ALMA

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Memórias de Hong Kong

August 08, 2022

Era meia-noite e vinte e um quando olhei para o relógio. Um copo de vinho branco agitava-se à frequência da turbulência, da cor do engano porque afinal de contas "red" não era branco e, ou a hospedeira não sabe inglês, ou eu não sei alemão. Por acaso não sei alemão.

O indesejado vinho branco sabia a sumo ranhoso com bolhinhas de água das pedras. Mas as memórias a que lembrava eram de longe comparáveis a este vinho: eram oito meses de aventura, amor, ódio, felicidade, tristeza, arrependimento, e saudade. Oito meses que haviam começado com um copo não tão diferente deste.

Um golo deste ranhoso de 2012 para relembrar os oito meses que passaram. O passageiro da frente concorda e até reclina o banco para trás, trazendo-me o copo mais perto da fonte sagrada.

A turbulência aumenta, o meu braço agita-se e gotas do ranhoso caem na minha roupa e no caderno onde assento estes pensamentos. Como se não bastasse ter ranhoso dentro de mim, agora também o tenho na t-shirt.

Mas o copo de há oito meses não era de ranhoso porque há oito meses eu não bebia álcool, por uma questão de princípio. De que é que seria o copo de há oito meses?

O copo de oito meses

A descarga emocional dos pais encontra terra no último filho que sai de casa, que é simultaneamente muito amado e muito culpado. A acrescentar à lista de problemas é o curioso facto de neste caso o filho ser uma fria barreira emocional que vê a sua posição reduzida a psicólogo parental ou, por outras palavras, uma carga de trabalhos.

Esta sóbria mente, que não vê a hora da partida, encontra-se uma vez mais a ouvir as histórias de quando era pequeno e refilava, do quanto cresceu, e no homem que se veio a tornar. Histórias que, uma vez mais, rejeita impacientemente.

A partida aproxima-se, as demoras nos postos de controlo e emigração são argumentos para sair mais cedo daquele impriosionamento, e de malas prontas corre em direcção ao interior do aeroporto. Bejinhos, abraços e promessas de contactos, seguidos de exageradas expressões de afecto, as quais têm de ser acompanhadas de uma resposta devida, para evitar o risco de atravessar a linha para o lado do anti-social.

Claro que depois desta peça de teatro, já no interior do aeroporto segue-se uma brincadeira ainda maior: o controlo de bagagem.

Este processo é uma brincadeira porque eles tiram-nos as calças para ver a cor das nossas cuecas, mas nem nos perguntam o que temos na mão. E se as cuecas têm foguetões, líquidos ou são afiadas, então, temos de as colocar dentro de um saquinho de plástico, bem fechadinho, para que não haja incidentes.

Enfim... o que vale é que podemos sempre meter-lhes as cuecas nas orelhas e comprar novas no destino. O tax free é outra simpatia porque conseguimos encontrar aquela garrafa de vinho que queríamos oferecer. E, no final, saímos do tax free com a carteira mais leve do que se tivéssemos ido à loja normal.

Esta arrogância contra os aeroportos é porque apesar do fascínio de viajar, a verdade é que aviões e turbulência dão nervoso às pessoas.

De volta ao voo

O vinho branco agitava-se e a prenûncia de que o voo turbulento cai abrubtamente contra o mar flui pelos passageiros que na cabine gemem e gritam e verbalizam cada um a sua própria antecipação do que procede na sua mente agitada.

E o observador que nada geme, nada diz, é o único que profeça a visão correcta dos acontecimentos que se seguirão, e aproveita a sua vantagem natural para apontar a profecia anunciada.

E quando o seu corpo embate nas águas do mar, os seus olhos sentem o sal a arder, e os seus ossos se estalam no demolho, o seu corpo flutua perdido na maré do acaso.

Mas o seu bloco de apontamentos devolve-lhe o nome e a cara, e o seu corpo é devolvido ao destino, para que o observador e o seu bloco caminhem juntamente numa próxima vida para que este continue o seu trabalho.

O sono invade mas os pensamentos não querem morrer, por isso, lutam para manter a mente acordada. Mais pensamentos se alistam neste exército que luta pela sua sobrevivência. O fraco sono cientista não é forte o suficiente para combater a excitação de novas ideias que pretendem mudar o mundo. E, assim, todas as noites, novas ideias nascem de neurónios que se sacrificam. E ao ver o mundo a mudar por efeito da sua accção, o cientista sorri de alegria.

Mas não sorri por muito tempo, já que o sono ganha a senilidade como novo aliado.

Hong Kong é um sítio de que não se gosta quando se está, e de que se precisa quando se não tem. É a antítese do escritor, que dá sabor à escrita, inspiração à história, e imagens para as memórias.

Mas a história, quando escrita em Hong Kong, é um ódio à distância, à cultura e à temperatura. Mas, quando há distância, a história é uma ode aos arranha-céus, ao rio e à passagem urbana. Ou é a saudade da família, ou é a saudade da comida. Mas, ou é o cansaço da comida, ou o cansaço da família. Como Hong Kong não há dois. Mas, tal como Hong Kong, só há um.

O livro do Dragão

The Book of the Dragon, buried underneath the staircase, inside the last remaining bookcase that was used to hold several magical books in the past. Containing unlimited power, the one possessing the book will be capable of maneuvering any kind of force. But the last time the book was found and used it pushed its owner straight to the grave. And the book was left forgotten on the floor and it was naturally swept by unsettling winds, covered with dust and buried by Nature because such a powerful tool is too unnatural to be allowed an owner.

History also tells, in the form of another book, about his last owner, who wielding the book in his hand navigated from this planet to a different galaxy where he created an immortal figure, several planets and a star, which would feed the surrounding planets of energy and warmth. He also created a language whose elements are known as atoms and phrases as molecules. And atoms an molecules led to greater, autonomous compounds called cells which make life possible. And life, the byproduct of his greatest creation, evidently comsumed him, killing his material side, but preserving his spiritual side.

But the power remains in the Book of the Dragon, not on the story of the residual faith. And this book contains the metalanguage for life, the language that describes the complicated equations of life. And whoever possesses this book is capable of rewriting life as they see fit.

But no matter what rules are written in this book, there is always an invisible equation that is impossible to escape, an equation that preserves the cycle of life and eventually will see the owner meet its fate. In order to rule like a god, fate has it that one must also die like a god.

The last owner realized that seeking immortality was a useless quest. So he created life so that one day he would comeback in another form. Afterall we are all his creation and naturally we will never escape him.

Flight 227

Flight 227 departed and was flying high until a sudden breeze of wind in a supersonic wave replaced the atmosphere inside and outside the cabin so abruptely that passengers' minds were only able to state what in words would have been "one second I was seating down, the next I was free falling" if only they had survived to say those words.

But one of the passengers did survive the fall, a physicist who understood the quantum reaction that had taken place. And as he was free falling he developed a theory that explained the exchange of atmospheres. He then applied this same theory to save himself. Evidently, the satisfaction, the adrenaline caused by the idea of falling to die was enough to believe that this theory could save him. So his brain fooled his body, which inevitable died after impact with the ground.

Nevertheless, there is still an explanation missing to account for these events. Well, I guess we can just say they were also theorized by some other mind in the eminence of death as a refusal to die.

Pecador

Sete dias haviam passado desde a última vez que pequei. Esse terminaria os 12 anos de tormento que me perseguiam de culpa. Agora, livre, poderia fazer o que quisesse sem medo de ser perseguido para responder pelos meus pecados. A absolvição era o que procurava. Os meus inimigos não ma queriam dar. Queriam apanhar-me antes que eu escapasse. Mas eu venci-lhes finalmente... pelo menos assim o achava. Agora vagueio de cidade em cidade à procura de redenção, à procura de algo que me permita esquecer o que aconteceu.

Mas isso os meus inimigos não vão permitir, eles não vão esquecer, e as suas vozes para sempre ecoarão na minha cabeça gritando que foi a minha fraqueza e falta de coragem que deixou a que era mais do que preciosa para mim morrer.

Salamanca

Em Salamanca, Espanha, uma bonita cidade universitária, esconde-se uma mágoa tremenda que o horizonte distante revela com uma lágrima ao pôr-do-Sol. Uma lágrima que se sacrifica em queda livre, se deixa morrer, e com ela mata a promessa de um própero e feliz futuro que sempre esteve ao meu alcance mas que a dúvida do sucesso me fez virar costas ao mundo e esconder-me nesta bonita cidade, preso no mesmo buraco sem sonhos onde sempre me encontrei. Podia ter sido quem quisesse, mas era demasiado difícil e o tempo passa e cada vez mais difícil é.

Voar

Voar sobre as núvens, que fantástico sentimento: o ar na cara, as cores do céus, a frescura. É realmente o pouco que se pode saborear antes da morte inevitável no chão.

Dormir é estar morto

Que dor de cabeça! Creio que se possa dizer que é o que acontece quando se pára de dormir. No entanto, como é que se pode dormir sabendo que cada instante que se dorme é um instante a menos que se vive? Os meus amigos tentam convencer-me de que vivendo com uma dor de cabeça se vive menos do que dormindo. Mas como é que eu posso chegar ao fim da vida dizendo que dormi as partes e vivi as sobras? Sabendo que depois de viver só vou dormir?

Se dormir é estar morto,
E o viver acordado,
Quero deixar o dormir para
Quando viver já for demasiado.

E, nestes termos, dor de cabeça é a prova de que se vive, e aqueles que não a têm, ainda que andem, respirem e comam, não estão vivos, porque viver é vontade e não um reflexo.

Sinais

Sinais são uma prova de uma vida passada. Um zumbido no ouvido é um artefacto descoberto de uma civilização extinta. Somos todos receptores dos sinais que circulam neste planeta, mas somos todos ignorantes do que dizem.

Para escutar a mensagem é preciso saber escutá-la. E para saber escutar é preciso saber que uma mensagem existe que precisa de ser escutada. Mas cada um de nós tem uma mensagem mais importante e ainda mais desesperada: a sua própria!

Orgulho histórico

Tantos bandos de pombos inundam o Rossio, aquela que em tempos fora a praça orgulhosa da República! A República naturalmente decai, mas os pombos ficam, para relembrar que neste país há sempre quem cague no nosso maior orgulho histórico.

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