Do alto da montanha, o horizonte desvenda uma solitária vastidão que
me faz sentir, neste mundo, minúsculo como um grão.
Que pensará o horizonte quando me vê lá no alto? Deixa-lo-á a árdua
jornada ao topo exalto?
Ou serei eu assim tão insigificante para o horizonte que mais ou menos
um grão no monte não é importante?
Pessoas há mais de um bilião, então porque se há-de o horizonte
incomodar se eu, ou outra alma perdida, tentar chamar à sua atenção?
Fosse toda a humanidade ao monte, isso seria de grande admiração. Até
me juntaria ao horizonte para melhor louvar essa peregrinação.
Quão egoísta serei eu? Quero que o horizonte pense só em mim, quando
ele já tem que correr sem fim para acompanhar o céu.
Não!
Eu vou descer desta montanha após inspirada a solitária
vastidão. Sinto-me mais pequeno, sim, mas não tão sozinho assim porque
por um momento o meu amigo horizonte tocou-me no coração.
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Para ti voltei outra vez. Tu, ó cidade, que me outrora protegeras. Tu
que outrora um lar acolhedor e seguro me deras. Tu que nunca me
rejeitaras.
Mas há algo de diferente em ti. Será que tu mudaste ou fui eu que
cresci?
A comida saborosa que me alimentara a barriga e as memórias tem outro
sabor.
O teu harmonioso tempo e a calorosa temperatura têm agora outro calor.
As tuas praias que durante anos ansiei com euforia, sentir novamente a
brisa fresca e admirar a costa, já não oferecem a mesma sabedoria.
Porque antigamente eras tu, cidade, e eu, navegador desnorteado, que
na tua perdurável magnificência os meus medos via espelhados
e nesses teus alicerces inabaláveis eu sentia uma coragem que reduzia
qualquer medo a uma mera miragem.
Mas agora tu e eu já não somos só nós os dois, sós de mão dada no
nosso cantinho secreto a contemplar o mar e o céu.
Eu semeei a minha vida e agora já há quem olhe para mim da mesma
maneira que eu outrora olhei para ti também.
E portanto voltei mas não para ficar. Os teus alicerces continuam
inabaláveis e a tua silhueta no mar continuará espelhada por muitos
anos que virão, mesmo depois desta minha despedida inesperada, o fim
da nossa paixão.
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Vem comigo ver as estrelas ao parque. Há um candeeiro lisboeta ao lado
de um banco de jardim. Quando nos sentamos juntos a ver estrelas, o
tempo parece não ter fim.
Quando vejo os teus grandes olhos esqueço-me do porquê de estarmos
sentados no banco de jardim, e apenas nos teus olhos consigo pensar.
Quanto sinto a tua mão na minha, um arrepio solta uma faísca, e toda a
paisagem do parque e das estrelas desaparece. Apenas a luz do
candeeiro sob nós como um foco de luz radiante permanece.
E quanto sinto os teus calorosos e húmidos lábios no meus, um calor
pulsante no coração nasce e rapidamente se dispersa dos pés às mãos, e
por breves momentos toda a realidade desvanece.
Este é o meu desejo e todos os dias quero viver esta sensação. E por
isso todos os dias no parque lá me sento na esperança de que este meu
desejo seja também o teu, e de que por lá apareças no parque à mesma
hora que eu.
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