e cada vez mais
difícil é.
Voar
Voar sobre as núvens, que fantástico sentimento: o ar na cara, as cores do céus,
a frescura. É realmente o pouco que se pode saborear antes da morte inevitável
no chão.
Dormir é estar morto
Que dor de cabeça! Creio que se possa dizer que é o que acontece quando se pára
de dormir. No entanto, como é que se pode dormir sabendo que cada instante que
se dorme é um instante a menos que se vive? Os meus amigos tentam convencer-me
de que vivendo com uma dor de cabeça se vive menos do que dormindo. Mas como é
que eu posso chegar ao fim da vida dizendo que dormi as partes e vivi as sobras?
Sabendo que depois de viver só vou dormir?
Se dormir é estar morto,
E o viver acordado,
Quero deixar o dormir para
Quando viver já for demasiado.
E, nestes termos, dor de cabeça é a prova de que se vive, e aqueles que não a
têm, ainda que andem, respirem e comam, não estão vivos, porque viver é vontade
e não um reflexo.
Sinais
Sinais são uma prova de uma vida passada. Um zumbido no ouvido é um artefacto
descoberto de uma civilização extinta. Somos todos receptores dos sinais que
circulam neste planeta, mas somos todos ignorantes do que dizem.
Para escutar a mensagem é preciso saber escutá-la. E para saber escutar é
preciso saber que uma mensagem existe que precisa de ser escutada. Mas cada um
de nós tem uma mensagem mais importante e ainda mais desesperada: a sua própria!
Orgulho histórico
Tantos bandos de pombos inundam o Rossio, aquela que em tempos fora a praça
orgulhosa da República! A República naturalmente decai, mas os pombos ficam,
para relembrar que neste país há sempre quem cague no nosso maior orgulho
histórico.
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Ela apareceu-me nos sonhos uma vez, deixou a sua marca e nunca mais
apareceu. Durante o dia penso que ela irá novamente aparecer, espero pela noite,
mas nunca acontece.
Por isso, escrevo umas linhas sobre ela, na esperança de que o meu subconsciente
escute e programe os meus sonhos como os quero.
Eu sei que ela está viva, que está viva dentro de mim, que está a tentar entrar
em contacto comigo. Ela sabe que eu estou a tentar entrar em contacto com
ela.
Estendemos ambos as mãos o mais longe que podemos mas parece haver uma cortina
muito fina, quase invisível, que nos separa.
No hotel pérsico, em frente ao palco onde a vi pela primeira vez, encontro-me
sozinho à espera dela. Sei que ela está algures naquele plano, mas não sei
aonde.
Olho à volta, procuro-a por entre a multidão. Consigo ver a sua irmã. Ela está
no mesmo sítio onde a vi pela primeira vez. E se os acontecimentos se repetissem
ela deveria estar a aparecer agora.
Tags: prosa
Conversa com o orientador
Temos que nos manter no tópico - afirmou o meu orientador da tese de
doutoramento, como já havia feito uma dezena de vezes - Não temos tempo para
distracções - O instituto para que tinha conseguido entrar tinha bom nome e
reputação. Infelizmente, o processo de admissão não era bom para todos os
alunos. Nem todos os que entravam conseguiam um orientador competente.
Em tempos, eu tinha sido bom aluno, motivado, empenhado. Mas o tempo passado
como marioneta deste orientador havia corrompido esse espírito que uma vez
residira em mim, que me levara a ingressar neste instituto. E estes últimos
meses tinham sido os mais difíceis.
Os fins de semana eram passados na ressaca da depressão, na esperança de que o
tempo depressa passasse e que a neblina se alevantasse, mas ao mesmo tempo que a
manhã de segunda-feira nunca chegasse.
Durante a semana, o trabalho não progredia concentrado. Em vez disso, as manhãs
prolongavam-se, os dias entardeciam rapidamente, e as noites aconchegavam-se
prematuramente, e a memória de um dia inteiro não lembrava mais do que um
monitor de computador escuro, no meio do nevoeiro.
Já conversámos várias vezes sobre isto! - resumiu o orientador - Tu tens um tema
para a tua tese que se enquadra nos objectivos do grupo de investigação ao qual
pertences, por isso, tens de te focar nos trabalhos da teoria de cordas que te
dei para fazer o mês passado, e que ainda não acabaste. Eu sei que os teus
interesses não se alinham com o tema, mas quando acabares o doutoramento vais
ter muito tempo para investigares o que te interessa. E até lá não quero ouvir
mais nada sobre este assunto - Terminado o sermão, o Professor virou-se
momentaneamente de costas para se sentar no seu trono, por detrás da secretária,
e assim aproveitei este momento para, longe dos seus olhos, fazer o sinal da
cruz no ar, como o Bom penitente que agradece ao Senhor a bênção do padre.
Porque esta já era uma Missa que se rezava uma vez por semana, eu já estava
vacinado e não voltava para o meu escritório enervado, antes exausto.
O colega de escritório
O meu colega de escritório estava a par dos desencontros científicos e pessoais
entre o meu orientador e eu.
Ele ouvia as minhas desgraças, como um bom psícologo e dava-me algum apoio. Ele
tentava o seu melhor mas a verdade é que ele tinha sido um dos alunos de sorte,
tendo um bom orientador e um tópico do seu interesse, pelo que ele não era capaz
de entender.
Ao fim e ao cabo, ele acabava sempre com o discurso de irmãozinho a defender a
Ordem Templária, e eu escutava-o desatentamente enquanto admirava a grande
paisagem montanhosa e pinheiral que se defrontava diante da grande janela do meu
escritório, reclinado na cadeira e com os pés no parapeito, suspirando com
tristeza e inveja da Natureza, na esperança de que um dia de tanto olhar
conseguisse finalmente inspirar a solitária paz da paisagem, que se me reflectia
nos olhos, para os meus pulmões (coração).
Curiosamente, a solidão, já eu a tinha, mas a paz não a acompanhava.
O meu colega de escritório desaparecia por detrás do seu grande monitor,
marcando assim o fim da sua dádiva ao templo, mas para mim o tempo continuava
parado, e continuava a observar a paisagem.
Mesmo no meio de tanta desgraça nada havia que conseguisse penetrar ou derrubar
as muralhas que protegem a adrenalina que traz sexta-feira nas horas perto da
saída para o fim-de-semana, o momento que mais se distancia do início da semana,
quando não há droga forte o suficiente que dê por terminado o ciclo depressivo
semanal que é trabalhar neste instituto.
Os pais
Por causa dos estudos, não venho a casa tantas vezes quanto gostaria. Mas quando
venho fico contente por veus os meus pais novamente. Pelo menos até a realidade
do que é vir a casa assentar e os meus pais começarem novamente com as
reprimendas - Filho! - diz a minha mãe à mesa de jantar, onde se encontra o
resto da minha família - Tens tantas capacidades. Podes fazer o que quiseres da
tua vida - Não há como salientar as opotunidades que se tem para realçar ainda
mais a inaptência de uma pessoa. E continou - O instituto onde te encontras
neste momento, vais ver que as coisas vão mudar para melhor - Mal compreendia
ela a situação em que me encontrava, como me sentia sozinho e triste, mas estes
desabafos, aprendi eu com o tempo e inúmeras visitas a casa, são monólogos e por
isso nada disse. Nada havia a dizer.
O teu pai e eu não tivemos oportunidades como esta, e por isso a nossa vida foi
mais difícil do que poderia ter sido - Às vezes esqueço-me o quão importante é
não deitar fora as oportunidades que a vida traz - E já começaste a fazer
desporto? O exercício é fundamental para a saúde do corpo e da mente. É
importante o bem-estar físico e mental, para ter um sistema imunitário forte e
não ter depressão ou ansiedade - continuou.
Aceno afirmativamente com a cabeça dando a ideia de que vou cumprir todos
aqueles deveres e que concorco com tudo o que foi dito, mas sei que é mentira
porque para mim apenas aceno para indicar o fim de cada frase, que cada uma foi
escutada do princípio ao fim.
A falta de desporto, o deterioramento físico, o cansaço, a ansiedade, são
pensamentos que me assombram durante as horas de trabalho, que me roubam
momentos de concentração constantemente. São sugestões que quero à força tirar
da minha cabeça mas que foram impregnados pelo seio materno e que por isso são
tão fortes como o código genético.
Mas eu já há muito aceitei a incapacidade de controlar o pensamento. Como
físico, demonstrei num equeno artigo que mantenho junto de outros projectos, que
o cérebro humano não tem livre arbítrio. É uma prova simples, mas longa, pelo
que não me consigo recordar completamente dos detalhes enquanto me projecto da
reprimenda dos meus pais no meu cantinho de desantenção, mas é algo que recorre
a uma comparação com sistemas mais simples do que pessoas, nomeadamente,
máquinas, computadores.
Imaginemos um computador a executar um programa que toma decisões, tal como uma
pessoa faz. O computador toma a decisão de determinar se as suas decisões têm
livre arbítrio e, para isso, começa a executar um novo programa que irá produzir
essa resposta. O que este programa conclui é que o computador tem livre arbítrio
porque consegue observar um programa que o computador executa a tomar
decisões. No entanto, isto é a conclusão errada porque o programa não se
interroga quem escreveu o programa que toma decisões.
Os críticos deste trabalho que desenvolvi discordam dizendo que o programa que
toma decisões é capaz de decidir alterações a si próprio. Isto, claro, nunca foi
provado mas mesmo que fosse verdade, é possível mostrar através de indução no
tamanho do programa que este facto não é suficiente e que por isso não há livre
arbítrio.
O artigo foi naturalmente rejeitado pelo meu orientador e uma data de pessoas
que trouxeram argumentos de cariz social, teológico, e por aí fora, que para mim
não são interessantes e não gasto tempo a abordá-los.
A conclusão do artigo dizia que livre arbítrio não é só a capacidade de tomar
decisões mas é também a capacidade de alterar a maneira como pensamos e como
procedemos à tomada de decisões ou seja o exercício da vontade, o que é
incompatível com o livre arbítrio que é, por definição, o exercício da vontade.
O trabalho sabe bem como uma distracção das reprimendas dos pais, mas chegado o
comboio de ideias ao destino, disparam os meus olhos por um túnel de luz que vai
de encontro à expressão interrogativa dos meus pais, eu que surdamente os tenho
escutado nos últimos momentos, acordo numa momentânea aflição na esperança de
que a resposta correcta se me apresente como que produzida do éter e eis que
algumas sílabas ecoam da caverna do meu crânio e cambaleieam ao encontro da
palavra "Percebeste?" com um tom interrogativo.
Desde o momento da minha distracção até ao momento da inspiração divina que a
minha expressão facial se manteve constante, pelo que agora só preciso de um tom
de confronto e excessiva confiança para afimar que percebi, uma mentira ainda
maior do que a última.
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