A hipótese de que a realidade é um sonho advém quando a realidade não
satisfaz. Mas o que realmente se passa é o próprio que nela se sente
incapaz.
Se a realidade é real ou simulação é uma questão trivial. Não porque a
resposta é sabida, mas sim porque esta questão não pode ser
respondida.
Questões triviais não merecem o incómodo. Trazem transtornações
desnecessárias, que perturbam a sanidade do todo.
Dito de outra maneira: se a realidade actual é uma que eu hostilizo,
que razão há para acreditar que a realidade que lhe deu vida será o
Paraíso?
Tags: laranja, prosa-lírica
Sinto as tuas mãos suaves nos meus ombros. Para os meus braços
deslizam, os cotovelos em brincadeira beliscam, até que os pulsos
apertam.
Sinto o teu desejo nas minhas mãos. Ele aperta com força nelas,
rouba-me o controlo, e puxa-me na tua direção.
Sinto o teu peito a acariciar o meu. Olhas-me de alto a baixo porque
precisas de ver que a tua aura sedutora me faz todo teu.
Sinto-me arrastado pelo sentimento. Abandono a razão, e deixo-me ir,
para saber onde me vai levar este momento.
Sinto a tua feição invadir o meu espaço. Não consigo olhar nos teus
olhos penetrantes. Olho para a parede de embaraço.
Sinto as tuas mãos a despentearem-me os cabelos, e o carinho delas no
meu rosto. Quero-as como almofada, mas tu pões-me de volta no meu
posto.
Sinto que exiges obediência, que só no momento de maior desespero, que
só quando me sinto ofegante irás ceder, e conceder-me audiência.
Sinto-me finalmente um servente total da tua divindade. Sei que é
neste momento que vem o beijo que por tanto ansiava. O beijo da
felicidade.
Mas de repente, lembro-me que isto é um sonho. Um pedaço da minha
imaginação. Gostava de alguém que me amasse, me beijasse, me fizesse
sentir vivo assim. Gostava muito. Mas infelizmente não tenho, não.
Tags: laranja, prosa-lírica
Ó Luz, encontra-me! Iluminas aqui e acolá, e só a mim deixas na
escuridão? Que mal te fiz para me deixares sem sentido, sem rumo, sem
razão?
É isso que é estar vivo, eu encontrar a minha própria Luz? É a isso
que achas que "Liberdade" se reduz?
Ó Luz explica-me lá então, como posso ser eu livre quando eu sou
também prisioneiro da tua decisão?
Tags: laranja, prosa-lírica
Quando me for, deixarei os meus escritos, com tudo aquilo que gostava
de ter dito, com tudo aquilo que era importante para mim, correndo o
risco de que quanto mais neste mundo estiver enraizado, mais difícil
será para os que ficam para trás quando eu estiver do outro lado.
Quando me for, haverá os que viram, os que ouviram, e os que sabem; os
que disseram, que ajudaram, e que fazem. Haverá toda e mais alguma
gente que antes de me ir não constavam, e logo no momento seguinte aos
molhos como erva daninha brotam.
Por isso, nos escritos aparecem os que estavam na altura e mais não. E
quem diz que lá estava e não aparece escrito, ou é mentiroso, ou é
ladrão.
Tags: laranja, prosa-lírica
Dobrada, a folha de papel esconde os seus segredos no interior,
ficando duas belas e claras páginas de tamanho menor.
E é verdade que desdobrada a folha-se novamente maior, com todos os
seus segredos para contar, mas fica também um vínculo no meio da folha
que não dá mais para apagar.
Por isso, é que te digo, Ó minha querida: tira o nariz das minhas
coisas e mete-te na tua vida.
Tags: laranja, prosa-lírica
Há uma dor que me olha nos olhos com um olhar frio e, assim que sinto
o seu olhar, olho para a distância segura, onde me refugio.
Ela olha para mim confiável porque me quer contar a verdade. E eu com
medo escolho viver em mentira, que é um alçapão para a infelicidade.
E assim neste desencontro de olhares, a verdade e a mentira vão
batalhando, e quanto mais ganho neste duelo traidor, mais tempo vou
gastando.
E quando dele sair vencedor, a sobra da vida que me restará vai
mostrar-me como afinal fui eu o perdedor.
Tags: gratidão, prosa-lírica
Eu sei o que é preciso fazer e não faço. Adio, adio e adio, até quase
me esquecer daquilo que eu sei que preciso de fazer.
Mas não é por adiar que o problema vai embora. Intensifica-se mais
ainda porque até ele mesmo está à espera de uma resolução que a dor
cinde.
Portanto, o meu saber e a minha dor unem-se em interrogação, tentando
perceber por que é que eu estou em negação?
Eu até responderia só que infelizmente não sei. E se for por falta de
coragem... bom, então assim nem o direi.
Ou direi amanhã, quando... se souber ao certo. E até lá continuarei a
fugir, prolongando esta dor que há muito me vem a perseguir.
Tags: gratidão, prosa-lírica
A minha paixão é simultaneamente o meu sofrimento.
Chama por mim quando me ausento muito tempo.
Dá-me preocupações, medos, insegurança, porque me submeto totalmente à
sua confiança.
Dá-me incomparável prazer nas aventuras que só ele me pode oferecer.
Quando me sento ao volante, deslizo sobre a estrada. Tudo são
possibilidades em diante.
O desejo nasce em sonhos. O destino marcado no mapa. E o jipe faz-se à
estrada.
Não há nada fora de alcance. Basta coragem e imaginação, e todos os
desejos vão de miragem a realização.
Tags: alma, prosa-lírica
Um caderno, uma Parker de mola, e um café. São os ingredientes para
abrir a mente. E despejar cá para fora tudo o que está entulhado lá
dentro.
A mente vai constantemente sussurrando, mas quando é para ter uma
conversa a sério, fecha-se no quarto como um adolescente na idade do
armário.
Para saber o que se pensa, não basta pensar nessa questão. É preciso
tocar à campainha, bater à porta e perguntar à mente se estão.
Porque embora "eu penso, logo existo", a mente seja eu, e eu a mente,
a verdade é que ela só consegue um diálogo com o subconsciente.
Por isso, aquilo que se quer e não quer pouco importa. Nas questões da
mente, é preciso escutar e saber ouvir. E um caderno, caneta, e café
são como um terapeuta sentado na sua cadeira, aberta a porta.
Tags: alma, prosa-lírica
Do alto da montanha, o horizonte desvenda uma solitária vastidão que
me faz sentir, neste mundo, minúsculo como um grão.
Que pensará o horizonte quando me vê lá no alto? Deixa-lo-á a árdua
jornada ao topo exalto?
Ou serei eu assim tão insigificante para o horizonte que mais ou menos
um grão no monte não é importante?
Pessoas há mais de um bilião, então porque se há-de o horizonte
incomodar se eu, ou outra alma perdida, tentar chamar à sua atenção?
Fosse toda a humanidade ao monte, isso seria de grande admiração. Até
me juntaria ao horizonte para melhor louvar essa peregrinação.
Quão egoísta serei eu? Quero que o horizonte pense só em mim, quando
ele já tem que correr sem fim para acompanhar o céu.
Não!
Eu vou descer desta montanha após inspirada a solitária
vastidão. Sinto-me mais pequeno, sim, mas não tão sozinho assim porque
por um momento o meu amigo horizonte tocou-me no coração.
Tags: amor, prosa-lírica
Para ti voltei outra vez. Tu, ó cidade, que me outrora protegeras. Tu
que outrora um lar acolhedor e seguro me deras. Tu que nunca me
rejeitaras.
Mas há algo de diferente em ti. Será que tu mudaste ou fui eu que
cresci?
A comida saborosa que me alimentara a barriga e as memórias tem outro
sabor.
O teu harmonioso tempo e a calorosa temperatura têm agora outro calor.
As tuas praias que durante anos ansiei com euforia, sentir novamente a
brisa fresca e admirar a costa, já não oferecem a mesma sabedoria.
Porque antigamente eras tu, cidade, e eu, navegador desnorteado, que
na tua perdurável magnificência os meus medos via espelhados
e nesses teus alicerces inabaláveis eu sentia uma coragem que reduzia
qualquer medo a uma mera miragem.
Mas agora tu e eu já não somos só nós os dois, sós de mão dada no
nosso cantinho secreto a contemplar o mar e o céu.
Eu semeei a minha vida e agora já há quem olhe para mim da mesma
maneira que eu outrora olhei para ti também.
E portanto voltei mas não para ficar. Os teus alicerces continuam
inabaláveis e a tua silhueta no mar continuará espelhada por muitos
anos que virão, mesmo depois desta minha despedida inesperada, o fim
da nossa paixão.
Tags: amor, prosa-lírica
Faz-me sentir. Faz-me novamente viver. Inspira-me a escapar deste
buraco onde me sinto a morrer.
A vida está toda lá fora. Quase lhe chego com a mão. Há uma força que
me enclausura numa cela de medos chamada depressão.
Tags: alma, prosa-lírica
Quem me quiser entender, irá querer ler o que deixei por escrito.
Quem me conhecer, saberá que o que ficou por escrito é muito diferente
do que o que fora dito.
Quem me amar, irá ter os meus cadernos numa prateleira para os admirar
e salvaguargar.
Pelo que o autor prestar-se à Verdade é desperdiçada dedicação: o
núcleo familiar mais íntimo não lê os escritos porque são de
estimação, enquanto a massa que os lê é desconfiada e chega a errada
conclusão.
Tags: prosa-lírica
É só quando anoitece que a escuridão um espaço seguro e corajoso me
oferece.
À noite, vigio a cidade e alimento-me da sua energia nocturna sem
revelar a minha identidade.
Só a luz do luar me revela, pelo que salto de canto em canto escuro,
sempre fugindo dela.
E se me vêem é por um instante somente, nunca tendo a certeza se fora
apenas uma ilusão da mente.
Não sou super-herói, ou observador, ou cronista. A minha coragem só
nasce quando não estou sob vista.
A apaziguadora constância da noite perdura até que amanhece, e só nela
é que a incerteza da vida perece.
A maior parte vê na multidão diurna o auge social, enquanto eu rodeado
dessas pessoas sinto um terror abismal.
Tags: prosa-lírica
A vida trouxe-me a este lugar desconhecido. Não sou corajoso ou
destemido. Não conheço aqui ninguém e para os outros sou ninguém
também. Ando camuflado pela multidão, vestido como eles e a minha cara
sem expressão.
O único traço que deles me separa é o segredo de onde eu viera, por
onde errara. Mas como poderei ao certo dizer eu, se realmente todos os
outros não terão também um segredo como o meu?
Tags: alma, prosa-lírica
Dizem que a vida deve ser vivida como uma jornada e não como uma
concretização porque na janela temporal limitada em que vivemos são
mais os momentos em trânsito do que o número de sucessos provindos da
nossa realização.
Se orquestrarmos a nossa felicidade em torno dos sucessos e não da
jornada, enfrentamos uma vida de sucessivos momentos árduos, repleta
de insucessos, e de infelicidade.
A ambição que serve a concretização e não a jornada de propósito é
desprovida, e desta maneira não acrescenta qualquer significado à
vida.
Esta ambição tem como origem uma bruta força de vontade sua que não
consegue explicar de onde vem ou porque actua.
Porque ela existe por existir e mais não precisa de justificação, ela
consegue impulsionar uma vida inteira em direcção à concretização sem
precisar de explicação.
Após uma vida vivida com uma ambição questionável, olhando para trás
faltam pois os momentos que haveriam tornado essa vida memorável.
Tags: alma, prosa-lírica
Leva-me à floresta. Ouvi falar de uma caverna lá escondida decorada
com cristais a brilhar.
Sozinho não sairia do nosso lar, mas de mão dada à tua tenho coragem
para ir a qualquer lugar.
És tão mais forte e maior do que alguma vez serei, ultrapassas o
impossível mas como não sei.
Os dias em que não estás são tristes e correm mal, mas os outros, na
tua companhia, são o que na vida há de mais especial.
Por isso, fica comigo para sempre e nunca te vás embora. O melhor
tempo juntos que alguma vez teremos é aquele que temos agora.
Assinado "pai" (alónimo) porque o autor ainda não tem idade para assinar.
Tags: prosa-lírica, pai
Esta enormidade tecnológica é tal avançada que nenhum de nós, ninguém
do nosso povo, a sabe explicar. É tal avançada como se de o futuro
tivesse vindo. Mas ao mesmo tempo, ela foi encontrada em escavações
arqueológicas, no tempo dos nossos antepassados.
Lá dentro há arquivos e registos históricos da sua trajectória e da
sua despenhagem. São pistas para o nosso passado, para a nossa origem,
para percebemos de onde viemos.
Mas como pode ser esta descoberta simultaneamente uma tecnologia do
futuro e um artefacto do passado?
Haverá um ciclo no tempo, que une o futuro ao passado? Ou seremos nós
o povo terreno enquanto eles o povo do espaço? Ou terá o nosso povo
sofrido uma involução?
Os nossos antepassados deixaram as naves, deixaram a tecnologia,
deixaram a conquista do Espaço.
Pararam com os ensinamentos em engenharia, em física, em propulsão.
Voltaram a uma vivência simples, a uma vivência tribal, a uma vivência
funcional.
Gerações sucessivas esqueceram a sua trajectória Espacial, o seu
sistema solar de origem, a sua terra natal.
Mas a magia, ela é real. Não viera da estratosfera. Parte deste mundo
sempre fizera, e para o nosso povo é uma tradição cultural.
Do vasculho da memória do meu povo procuro perceber quem sou. Perdida
no passado está a tal avançada tecnologia, suplantada por uma vivência
simples acompanhada de magia.
A minha curiosidade arqueológica faz-me crer numa involução. Mas ao
mesmo tempo, a felicidade de uma vivência mágica faz-me crer ainda
mais que a tecnologia não é senão um passo intermédio na Evolução.
Onde a Verdade verdadeiramente se situa ninguém sabe, mas há-de estar
entre duas crenças, uma arqueológica e uma de felicidade.
Tags: ficção-científica, prosa-lírica
Vem comigo ver as estrelas ao parque. Há um candeeiro lisboeta ao lado
de um banco de jardim. Quando nos sentamos juntos a ver estrelas, o
tempo parece não ter fim.
Quando vejo os teus grandes olhos esqueço-me do porquê de estarmos
sentados no banco de jardim, e apenas nos teus olhos consigo pensar.
Quanto sinto a tua mão na minha, um arrepio solta uma faísca, e toda a
paisagem do parque e das estrelas desaparece. Apenas a luz do
candeeiro sob nós como um foco de luz radiante permanece.
E quanto sinto os teus calorosos e húmidos lábios no meus, um calor
pulsante no coração nasce e rapidamente se dispersa dos pés às mãos, e
por breves momentos toda a realidade desvanece.
Este é o meu desejo e todos os dias quero viver esta sensação. E por
isso todos os dias no parque lá me sento na esperança de que este meu
desejo seja também o teu, e de que por lá apareças no parque à mesma
hora que eu.
Tags: amor, prosa-lírica
A nossa casa é o nosso lar. Mas onde fica o nosso lar? É o país onde
vivemos? É o país da língua que falamos? Ou da língua que faláramos?
É onde escolhemos? Ou onde queremos estar?
É onde o destino nos leva? Ou para onde as memórias mais fortes nos
estão a chamar?
É um sítio real ou imaginário? Será até que existe neste mundo, nesta
vida, neste calendário?
E se não existe poderá ser construído? Ou permanecerá para sempre um
sonho obstruído?
Haverá sequer uma pergunta que o possa interrogar? Ou permanecerá
para sempre um vácuo que a alma não irá colmatar?
É "lar" um segredo que se possa revelar?
Ou é uma terra de sonhos no Sul da França?
Ou é um acrónimo de três letras que significa Liberdade, Amor,
Realização?
Ou é uma palavra do dicionário?
Seja qual for o significado de "lar" ainda procuro esse significado
para mim.
Tags: alma, prosa-lírica
Gritas comigo, desfazes-me e deixas-me em pedaços. Que valor têm para
ti estes nossos laços de amor? Quando dizes, fazes ou tocas deixas
tudo pior.
O melhor é deixar estar. Cala-te e esquece. Até água fervente deixada
a um canto sempre arrefece. Já uma quente panela de pressão se abanada
em demasia pode provocar uma explosão.
Tags: prosa-lírica
Coisas pequenas fazêmo-las às dezenas e depois mais tarde são toda a
nossa recordação.
Já coisas grandes, duas ou três apenas fazemos por ambição mas
facilmente perdemos a direcção.
Somadas grandes e pequenas temos uma vida plena, do recordado e
esquecido, do falhado e sucedido.
Resta pois o juízo da vida terrena, se convida ao Paraíso, ou se fora
dele condena?
Tags: gratidão, prosa-lírica
O limite fora atingido, está ultrapassado e será o colapso. Tudo tem a sua
medida e tem de ser equilibrado. E, quando para além do limite excede, fica tudo
estragado.
É como um balão cheio, que enche mais e rebenta, fica tudo de olhos nos outros a
ver se o culpado a responsabilidade enfrenta.
Mas de quem é realmente a culpa? É do balão que se deixou encher em demasia? Ou
do sistema que governa as condições que permitiram o sucedido acontecer?
É fácil reatribuir as culpas e desprover-se de responsabilidade. Traz um grande
grau de conforto e de legitimidade à inacção do próprio que não se consegue
governar, e que continuamente aceita as decisões de um sistema que não consegue
mudar.
E se a questão de culpa não se pode decidir, será que ela faz alguma diferença?
Ou é mais importante presidir ao julgamento que decidiu que esta vida é uma
sentença?
É que se de sentença se trata, então o castigo está explicado e não há mais nada
a saber. Mas caso contrário, então há algo de muito errado no que eu ando para
aqui a fazer.
Tags: gratidão, prosa-lírica
Há um sentimento profundo, angustioso, que me fissura o coração. E desse
estreito doloroso nasce uma amargura que me deixa em aflição.
O espírito aventureiro curioso desmoronara-se com a dura e pesada força da
consternação. E no seu lugar encontrara um fantasma zeloso que desfaz o dia em
noite escura e só subsiste se socorrido no seio da solidão.
Um involuntário instinto horroroso apavoradamente procura, e até reza, por uma
solução. E o pavor é de tal maneira impetuoso que se esquece que a Vida é pura,
e tenta forçar uma resolução.
No final sobra um fundo tenebroso: no espelho sinto-me irreconhecível criatura e
fora dele pela morte uma cintilante atracção.
Tags: gratidão, prosa-lírica
Era uma resolução minha absoluta na altura ser o mais dedicado que se pode
ser. Há uma responsabilidade para com o Bem que é carregada nos ombros
diariamente, que pesa, e que tem como missão entregar à sociedade aquilo que é o
cidadão mais dedicado, o indivíduo melhor, que através do exemplo poderá
conduzir sociedade para um Estado de maior igualdade e bondade.
Mas na altura, na minha inocência e ignorância, desconhecia, que o mundo não ser
melhor não é por falta de exemplos, mas porque a ganância do individualismo é
que rege o dia-a-dia.
Nasce assim um desequilíbrio porque os que querem o Bem de todos não conseguem
através do argumento moral convencer os individualistas a aceitar um justo
mercado económico social se esse ousa taxar os interesses individualistas sobre
o capital.
Se assumirmos que toda a gente defende acima de tudo a sua riqueza individual,
então todos os argumentos a favor do Bem social facilmente levam à desconfiança
e facilmente se vêem como mentiras, até porque na sua maior parte mentir não é
ilegal.
E com mentira metida na equação não é difícil conceber o capitalismo puro, a
ideia de que o mercado não se preocupa com a mentira porque há competição.
Ou assim aparenta ser na brochura. Mas a realidade do capitalismo puro é bem
mais dura porque o poder aliado à riqueza leva à desigualdade, e a oligarquia
que a controla domina o mercado que serve a sociedade.
Portanto aquilo que começou por ser a expulsão da mentira retórica, como uma
jornada, acabou tão ou maior mentira depois de implementada.
E é por isso que a única maneira de defender o Bem moral é através do mercado
regulado do Estado económico social, codificado na Constituição que serve a
todos equitativamente, e através de um Estado de direito que justamente se impõe
como legal.
Tags: gratidão, prosa-lírica
Há uma mentira que da sua verdade cara-metade é inseparável, e daí a memória da
realidade que as criou ser indecifrável.
Para escapar do memorial nevoeiro, se a mentira é habilidosa ou a verdade
duvidosa, é uma aposta, não tão diferente de rezar ao santo padroeiro e querer
receber uma resposta.
Desta amnésia nasce inevitavelmente uma questão irresoluta, da qual não dá para
forçar uma resposta para o passado esquecido de forma absoluta.
Mas não há qualquer tipo de ansiedade quando a memória está perdida. Nós
repetimos vezes e vezes sem conta, dia após dia, "Não me lembro" e de novo segue
a vida.
Por isso é que eu estou para aqui falando com os botões meus, questionando-me
por que é que quando nos esquecemos da nossa origem, nós precisamos de invocar
Deus?
Tags: gratidão, prosa-lírica
A vida é uma onda. São altos e baixos periódicos. São picos de energia
que nos sustentam na travessia do dia, que nos apoiam com momentos de
alegria. Que se opõem à prevalência da tristeza, à dormência deprimida
que desgoverna a grande parte da vida.
Sorte dos que com um equalizador na alma nasceram, pois no meu caso os
picos são sempre eufóricos porque não há alegria, e o que resta
passada a euforia são longos cursos melancólicos de alta voltagem
distorcidos pelo amplificador da dor.
Altímetros e voltímetros acusariam imediatamente qualquer problema
derivado da corrente. Mas tendo em conta que toda a terapia fora
psicológica e introspectiva, não há qualquer diagnóstico que se
aguente.
Porque há problemas e problemas. Há os que se medem e os que se
conversam. Mas se damos voltas a isto, o paciente entra e sai visto, e
o problema não medido é aquele que dá com o paciente jazido.
Bom, pelo menos dá sempre mais para conversar.
Tags: gratidão, prosa-lírica
"A vida é boa" - isso é uma declaração de facto ou uma expressão de alegria? Se
de um facto se trata, então mostrem-me a prova. Mas se afinal é expressão, então
não dependerá de quem a evoca?
Agora, quererem passar expressão por facto, ou como quem diz gato por lebre, é
uma canalhice tão atrevida que me enfurece de tal maneira que até dá febre.
Esse lembrete "A vida é boa" é um maltrapilho ideológico, que visa a
entranhar-se na mente com o tempo para instaurar uma doutrina no momento
psicológico.
Mas eu contra todas essas doutrinações já estou mais que vacinado, nem que seja
por ter aqui um lembrete que diz que todos os outros lembretes não passam de
propaganda de Estado.
Tags: gratidão, prosa-lírica
A constante busca do conforto para fugir ao sofrimento é uma tentação
irresistível.
Há quem lide com a ansiedade comendo. Há quem lide bebendo. Há quem
lide com o sofrimento sofrendo.
O conforto é um remédio que trata mas não cura, porque para
ultrapassar o sofrimento é preciso uma alma segura. Mas também repleta
de alegria e força de vontade, capaz de gerar energia suficiente para
derrotar a mágoa e saudade, em vez de sucumbir para a depressão à
mínima contrariedade.
Para quem ache que o conforto não é mais do que uma mordomia,
desconvença-se porque para onde a vida nos leva nem sempre é o que se
queria.
Do mesmo modo que uma droga alivia o sofrimento, estes viciantes
confortos prazerosos permitem-me esquecer a dor e respirar nem que
seja por um momento.
E assim dia-após-dia fujo do mundo que me rodeia, e refugio-me num
mundo criado dentro de mim que me reclui como cativo de uma vivência
prisioneira.
Mas no balanço de contas vale mais ser prisioneiro de um mundo
protegido do que ser livre num mundo vulnerativo.
Será? Mesmo? Não!
Nem eu próprio, na minha estratégia de autodefesa, consigo
acreditar. Eu não tenho é a força de vontade necessária para esta
fraqueza ultrapassar, e a minha vida finalmente conseguir mudar.
Provavelmente creio que o ideal estará numa próxima vida, já depois de
morto. Mas o mais provável é esta desculpa iludida não ser mais do que
uma nova artimanha atrevida desse meu mundo interno para me dar
conforto.
Tags: gratidão, prosa-lírica
Durante muito tempo achava que paixão era algo que existia dentro de
uma pessoa, em mim por exemplo. E que era algo que uma pessoa tinha
mais ou tinha menos. Era uma característica individual. E mais do que
isso era também algo que essa pessoa exercia, uma vez mais, podendo
exercer mais ou exercer menos.
Parecia que era Bem, que era melhor, quando eu sentia mais paixão, mas
mais importante quando eu fazia o esforço de exercer essa paixão,
mostrá-la à minha alma gémea, e colher a minha alegria na alegria
dela.
E parece que durante muito tempo assim foi. Até que chegou uma altura
em que eu só colhia o que plantava e quando não plantava não
colhia. Era unidireccional. Aliás passou a ser unidireccional.
Por isso, surgiu a questão: porquê exercer a paixão de todo? Porquê
ser eu responsável pela paixão do dois? Não deverá haver uma igualdade
de ambas as partes?
Como disse antes há a parte do exercício da paixão e há a parte da
residência dessa paixão. Na ausência da recepção dessa paixão, poderei
questionar se a paixão por mim existe de todo?
Queira ou não questionar, essa dúvida existe certamente e vai ser
muito difícil arranjar maneira de a clarificar: não há maneira simples
de perguntar e não parece haver maneira de obter a resposta senão
perguntando.
A dúvida provocada pela paixão não correspondida não tem como ser
abordada a não ser que respondida essa difícil questão que põe em
causa se a paixão já estará mesmo perdida.
Mas como aceitar o risco do que poderá suceder se a aparente solução
for criadora do problema que tenta resolver? Daí o dilema.
Tags: gratidão, prosa, prosa-lírica