ALMA

ALMA é arte - ALMA is art

Realidade paradisíaca

September 14, 2025

A hipótese de que a realidade é um sonho advém quando a realidade não satisfaz. Mas o que realmente se passa é o próprio que nela se sente incapaz.

Se a realidade é real ou simulação é uma questão trivial. Não porque a resposta é sabida, mas sim porque esta questão não pode ser respondida.

Questões triviais não merecem o incómodo. Trazem transtornações desnecessárias, que perturbam a sanidade do todo.

Dito de outra maneira: se a realidade actual é uma que eu hostilizo, que razão há para acreditar que a realidade que lhe deu vida será o Paraíso?

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Beijo

September 12, 2025

Sinto as tuas mãos suaves nos meus ombros. Para os meus braços deslizam, os cotovelos em brincadeira beliscam, até que os pulsos apertam.

Sinto o teu desejo nas minhas mãos. Ele aperta com força nelas, rouba-me o controlo, e puxa-me na tua direção.

Sinto o teu peito a acariciar o meu. Olhas-me de alto a baixo porque precisas de ver que a tua aura sedutora me faz todo teu.

Sinto-me arrastado pelo sentimento. Abandono a razão, e deixo-me ir, para saber onde me vai levar este momento.

Sinto a tua feição invadir o meu espaço. Não consigo olhar nos teus olhos penetrantes. Olho para a parede de embaraço.

Sinto as tuas mãos a despentearem-me os cabelos, e o carinho delas no meu rosto. Quero-as como almofada, mas tu pões-me de volta no meu posto.

Sinto que exiges obediência, que só no momento de maior desespero, que só quando me sinto ofegante irás ceder, e conceder-me audiência.

Sinto-me finalmente um servente total da tua divindade. Sei que é neste momento que vem o beijo que por tanto ansiava. O beijo da felicidade.

Mas de repente, lembro-me que isto é um sonho. Um pedaço da minha imaginação. Gostava de alguém que me amasse, me beijasse, me fizesse sentir vivo assim. Gostava muito. Mas infelizmente não tenho, não.

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A Luz

September 10, 2025

Ó Luz, encontra-me! Iluminas aqui e acolá, e só a mim deixas na escuridão? Que mal te fiz para me deixares sem sentido, sem rumo, sem razão?

É isso que é estar vivo, eu encontrar a minha própria Luz? É a isso que achas que "Liberdade" se reduz?

Ó Luz explica-me lá então, como posso ser eu livre quando eu sou também prisioneiro da tua decisão?

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Quando me for

September 10, 2025

Quando me for, deixarei os meus escritos, com tudo aquilo que gostava de ter dito, com tudo aquilo que era importante para mim, correndo o risco de que quanto mais neste mundo estiver enraizado, mais difícil será para os que ficam para trás quando eu estiver do outro lado.

Quando me for, haverá os que viram, os que ouviram, e os que sabem; os que disseram, que ajudaram, e que fazem. Haverá toda e mais alguma gente que antes de me ir não constavam, e logo no momento seguinte aos molhos como erva daninha brotam.

Por isso, nos escritos aparecem os que estavam na altura e mais não. E quem diz que lá estava e não aparece escrito, ou é mentiroso, ou é ladrão.

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Segredos

September 09, 2025

Dobrada, a folha de papel esconde os seus segredos no interior, ficando duas belas e claras páginas de tamanho menor.

E é verdade que desdobrada a folha-se novamente maior, com todos os seus segredos para contar, mas fica também um vínculo no meio da folha que não dá mais para apagar.

Por isso, é que te digo, Ó minha querida: tira o nariz das minhas coisas e mete-te na tua vida.

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Ganhar a perda

September 05, 2025

Há uma dor que me olha nos olhos com um olhar frio e, assim que sinto o seu olhar, olho para a distância segura, onde me refugio.

Ela olha para mim confiável porque me quer contar a verdade. E eu com medo escolho viver em mentira, que é um alçapão para a infelicidade.

E assim neste desencontro de olhares, a verdade e a mentira vão batalhando, e quanto mais ganho neste duelo traidor, mais tempo vou gastando.

E quando dele sair vencedor, a sobra da vida que me restará vai mostrar-me como afinal fui eu o perdedor.

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Negação

September 05, 2025

Eu sei o que é preciso fazer e não faço. Adio, adio e adio, até quase me esquecer daquilo que eu sei que preciso de fazer.

Mas não é por adiar que o problema vai embora. Intensifica-se mais ainda porque até ele mesmo está à espera de uma resolução que a dor cinde.

Portanto, o meu saber e a minha dor unem-se em interrogação, tentando perceber por que é que eu estou em negação?

Eu até responderia só que infelizmente não sei. E se for por falta de coragem... bom, então assim nem o direi.

Ou direi amanhã, quando... se souber ao certo. E até lá continuarei a fugir, prolongando esta dor que há muito me vem a perseguir.

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Aventura

June 24, 2025

A minha paixão é simultaneamente o meu sofrimento.

Chama por mim quando me ausento muito tempo.

Dá-me preocupações, medos, insegurança, porque me submeto totalmente à sua confiança.

Dá-me incomparável prazer nas aventuras que só ele me pode oferecer.

Quando me sento ao volante, deslizo sobre a estrada. Tudo são possibilidades em diante.

O desejo nasce em sonhos. O destino marcado no mapa. E o jipe faz-se à estrada.

Não há nada fora de alcance. Basta coragem e imaginação, e todos os desejos vão de miragem a realização.

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Escutar

June 24, 2025

Um caderno, uma Parker de mola, e um café. São os ingredientes para abrir a mente. E despejar cá para fora tudo o que está entulhado lá dentro.

A mente vai constantemente sussurrando, mas quando é para ter uma conversa a sério, fecha-se no quarto como um adolescente na idade do armário.

Para saber o que se pensa, não basta pensar nessa questão. É preciso tocar à campainha, bater à porta e perguntar à mente se estão.

Porque embora "eu penso, logo existo", a mente seja eu, e eu a mente, a verdade é que ela só consegue um diálogo com o subconsciente.

Por isso, aquilo que se quer e não quer pouco importa. Nas questões da mente, é preciso escutar e saber ouvir. E um caderno, caneta, e café são como um terapeuta sentado na sua cadeira, aberta a porta.

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Amizade

April 28, 2025

Do alto da montanha, o horizonte desvenda uma solitária vastidão que me faz sentir, neste mundo, minúsculo como um grão.

Que pensará o horizonte quando me vê lá no alto? Deixa-lo-á a árdua jornada ao topo exalto?

Ou serei eu assim tão insigificante para o horizonte que mais ou menos um grão no monte não é importante?

Pessoas há mais de um bilião, então porque se há-de o horizonte incomodar se eu, ou outra alma perdida, tentar chamar à sua atenção?

Fosse toda a humanidade ao monte, isso seria de grande admiração. Até me juntaria ao horizonte para melhor louvar essa peregrinação.

Quão egoísta serei eu? Quero que o horizonte pense só em mim, quando ele já tem que correr sem fim para acompanhar o céu.

Não!

Eu vou descer desta montanha após inspirada a solitária vastidão. Sinto-me mais pequeno, sim, mas não tão sozinho assim porque por um momento o meu amigo horizonte tocou-me no coração.

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Cidade

April 28, 2025

Para ti voltei outra vez. Tu, ó cidade, que me outrora protegeras. Tu que outrora um lar acolhedor e seguro me deras. Tu que nunca me rejeitaras.

Mas há algo de diferente em ti. Será que tu mudaste ou fui eu que cresci?

A comida saborosa que me alimentara a barriga e as memórias tem outro sabor.

O teu harmonioso tempo e a calorosa temperatura têm agora outro calor.

As tuas praias que durante anos ansiei com euforia, sentir novamente a brisa fresca e admirar a costa, já não oferecem a mesma sabedoria.

Porque antigamente eras tu, cidade, e eu, navegador desnorteado, que na tua perdurável magnificência os meus medos via espelhados

e nesses teus alicerces inabaláveis eu sentia uma coragem que reduzia qualquer medo a uma mera miragem.

Mas agora tu e eu já não somos só nós os dois, sós de mão dada no nosso cantinho secreto a contemplar o mar e o céu.

Eu semeei a minha vida e agora já há quem olhe para mim da mesma maneira que eu outrora olhei para ti também.

E portanto voltei mas não para ficar. Os teus alicerces continuam inabaláveis e a tua silhueta no mar continuará espelhada por muitos anos que virão, mesmo depois desta minha despedida inesperada, o fim da nossa paixão.

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Cela

April 25, 2025

Faz-me sentir. Faz-me novamente viver. Inspira-me a escapar deste buraco onde me sinto a morrer.

A vida está toda lá fora. Quase lhe chego com a mão. Há uma força que me enclausura numa cela de medos chamada depressão.

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Escritos

April 25, 2025

Quem me quiser entender, irá querer ler o que deixei por escrito.

Quem me conhecer, saberá que o que ficou por escrito é muito diferente do que o que fora dito.

Quem me amar, irá ter os meus cadernos numa prateleira para os admirar e salvaguargar.

Pelo que o autor prestar-se à Verdade é desperdiçada dedicação: o núcleo familiar mais íntimo não lê os escritos porque são de estimação, enquanto a massa que os lê é desconfiada e chega a errada conclusão.

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Medo

April 25, 2025

É só quando anoitece que a escuridão um espaço seguro e corajoso me oferece.

À noite, vigio a cidade e alimento-me da sua energia nocturna sem revelar a minha identidade.

Só a luz do luar me revela, pelo que salto de canto em canto escuro, sempre fugindo dela.

E se me vêem é por um instante somente, nunca tendo a certeza se fora apenas uma ilusão da mente.

Não sou super-herói, ou observador, ou cronista. A minha coragem só nasce quando não estou sob vista.

A apaziguadora constância da noite perdura até que amanhece, e só nela é que a incerteza da vida perece.

A maior parte vê na multidão diurna o auge social, enquanto eu rodeado dessas pessoas sinto um terror abismal.

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Ninguém

April 25, 2025

A vida trouxe-me a este lugar desconhecido. Não sou corajoso ou destemido. Não conheço aqui ninguém e para os outros sou ninguém também. Ando camuflado pela multidão, vestido como eles e a minha cara sem expressão.

O único traço que deles me separa é o segredo de onde eu viera, por onde errara. Mas como poderei ao certo dizer eu, se realmente todos os outros não terão também um segredo como o meu?

Tags: alma, prosa-lírica

Jornada

April 24, 2025

Dizem que a vida deve ser vivida como uma jornada e não como uma concretização porque na janela temporal limitada em que vivemos são mais os momentos em trânsito do que o número de sucessos provindos da nossa realização.

Se orquestrarmos a nossa felicidade em torno dos sucessos e não da jornada, enfrentamos uma vida de sucessivos momentos árduos, repleta de insucessos, e de infelicidade.

A ambição que serve a concretização e não a jornada de propósito é desprovida, e desta maneira não acrescenta qualquer significado à vida.

Esta ambição tem como origem uma bruta força de vontade sua que não consegue explicar de onde vem ou porque actua.

Porque ela existe por existir e mais não precisa de justificação, ela consegue impulsionar uma vida inteira em direcção à concretização sem precisar de explicação.

Após uma vida vivida com uma ambição questionável, olhando para trás faltam pois os momentos que haveriam tornado essa vida memorável.

Tags: alma, prosa-lírica

Pai

April 24, 2025

Leva-me à floresta. Ouvi falar de uma caverna lá escondida decorada com cristais a brilhar.

Sozinho não sairia do nosso lar, mas de mão dada à tua tenho coragem para ir a qualquer lugar.

És tão mais forte e maior do que alguma vez serei, ultrapassas o impossível mas como não sei.

Os dias em que não estás são tristes e correm mal, mas os outros, na tua companhia, são o que na vida há de mais especial.

Por isso, fica comigo para sempre e nunca te vás embora. O melhor tempo juntos que alguma vez teremos é aquele que temos agora.

Assinado "pai" (alónimo) porque o autor ainda não tem idade para assinar.

Tags: prosa-lírica, pai

Verdade

April 24, 2025

Esta enormidade tecnológica é tal avançada que nenhum de nós, ninguém do nosso povo, a sabe explicar. É tal avançada como se de o futuro tivesse vindo. Mas ao mesmo tempo, ela foi encontrada em escavações arqueológicas, no tempo dos nossos antepassados.

Lá dentro há arquivos e registos históricos da sua trajectória e da sua despenhagem. São pistas para o nosso passado, para a nossa origem, para percebemos de onde viemos.

Mas como pode ser esta descoberta simultaneamente uma tecnologia do futuro e um artefacto do passado?

Haverá um ciclo no tempo, que une o futuro ao passado? Ou seremos nós o povo terreno enquanto eles o povo do espaço? Ou terá o nosso povo sofrido uma involução?

Os nossos antepassados deixaram as naves, deixaram a tecnologia, deixaram a conquista do Espaço.

Pararam com os ensinamentos em engenharia, em física, em propulsão.

Voltaram a uma vivência simples, a uma vivência tribal, a uma vivência funcional.

Gerações sucessivas esqueceram a sua trajectória Espacial, o seu sistema solar de origem, a sua terra natal.

Mas a magia, ela é real. Não viera da estratosfera. Parte deste mundo sempre fizera, e para o nosso povo é uma tradição cultural.

Do vasculho da memória do meu povo procuro perceber quem sou. Perdida no passado está a tal avançada tecnologia, suplantada por uma vivência simples acompanhada de magia.

A minha curiosidade arqueológica faz-me crer numa involução. Mas ao mesmo tempo, a felicidade de uma vivência mágica faz-me crer ainda mais que a tecnologia não é senão um passo intermédio na Evolução.

Onde a Verdade verdadeiramente se situa ninguém sabe, mas há-de estar entre duas crenças, uma arqueológica e uma de felicidade.

Tags: ficção-científica, prosa-lírica

Estrelas

April 23, 2025

Vem comigo ver as estrelas ao parque. Há um candeeiro lisboeta ao lado de um banco de jardim. Quando nos sentamos juntos a ver estrelas, o tempo parece não ter fim.

Quando vejo os teus grandes olhos esqueço-me do porquê de estarmos sentados no banco de jardim, e apenas nos teus olhos consigo pensar.

Quanto sinto a tua mão na minha, um arrepio solta uma faísca, e toda a paisagem do parque e das estrelas desaparece. Apenas a luz do candeeiro sob nós como um foco de luz radiante permanece.

E quanto sinto os teus calorosos e húmidos lábios no meus, um calor pulsante no coração nasce e rapidamente se dispersa dos pés às mãos, e por breves momentos toda a realidade desvanece.

Este é o meu desejo e todos os dias quero viver esta sensação. E por isso todos os dias no parque lá me sento na esperança de que este meu desejo seja também o teu, e de que por lá apareças no parque à mesma hora que eu.

Tags: amor, prosa-lírica

Lar

April 23, 2025

A nossa casa é o nosso lar. Mas onde fica o nosso lar? É o país onde vivemos? É o país da língua que falamos? Ou da língua que faláramos?

É onde escolhemos? Ou onde queremos estar?

É onde o destino nos leva? Ou para onde as memórias mais fortes nos estão a chamar?

É um sítio real ou imaginário? Será até que existe neste mundo, nesta vida, neste calendário?

E se não existe poderá ser construído? Ou permanecerá para sempre um sonho obstruído?

Haverá sequer uma pergunta que o possa interrogar? Ou permanecerá para sempre um vácuo que a alma não irá colmatar?

É "lar" um segredo que se possa revelar?

Ou é uma terra de sonhos no Sul da França?

Ou é um acrónimo de três letras que significa Liberdade, Amor, Realização?

Ou é uma palavra do dicionário?

Seja qual for o significado de "lar" ainda procuro esse significado para mim.

Tags: alma, prosa-lírica

Pior

April 23, 2025

Gritas comigo, desfazes-me e deixas-me em pedaços. Que valor têm para ti estes nossos laços de amor? Quando dizes, fazes ou tocas deixas tudo pior.

O melhor é deixar estar. Cala-te e esquece. Até água fervente deixada a um canto sempre arrefece. Já uma quente panela de pressão se abanada em demasia pode provocar uma explosão.

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Coisas pequenas

February 03, 2025

Coisas pequenas fazêmo-las às dezenas e depois mais tarde são toda a nossa recordação.

Já coisas grandes, duas ou três apenas fazemos por ambição mas facilmente perdemos a direcção.

Somadas grandes e pequenas temos uma vida plena, do recordado e esquecido, do falhado e sucedido.

Resta pois o juízo da vida terrena, se convida ao Paraíso, ou se fora dele condena?

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Não aguento mais

February 02, 2025

O limite fora atingido, está ultrapassado e será o colapso. Tudo tem a sua medida e tem de ser equilibrado. E, quando para além do limite excede, fica tudo estragado.

É como um balão cheio, que enche mais e rebenta, fica tudo de olhos nos outros a ver se o culpado a responsabilidade enfrenta.

Mas de quem é realmente a culpa? É do balão que se deixou encher em demasia? Ou do sistema que governa as condições que permitiram o sucedido acontecer?

É fácil reatribuir as culpas e desprover-se de responsabilidade. Traz um grande grau de conforto e de legitimidade à inacção do próprio que não se consegue governar, e que continuamente aceita as decisões de um sistema que não consegue mudar.

E se a questão de culpa não se pode decidir, será que ela faz alguma diferença? Ou é mais importante presidir ao julgamento que decidiu que esta vida é uma sentença?

É que se de sentença se trata, então o castigo está explicado e não há mais nada a saber. Mas caso contrário, então há algo de muito errado no que eu ando para aqui a fazer.

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Profundo

January 31, 2025

Há um sentimento profundo, angustioso, que me fissura o coração. E desse estreito doloroso nasce uma amargura que me deixa em aflição.

O espírito aventureiro curioso desmoronara-se com a dura e pesada força da consternação. E no seu lugar encontrara um fantasma zeloso que desfaz o dia em noite escura e só subsiste se socorrido no seio da solidão.

Um involuntário instinto horroroso apavoradamente procura, e até reza, por uma solução. E o pavor é de tal maneira impetuoso que se esquece que a Vida é pura, e tenta forçar uma resolução.

No final sobra um fundo tenebroso: no espelho sinto-me irreconhecível criatura e fora dele pela morte uma cintilante atracção.

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Desconhecia

January 30, 2025

Era uma resolução minha absoluta na altura ser o mais dedicado que se pode ser. Há uma responsabilidade para com o Bem que é carregada nos ombros diariamente, que pesa, e que tem como missão entregar à sociedade aquilo que é o cidadão mais dedicado, o indivíduo melhor, que através do exemplo poderá conduzir sociedade para um Estado de maior igualdade e bondade.

Mas na altura, na minha inocência e ignorância, desconhecia, que o mundo não ser melhor não é por falta de exemplos, mas porque a ganância do individualismo é que rege o dia-a-dia.

Nasce assim um desequilíbrio porque os que querem o Bem de todos não conseguem através do argumento moral convencer os individualistas a aceitar um justo mercado económico social se esse ousa taxar os interesses individualistas sobre o capital.

Se assumirmos que toda a gente defende acima de tudo a sua riqueza individual, então todos os argumentos a favor do Bem social facilmente levam à desconfiança e facilmente se vêem como mentiras, até porque na sua maior parte mentir não é ilegal.

E com mentira metida na equação não é difícil conceber o capitalismo puro, a ideia de que o mercado não se preocupa com a mentira porque há competição.

Ou assim aparenta ser na brochura. Mas a realidade do capitalismo puro é bem mais dura porque o poder aliado à riqueza leva à desigualdade, e a oligarquia que a controla domina o mercado que serve a sociedade.

Portanto aquilo que começou por ser a expulsão da mentira retórica, como uma jornada, acabou tão ou maior mentira depois de implementada.

E é por isso que a única maneira de defender o Bem moral é através do mercado regulado do Estado económico social, codificado na Constituição que serve a todos equitativamente, e através de um Estado de direito que justamente se impõe como legal.

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Mentira e verdade

January 30, 2025

Há uma mentira que da sua verdade cara-metade é inseparável, e daí a memória da realidade que as criou ser indecifrável.

Para escapar do memorial nevoeiro, se a mentira é habilidosa ou a verdade duvidosa, é uma aposta, não tão diferente de rezar ao santo padroeiro e querer receber uma resposta.

Desta amnésia nasce inevitavelmente uma questão irresoluta, da qual não dá para forçar uma resposta para o passado esquecido de forma absoluta.

Mas não há qualquer tipo de ansiedade quando a memória está perdida. Nós repetimos vezes e vezes sem conta, dia após dia, "Não me lembro" e de novo segue a vida.

Por isso é que eu estou para aqui falando com os botões meus, questionando-me por que é que quando nos esquecemos da nossa origem, nós precisamos de invocar Deus?

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Energia

January 29, 2025

A vida é uma onda. São altos e baixos periódicos. São picos de energia que nos sustentam na travessia do dia, que nos apoiam com momentos de alegria. Que se opõem à prevalência da tristeza, à dormência deprimida que desgoverna a grande parte da vida.

Sorte dos que com um equalizador na alma nasceram, pois no meu caso os picos são sempre eufóricos porque não há alegria, e o que resta passada a euforia são longos cursos melancólicos de alta voltagem distorcidos pelo amplificador da dor.

Altímetros e voltímetros acusariam imediatamente qualquer problema derivado da corrente. Mas tendo em conta que toda a terapia fora psicológica e introspectiva, não há qualquer diagnóstico que se aguente.

Porque há problemas e problemas. Há os que se medem e os que se conversam. Mas se damos voltas a isto, o paciente entra e sai visto, e o problema não medido é aquele que dá com o paciente jazido.

Bom, pelo menos dá sempre mais para conversar.

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A vida é boa

November 15, 2024

"A vida é boa" - isso é uma declaração de facto ou uma expressão de alegria? Se de um facto se trata, então mostrem-me a prova. Mas se afinal é expressão, então não dependerá de quem a evoca?

Agora, quererem passar expressão por facto, ou como quem diz gato por lebre, é uma canalhice tão atrevida que me enfurece de tal maneira que até dá febre.

Esse lembrete "A vida é boa" é um maltrapilho ideológico, que visa a entranhar-se na mente com o tempo para instaurar uma doutrina no momento psicológico.

Mas eu contra todas essas doutrinações já estou mais que vacinado, nem que seja por ter aqui um lembrete que diz que todos os outros lembretes não passam de propaganda de Estado.

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Conforto

November 14, 2024

A constante busca do conforto para fugir ao sofrimento é uma tentação irresistível.

Há quem lide com a ansiedade comendo. Há quem lide bebendo. Há quem lide com o sofrimento sofrendo.

O conforto é um remédio que trata mas não cura, porque para ultrapassar o sofrimento é preciso uma alma segura. Mas também repleta de alegria e força de vontade, capaz de gerar energia suficiente para derrotar a mágoa e saudade, em vez de sucumbir para a depressão à mínima contrariedade.

Para quem ache que o conforto não é mais do que uma mordomia, desconvença-se porque para onde a vida nos leva nem sempre é o que se queria.

Do mesmo modo que uma droga alivia o sofrimento, estes viciantes confortos prazerosos permitem-me esquecer a dor e respirar nem que seja por um momento.

E assim dia-após-dia fujo do mundo que me rodeia, e refugio-me num mundo criado dentro de mim que me reclui como cativo de uma vivência prisioneira.

Mas no balanço de contas vale mais ser prisioneiro de um mundo protegido do que ser livre num mundo vulnerativo.

Será? Mesmo? Não!

Nem eu próprio, na minha estratégia de autodefesa, consigo acreditar. Eu não tenho é a força de vontade necessária para esta fraqueza ultrapassar, e a minha vida finalmente conseguir mudar.

Provavelmente creio que o ideal estará numa próxima vida, já depois de morto. Mas o mais provável é esta desculpa iludida não ser mais do que uma nova artimanha atrevida desse meu mundo interno para me dar conforto.

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Paixão

November 09, 2024

Durante muito tempo achava que paixão era algo que existia dentro de uma pessoa, em mim por exemplo. E que era algo que uma pessoa tinha mais ou tinha menos. Era uma característica individual. E mais do que isso era também algo que essa pessoa exercia, uma vez mais, podendo exercer mais ou exercer menos.

Parecia que era Bem, que era melhor, quando eu sentia mais paixão, mas mais importante quando eu fazia o esforço de exercer essa paixão, mostrá-la à minha alma gémea, e colher a minha alegria na alegria dela.

E parece que durante muito tempo assim foi. Até que chegou uma altura em que eu só colhia o que plantava e quando não plantava não colhia. Era unidireccional. Aliás passou a ser unidireccional.

Por isso, surgiu a questão: porquê exercer a paixão de todo? Porquê ser eu responsável pela paixão do dois? Não deverá haver uma igualdade de ambas as partes?

Como disse antes há a parte do exercício da paixão e há a parte da residência dessa paixão. Na ausência da recepção dessa paixão, poderei questionar se a paixão por mim existe de todo?

Queira ou não questionar, essa dúvida existe certamente e vai ser muito difícil arranjar maneira de a clarificar: não há maneira simples de perguntar e não parece haver maneira de obter a resposta senão perguntando.

A dúvida provocada pela paixão não correspondida não tem como ser abordada a não ser que respondida essa difícil questão que põe em causa se a paixão já estará mesmo perdida.

Mas como aceitar o risco do que poderá suceder se a aparente solução for criadora do problema que tenta resolver? Daí o dilema.

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