Eu não estou aqui a fazer nada.
Há quem tenha um propósito.
Há quem tenha vontade.
Há quem tenha ambição.
Eu tenho apenas responsabilidade.
E quando essa responsabilidade se for?
Sem propósito, sem vontade ou ambição,
haverá algo mais em redor?
Alguma razão de força maior?
O único em quem me espelhava,
aquele que me norteava,
aquele que eu adorava, idolatrava,
já cá não está.
A sua memória permanece viva dentro de mim
e em objectos de afecto que colecciono sem fim:
um propósito psicológico, um impulso, uma ostentação
sem sentido ou razão.
Mas finda a memória, finda a tristeza, finda a razão,
que justificação haverá ainda por dar
para que o sofrimento da vida
não se possa também findar?
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Há uma dor que me olha nos olhos com um olhar frio e, assim que sinto
o seu olhar, olho para a distância segura, onde me refugio.
Ela olha para mim confiável porque me quer contar a verdade. E eu com
medo escolho viver em mentira, que é um alçapão para a infelicidade.
E assim neste desencontro de olhares, a verdade e a mentira vão
batalhando, e quanto mais ganho neste duelo traidor, mais tempo vou
gastando.
E quando dele sair vencedor, a sobra da vida que me restará vai
mostrar-me como afinal fui eu o perdedor.
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Eu sei o que é preciso fazer e não faço. Adio, adio e adio, até quase
me esquecer daquilo que eu sei que preciso de fazer.
Mas não é por adiar que o problema vai embora. Intensifica-se mais
ainda porque até ele mesmo está à espera de uma resolução que a dor
cinde.
Portanto, o meu saber e a minha dor unem-se em interrogação, tentando
perceber por que é que eu estou em negação?
Eu até responderia só que infelizmente não sei. E se for por falta de
coragem... bom, então assim nem o direi.
Ou direi amanhã, quando... se souber ao certo. E até lá continuarei a
fugir, prolongando esta dor que há muito me vem a perseguir.
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Dizem que quando morremos a vida passa-nos à frente dos nossos olhos. Mas se
calhar referem-se ao futuro e não ao passado. Se calhar não é o passado que
passa como um filme acelerado na nossa mente.
Se calhar é o nosso futuro que passa. Uma segunda oportunidade de podermos ver
os nossos filhos a crescer, de os acompanhar e ajudar quando precisarem, de ver
os homens e mulheres que se tornarão.
Esta alternativa oferece pelo menos alguma esperança na eventualidade da sorte
da vida não ser tão sortuda.
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A força que me propela contra a minha vontade. É a força da tentação.
Ela alicia-me com sabores prazerosos, seduz-me com a sua irrefutável
lógica, e garante-me ilibação de toda a responsabilidade.
Uma vez o acto cometido, ela desaparece. O sabor prazeroso torna-se
agoniante. O sistema lógico colapsa e a realidade reinstaura-se. E o
remorso enraíza-se, persegue, e tormenta.
Nasce depois o vício: a perseguição entre a tentação e o remorso. A
tentação leva ao acto, o acto ao remorso, e finalmente a tentação
suplanta de novo o remorso. É um ciclo vicioso.
Quanto mais se nega o vício, quanto mais se tenta quebrar o ciclo,
mais forte o vício se torna, mais viciados nos tornamos, e maior o
remorso.
É preciso aceitar que o vício é normal, que no acto não há nada de
mal.
É assim que a tentação é derrotada. Porque quando se torna banal, o
vício já não tem por onde seduzir.
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Coisas pequenas fazêmo-las às dezenas e depois mais tarde são toda a
nossa recordação.
Já coisas grandes, duas ou três apenas fazemos por ambição mas
facilmente perdemos a direcção.
Somadas grandes e pequenas temos uma vida plena, do recordado e
esquecido, do falhado e sucedido.
Resta pois o juízo da vida terrena, se convida ao Paraíso, ou se fora
dele condena?
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O luar do antigamente. O luar antigo. A lua de antes. A lua
anterior. A luta ante. A lu'ante. A lu'ane. Lu'ane. Louane.
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É silêncio paz? Ou é silêncio solidão? É silêncio ausência de som? Ou
é meditação?
É silêcio um estado alvejável? Ou um castigo deplorável?
É silêncio ficar calado? Ou se falo pouco é porque estou chateado?
É silêncio a ausência de tudo? E então um silêncio mudo?
É silêncio ? Ou uma pergunta em branco?
É silêncio pois físico? Espiritual? Linguístico, artístico ou social?
Só resta pois ficar em...
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Separar o ruído da essência para que a fibra residual seja a captura mais
autêntica da imagem do ser. É apenas quando este longo e difícil processo de
meditação está concluído que podemos dar início à jornada de tentarmos perceber
quem somos.
É irónico o esforço e energia gastos para perceber os mistérios do Universo,
quando o mistério de quem somos está dentro de nós e não poderia estar mais
perto. E quanta dedicação aplicamos na meditação? Provelmente não o suficiente.
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O limite fora atingido, está ultrapassado e será o colapso. Tudo tem a sua
medida e tem de ser equilibrado. E, quando para além do limite excede, fica tudo
estragado.
É como um balão cheio, que enche mais e rebenta, fica tudo de olhos nos outros a
ver se o culpado a responsabilidade enfrenta.
Mas de quem é realmente a culpa? É do balão que se deixou encher em demasia? Ou
do sistema que governa as condições que permitiram o sucedido acontecer?
É fácil reatribuir as culpas e desprover-se de responsabilidade. Traz um grande
grau de conforto e de legitimidade à inacção do próprio que não se consegue
governar, e que continuamente aceita as decisões de um sistema que não consegue
mudar.
E se a questão de culpa não se pode decidir, será que ela faz alguma diferença?
Ou é mais importante presidir ao julgamento que decidiu que esta vida é uma
sentença?
É que se de sentença se trata, então o castigo está explicado e não há mais nada
a saber. Mas caso contrário, então há algo de muito errado no que eu ando para
aqui a fazer.
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Este é um segredo que toda a gente teria curiosidade em ouvir mas que
ninguém quer realmente escutar ou ficar a saber.
É um segredo que não só aguça a curiosidade mas também provoca
desconforto e deslealdade depois de sabido.
É uma real espada de dois gumes. Mas infelizmente parece que esses
dois gumes estão apontados para mim.
É um segredo que levo comigo para a sepultura.
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Há um sentimento profundo, angustioso, que me fissura o coração. E desse
estreito doloroso nasce uma amargura que me deixa em aflição.
O espírito aventureiro curioso desmoronara-se com a dura e pesada força da
consternação. E no seu lugar encontrara um fantasma zeloso que desfaz o dia em
noite escura e só subsiste se socorrido no seio da solidão.
Um involuntário instinto horroroso apavoradamente procura, e até reza, por uma
solução. E o pavor é de tal maneira impetuoso que se esquece que a Vida é pura,
e tenta forçar uma resolução.
No final sobra um fundo tenebroso: no espelho sinto-me irreconhecível criatura e
fora dele pela morte uma cintilante atracção.
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Era uma resolução minha absoluta na altura ser o mais dedicado que se pode
ser. Há uma responsabilidade para com o Bem que é carregada nos ombros
diariamente, que pesa, e que tem como missão entregar à sociedade aquilo que é o
cidadão mais dedicado, o indivíduo melhor, que através do exemplo poderá
conduzir sociedade para um Estado de maior igualdade e bondade.
Mas na altura, na minha inocência e ignorância, desconhecia, que o mundo não ser
melhor não é por falta de exemplos, mas porque a ganância do individualismo é
que rege o dia-a-dia.
Nasce assim um desequilíbrio porque os que querem o Bem de todos não conseguem
através do argumento moral convencer os individualistas a aceitar um justo
mercado económico social se esse ousa taxar os interesses individualistas sobre
o capital.
Se assumirmos que toda a gente defende acima de tudo a sua riqueza individual,
então todos os argumentos a favor do Bem social facilmente levam à desconfiança
e facilmente se vêem como mentiras, até porque na sua maior parte mentir não é
ilegal.
E com mentira metida na equação não é difícil conceber o capitalismo puro, a
ideia de que o mercado não se preocupa com a mentira porque há competição.
Ou assim aparenta ser na brochura. Mas a realidade do capitalismo puro é bem
mais dura porque o poder aliado à riqueza leva à desigualdade, e a oligarquia
que a controla domina o mercado que serve a sociedade.
Portanto aquilo que começou por ser a expulsão da mentira retórica, como uma
jornada, acabou tão ou maior mentira depois de implementada.
E é por isso que a única maneira de defender o Bem moral é através do mercado
regulado do Estado económico social, codificado na Constituição que serve a
todos equitativamente, e através de um Estado de direito que justamente se impõe
como legal.
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Há uma mentira que da sua verdade cara-metade é inseparável, e daí a memória da
realidade que as criou ser indecifrável.
Para escapar do memorial nevoeiro, se a mentira é habilidosa ou a verdade
duvidosa, é uma aposta, não tão diferente de rezar ao santo padroeiro e querer
receber uma resposta.
Desta amnésia nasce inevitavelmente uma questão irresoluta, da qual não dá para
forçar uma resposta para o passado esquecido de forma absoluta.
Mas não há qualquer tipo de ansiedade quando a memória está perdida. Nós
repetimos vezes e vezes sem conta, dia após dia, "Não me lembro" e de novo segue
a vida.
Por isso é que eu estou para aqui falando com os botões meus, questionando-me
por que é que quando nos esquecemos da nossa origem, nós precisamos de invocar
Deus?
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A vida é uma onda. São altos e baixos periódicos. São picos de energia
que nos sustentam na travessia do dia, que nos apoiam com momentos de
alegria. Que se opõem à prevalência da tristeza, à dormência deprimida
que desgoverna a grande parte da vida.
Sorte dos que com um equalizador na alma nasceram, pois no meu caso os
picos são sempre eufóricos porque não há alegria, e o que resta
passada a euforia são longos cursos melancólicos de alta voltagem
distorcidos pelo amplificador da dor.
Altímetros e voltímetros acusariam imediatamente qualquer problema
derivado da corrente. Mas tendo em conta que toda a terapia fora
psicológica e introspectiva, não há qualquer diagnóstico que se
aguente.
Porque há problemas e problemas. Há os que se medem e os que se
conversam. Mas se damos voltas a isto, o paciente entra e sai visto, e
o problema não medido é aquele que dá com o paciente jazido.
Bom, pelo menos dá sempre mais para conversar.
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Publicado a 32/01/2025.
Hoje é um dia glorioso. É o dia em que o Passado pertence ao Passado. O Futuro é
brilhante, esperançoso e repleto de oportunidades. É uma nova perspectiva sobre
a vida, uma perspectiva que me leva a apreciar cada dia, que me empurra para a
aventura do que está ainda por descobrir.
Hoje é o dia da redenção. Durante toda a minha vida esperei que o Universo (ou
deuses, ou Natureza) me perdoasse, me trouxesse paz interior. E hoje esse dia
chegou. Não porque essa entidade divina se manifestou. Não. Mas porque eu me
perdoei. Porque finalmente me apercebi que toda a força de vontade que precisava
para adoptar uma nova perspectiva esteve sempre dentro de mim.
Estas são palavras que nunca imaginei escrever. Mas este é finalmente o dia em
que tive de me render.
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Mortalidade - é simultaneamente a maior certeza e incerteza da
Vida. Todos lhe estão sujeitos mas ninguém sabe quando.
Morrer é assustador. Estar morto é libertador. A ideia de que morrer é
doloroso é a fonte do medo. Mas a morte é pacífica porque nem o medo
ou a dor lhe sobrevivem.
A morte é a única eventualidade da vida que é, e sempre será,
individual. Não é transferível para outra pessoa. Não se pode falar
sobre a sua experiência ou memória.
É a única experiência da vida que só pode ser vivida comunitariamente,
empaticamente. Ela só pode ser vivida pelos outros que estão
vivos. Mas mesmo esses não vivem a experiência da morte. O que eles
vivem é a perda que sentem. Até no momento em que alguém morre aquilo
que se vive, que se sente e em que se pensa é dos outros.
A morte é o único facto da vida que é realmente tautológico, que não
pode ser desprovado, não está sujeito a honestidade, a teorias, e às
falhas da ciência. Todos os outros factos da vida são aproximações da
realidade, são fórmulas matemáticas a que faltam factores, são leis
sujeitas a ambiguidade, são pedaços de história sujeitos a
interpretação. A morte não.
Até a frase "Eu penso logo existo" é uma suposição, uma convicção. Mas
facto? Não!
Queremos afirmar que a Vida é um facto quando simultaneamente
vivêmo-la supondo a nossa existência?
Por seu lado, a morte não se deixa questionar em termos de suposições
ou convicções.
Portanto entre vida e morte qual é que é facto? É aquela que
providencia uma existência questionável? Ou aquela que por retrair a
existência se torna irrefutável?
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As noites no Padrão eram calmas. No meio do campo, na escuridão da
noite, a única luz radiante era a das estrelas. E no silêncio, o único
ruído era o da própria respiração.
Era uma ausência total de vida em rodeio e o céu estrelado o único
sinal de vida, que me convidava a olhar incessantemente para a sua
radiância, a contemplar a sua expansividade, a desejar trocar a
solidão que me regia pela companhia estelar dos astros.
Se ao menos pudesse partilhar este momento com alguém...
Este sentimento, eu muitas vezes o desejara, desejava, desejei...
No final, a realidade para a qual me voltei é uma em que estou rodeado
de uma família que não deixa o enraizar da solidão.
Mas apesar disso, eu sinto-me profundamente sozinho.
E, portanto, ao realizar o meu desejo dos dias do Padrão, troquei a
solidão pela companhia da família, mas esse desejo não trouxe o
prometido: foi simultaneamente realizado e não realizado porque me
sinto da mesma forma, abandonado.
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Queremos viver num mundo guiado pela virtude. Mas vivemos num mundo de
ganância, exploração e corrupção. Queremos viver num mundo justo, mas
vemos a impunidade do sucesso e da riqueza. Queremos viver num mundo
em que podemos exprimir a nossa consternação sobre ele mesmo, em que
podemos gritar, protestar, marchar. Queremos poder usar livremente a
nossa liberdade de expressão.
Mas de repente deparamo-nos com: a expressão já não é virtuosidade; o
protesto já não é justo; e a marcha já não é sucesso.
A conclusão é muito simples: a maioria das regras existem para
governar a maioria. E os buracos que nelas existem estão lá para que a
minoria que pode pagar se possa desgovernar quando precisa.
Tags: gratidão, prosa
Se algum dia lerem este caderno vão achar que o autor era um tipo
altamente perseguido pelo Passado, assombrado pelo sofrimento, e
deprimido, não vão?
Tags: gratidão, prosa
Olhamos para o Passado para sabermos quem somos. Procuramos nele uma constância,
um padrão, uma repetição. Enfim, uma resposta. Porque se há algo duradouro,
então é porque deverá ser uma lei, uma regra, uma equivalência. Não é essa a
resposta da física (ciência)? E porque só poderá ser da física e não minha
também.
Se há algo que permanece imutável, inconstante, sereno, ao longo do tempo será
certamente um traço meu. A tal resposta.
Porque apenas o eu poderia sobreviver às mudanças do tempo.
Mas o que é que eu vejo quando olho para trás?
Vejo uma exigência desnecessária com o cumprimento das regras.
Vejo uma fuga amedrontada de confrontos.
Vejo uma subserviência à autoridade sem questionar.
Portanto, quando olho para o Passado vejo todas aquelas coisas que não quero
ser, não quero ter, não quero encontrar, nunca mais.
Como posso assim querer encontrar uma resposta no Passado, quando o meu Presente
é definido por uma negação do Passado?
Posso continuar a não saber quem sou. Mas parece que, sem saber como, acabo por
saber muito bem que não sou: eu sou pelo menos aquilo que decidi deixar para
trás, e pelo todo aquilo que irei deixar construído para a frente.
Esta antítese entre o Passado e o Futuro chama-se esperança. O presente chama-se
aposta. A soma destas duas partes chama-se vida.
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Há muito que me interrogo sobre "quem sou?". É uma pergunta que
externalizo constantemente para que vagueie livremente e encontre uma
resposta, sabendo perfeitamente que não há nada lá fora que me possa
dizer quem sou porque quem sou parte do interior.
E é previsível que ande à procura dessa resposta lá fora porque no meu
interior resposta não há, ou pelo menos desconheço que tenha.
Da mesma maneira que essa procura é previsível, não seria também de
constatar (e aceitar) que essa procura do "quem sou" fora de mim não
vai produzir resultado nenhum?
E no entanto essa previsibilidade já não é assim tão óbvia. É caso
para dizer que a previsibilidade não determina o que vai
acontecer. Por exemplo, sei que para descobrir quem sou tenho de tomar
um passo, tomar decisões. E mesmo assim desconfio que já sei o que é
que vai realmente acontecer. Ou dito melhor ainda, o que não vai
acontecer.
Tags: gratidão, prosa
"A vida é boa" - isso é uma declaração de facto ou uma expressão de alegria? Se
de um facto se trata, então mostrem-me a prova. Mas se afinal é expressão, então
não dependerá de quem a evoca?
Agora, quererem passar expressão por facto, ou como quem diz gato por lebre, é
uma canalhice tão atrevida que me enfurece de tal maneira que até dá febre.
Esse lembrete "A vida é boa" é um maltrapilho ideológico, que visa a
entranhar-se na mente com o tempo para instaurar uma doutrina no momento
psicológico.
Mas eu contra todas essas doutrinações já estou mais que vacinado, nem que seja
por ter aqui um lembrete que diz que todos os outros lembretes não passam de
propaganda de Estado.
Tags: gratidão, prosa-lírica
Na Vida há uma necessidade constante de simplificar. A complexidade gera
desentendimentos, que se quer evitar.
A simplificação é o encontro da linguagem comum entre duas pessoas, a procura de
uma semântica desprovida de ambiguidades ou duplo sentido. Uma maneira mais
directa de comunicar.
A experiência leva-nos a encontrar essa ferramenta da simplificação através da
tentativa e erro.
Mas como na vida nada se perde, tudo se transforma, se encontramos algo de novo,
é porque deixamos algo perdido lá para trás.
A simplificação é a aceitação de que o mundo é muito mais complexo do que a
capacidade que as pessoas têm de comunicar, sobre ele.
E portanto adoptar esta nova perspectiva pressupõe o abandono do ideal sobre o
mundo que guardamos connosco desde a juventude.
É aquele ideal cheio de certezas, de como o mundo é concreto, de como os outros
estão sempre enganados e o próprio tem sempre razão. O ideal que dá a confiança
necessária para deixar a juventude para trás e entrar neste complexo mundo como
adulto.
Parece que é preciso uma certa inocência e ignorância para dar o salto da jovem
certeza para o meio da incerteza que governa sem se achar que nada mudou.
Só anos mais tarde é que isso se torna óbvio, claro!
E portanto da mesma maneira que deixamos a juventude para a vida adulta,
deixamos a certeza para a incerteza, deixamos a complexidade para a
simplificação, e a cada passo vemo-nos confrontados com a nossa própria
moralidade, agora temos uma vez mais de lidar com um semelhante conflicto: se
deixadas para trás todas as construções que fizéramos sobre a vida, teremos pois
também de abandonar a razão?
Se calhar sou eu quem recusa andar para a frente. Ou se calhar a Sociedade
actual não reconhece a moralidade como importante. Deve achá-la inconveniente.
Tags: gratidão, prosa
A constante busca do conforto para fugir ao sofrimento é uma tentação
irresistível.
Há quem lide com a ansiedade comendo. Há quem lide bebendo. Há quem
lide com o sofrimento sofrendo.
O conforto é um remédio que trata mas não cura, porque para
ultrapassar o sofrimento é preciso uma alma segura. Mas também repleta
de alegria e força de vontade, capaz de gerar energia suficiente para
derrotar a mágoa e saudade, em vez de sucumbir para a depressão à
mínima contrariedade.
Para quem ache que o conforto não é mais do que uma mordomia,
desconvença-se porque para onde a vida nos leva nem sempre é o que se
queria.
Do mesmo modo que uma droga alivia o sofrimento, estes viciantes
confortos prazerosos permitem-me esquecer a dor e respirar nem que
seja por um momento.
E assim dia-após-dia fujo do mundo que me rodeia, e refugio-me num
mundo criado dentro de mim que me reclui como cativo de uma vivência
prisioneira.
Mas no balanço de contas vale mais ser prisioneiro de um mundo
protegido do que ser livre num mundo vulnerativo.
Será? Mesmo? Não!
Nem eu próprio, na minha estratégia de autodefesa, consigo
acreditar. Eu não tenho é a força de vontade necessária para esta
fraqueza ultrapassar, e a minha vida finalmente conseguir mudar.
Provavelmente creio que o ideal estará numa próxima vida, já depois de
morto. Mas o mais provável é esta desculpa iludida não ser mais do que
uma nova artimanha atrevida desse meu mundo interno para me dar
conforto.
Tags: gratidão, prosa-lírica
A vida é uma aprendizagem contínua. Cada nova experiência dá-nos uma
nova perspectiva que pode mudar completamente a maneira como vemos o
mundo. E não é só como vemos o mundo agora, mas pode também relevar
como víamos o mundo antes, no Passado.
Quando confrontada com as nossas memórias, essas novas perspectiva e
experiência podem levar-nos a concluir que na altura nós não fazíamos
nenhuma ideia do que se estava a passar.
São a nossa falta de maturidade, de experiência, de tacto que são
reveladas a posteriori pela pessoa que nos tornamos mais tarde.
Esse confronto pode gerar remorso, dúvida, conflicto. Temos de nos
confrontar com nós mesmos, com a nossa própria discórdia, a nossa
ignorância e hipocrisia.
Essa trajectória entre quem éramos e quem somos leva à dúvida, a
questionar-nos então se quem somos no Presente não é também uma
desilusão para a nossa futura pessoa.
Queremos orgulhar o futuro "eu", queremos a sua admiração e respeito,
queremos que se torne tudo aquilo que desejamos de bom e de melhor
para nós próprios, tudo aquilo que sonhamos.
Se a construção do nosso futuro parte de um alicerce duvidoso, então
não haverá como atingir os nossos sonhos. Precisamos de uma nova
perspectiva.
Sirva este texto como uma aprendizagem, uma experiência, para quem
quer saltar directamente para o futuro em vez de gastar anos do seu
Presente até finalmente a sua vida lhe oferecer esta lição.
Eu próprio, como autor do texto, já conheço as palavras, mas
aparentemente ainda não as aprendi porque preciso de mais uns anitos
para incorporá-las nesta cabeça.
Tags: gratidão, prosa
Há uma enorme carga em mim que me obriga a fazer aquilo que está
moralmente correcto. Não há outra maneira de fazer as coisas. Essa
obrigação transcende-me como indivíduo, transcende os familiares e
amigos, transcende até os desconhecidos.
É uma obrigação que transcende o ser e que encontra a sua
responsabilidade apenas quando alargamos o seu âmbito até incluir toda
a Humanidade.
É uma obrigação para com o ser humano. De todas as obrigações que me
podiam ter calhado, esta é das maiores. E não a tenho porque
quero. Tenho-a porque não me consigo livrar dela.
Não é lógico nem (biologicamente) vantajoso uma obediência excessiva
pelos outros. É muito fácil os outros roubarem-nos as oportunidades
quando nós estamos distraídos com o que é moralmente correcto.
Portanto, não há uma explicação para isto no cérebro reptiliano. Será
uma vantagem para viver em sociedade, uma instrução do cérebro
humano. Quem sabe?
A obrigação com o ser humano é a preservação da mente e o corpo, a
salvaguarda do sofrimento. Nenhum ser humano tem o direito de provocar
sofrimento a outro ser humano. Não há tribunal, guerra, ou Estado que
tenha esse direito. Não há condição de retribuição, de vingança, de
justiça que tenha esse direito. Não há justificação pelo capital
também. Há apenas a autodefesa.
Tags: gratidão, prosa
Uma premonição de que algo está para vir, para acontecer. Não é
necessariamente algo bom ou algo mau. Simplesmente algo. É o
sentimento de antecipação, de incerteza que há entre a noite do hoje e
a manhã do amanhã.
Enquanto esse sentimento reina, a dúvida e a preocupação acrescem, e o
tempo parece congelar. Quanto maior a ansiedade, mais devagar o tempo
passa. Parece haver algo na vida que: quanto maior a dificuldade, mais
prolongada a vivência da mesma. Nunca pode ser só difícil: tem de ser
muito difícil.
Na noite roxa contemplamos a cor bonita do céu. Asseguramo-nos de que
esta noite roxa é como as outras que já passaram, e de que não há nada
de diferente nesta. Sentimo-nos reconfortados. Apaziguamos a nossa
alma relembrando que este processo repetitivo das incertas noites
roxas é ele próprio uma forma de certeza. E da mesma maneira que
muitas já vieram, muita outras virão... certamente...
Tags: gratidão, prosa
Purgatório - é um tribunal para o julgamento da alma ou um santuário
para a redenção da mesma?
Embora juízo signifique absolvição ou castigo para muita gente, para
aqueles que vivem uma vida inteira em remorso, e que procuram
desesperadamente um resgate dessa culpa perpétua e perseguidora, o
juízo é a salvação. Vão poder finalmente descansar de uma vida de
agonia, no Paraíso ou no Inferno.
A agonia advém em parte do constante auto juízo e da incapacidade de
se auto decidir se se age correctamente ou não, dia após dia após
dia. Assim, o santuário da alma, o tal tribunal, é em primeira
instância um alívio imediato dessa responsabilidade. Dá logo fim a
essa voz interior incessante, esse juiz interno que não dá sossego.
Venha pois o juízo final. Uma eternidade, no Paraíso ou Inferno,
embora incerta, trará a certeza de que mais nenhum juízo virá.
E portanto só resta mesmo a decisão se a vida na terra em sofrimento
não é ela mesmo uma pena de prisão à espera da absolvição pelo
tribunal da alma, o santuário.
Tags: gratidão, prosa
Durante muito tempo achava que paixão era algo que existia dentro de
uma pessoa, em mim por exemplo. E que era algo que uma pessoa tinha
mais ou tinha menos. Era uma característica individual. E mais do que
isso era também algo que essa pessoa exercia, uma vez mais, podendo
exercer mais ou exercer menos.
Parecia que era Bem, que era melhor, quando eu sentia mais paixão, mas
mais importante quando eu fazia o esforço de exercer essa paixão,
mostrá-la à minha alma gémea, e colher a minha alegria na alegria
dela.
E parece que durante muito tempo assim foi. Até que chegou uma altura
em que eu só colhia o que plantava e quando não plantava não
colhia. Era unidireccional. Aliás passou a ser unidireccional.
Por isso, surgiu a questão: porquê exercer a paixão de todo? Porquê
ser eu responsável pela paixão do dois? Não deverá haver uma igualdade
de ambas as partes?
Como disse antes há a parte do exercício da paixão e há a parte da
residência dessa paixão. Na ausência da recepção dessa paixão, poderei
questionar se a paixão por mim existe de todo?
Queira ou não questionar, essa dúvida existe certamente e vai ser
muito difícil arranjar maneira de a clarificar: não há maneira simples
de perguntar e não parece haver maneira de obter a resposta senão
perguntando.
A dúvida provocada pela paixão não correspondida não tem como ser
abordada a não ser que respondida essa difícil questão que põe em
causa se a paixão já estará mesmo perdida.
Mas como aceitar o risco do que poderá suceder se a aparente solução
for criadora do problema que tenta resolver? Daí o dilema.
Tags: gratidão, prosa, prosa-lírica
Uma das formas mais importantes de honestidade é a autenticidade. É a
honestidade do próprio com os outros e, ainda mais importante, consigo
mesmo. A autenticidade vem através de forma e através de informação.
A forma é a nossa postura, linguagem corporal,
apresentação. Apresentamo-nos como somos realmente, ou somos actores
de um ou mais personagens inventadas?
A informação são os factos que decidimos comunicar, ou até ocultar,
distorcer, manipular ou mesmo fabricar.
As pessoas autênticas são as únicas com quem nos devemos querer
relacionar. Tudo o resto é intriga, burla, sedução, mentira. É melhor
um confronto ou desacordo com uma pessoa autêntica do que uma
experiência agradável com alguém inautêntico, porque nunca se sabe
quando nos vão trair.
Eu escolho ser autêntico correndo o risco de que possam tirar proveito
de mim, de que me possam trair, de que me possam roubar uma
oportunidade.
Isto porque eu escolho viver não do modo com o mundo realmente
funciona, mas do modo como eu quero que ele funcione.
É esta a minha contribuição para a transformação do mundo para um
mundo melhor: continuar a exercer autenticidade até que os que me
rodeiam aprendam também a ser autênticos.
Se for traído pago o preço e sou prejudicado pontualmente. Mas este é
também o mecanismo que me permite dividir o mundo no grupo dos que
estão comigo e dos que estão contra.
Por isso, o meu ponto fraco é também uma armadilha para eu ficar a
conhecer com quem estou realmente a lidar.
Tags: gratidão, prosa
Em frente ao espelho surge o nosso reflexo, uma imagem nossa, do nosso
corpo. E embora vejamos a nossa aparência, aquilo que de mais
importante acontece é a reacção emocional, a resposta emocional, ao
confrontarmo-nos com nós mesmos. Esperamos ver, ou avaliar, o nosso
nível de alegria ou tristeza. Estamos desiludidos se calhar quando nos
revemos nessa constante reflexão diária que nunca muda, nunca melhora,
nunca se alegra, mas sempre envelhece. Nesse instante reflectimos
sobre o nosso reflexo. É uma reflexão sobre a reflexão. E apesar de
reflectir e reflectir, tudo aquilo de mim que quero mudar permanece
constante, e a única inconstância da minha vida é o contínuo tempo
passante que tanto desejo travar. Mas talvez mais do que travar é o
tempo retroceder, para um tempo em que a constância e a inconstância
ter-me-iam necessariamente de obedecer. E essa incapacidade no
Presente de mudar o impossível e criar novas possibilidades no Futuro
leva à frustração, que por sua vez leva à desilusão; ambas
visivelmente reflectidas no meu reflexo... na minha reflexão.
Tags: gratidão, prosa
Gratidão - A palavra que está no centro deste caderno. É também a
palavra que menos me diz das palavras que estão na primeira
página. Dizem para estar grato por estar vivo. Isso vai ser muito
difícil. Eu vivo com uma constante dívida às costas que nunca será
paga, e não há um número de actos bondosos que conseguirá apagar essa
culpa, esse remorso.
O futuro ser uma oportunidade é algo difícil de entender também. O
futuro é a perpetuação do Presente, sem diferença. É sempre e sempre
igual até à morte. A incapacidade de transformar a vida e de trazer
uma diferença faz com que esse futuro se comprima num instante só, mas
muito longo. E a aparentada distante morte está senão à espreita, e
estas são as últimas horas que se vive, já contabilizadas, descontando
no relógio segundo a segundo.
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Para que a minha vida sentido faça, é necessário que haja um propósito
(um sentido de vida).
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