ALMA

ALMA é arte - ALMA is art

Findar o fim

September 05, 2025

Eu não estou aqui a fazer nada.
Há quem tenha um propósito.
Há quem tenha vontade.
Há quem tenha ambição.
Eu tenho apenas responsabilidade.

E quando essa responsabilidade se for?
Sem propósito, sem vontade ou ambição,
haverá algo mais em redor?
Alguma razão de força maior?

O único em quem me espelhava,
aquele que me norteava,
aquele que eu adorava, idolatrava,
já cá não está.

A sua memória permanece viva dentro de mim
e em objectos de afecto que colecciono sem fim:
um propósito psicológico, um impulso, uma ostentação
sem sentido ou razão.

Mas finda a memória, finda a tristeza, finda a razão,
que justificação haverá ainda por dar
para que o sofrimento da vida
não se possa também findar?

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Ganhar a perda

September 05, 2025

Há uma dor que me olha nos olhos com um olhar frio e, assim que sinto o seu olhar, olho para a distância segura, onde me refugio.

Ela olha para mim confiável porque me quer contar a verdade. E eu com medo escolho viver em mentira, que é um alçapão para a infelicidade.

E assim neste desencontro de olhares, a verdade e a mentira vão batalhando, e quanto mais ganho neste duelo traidor, mais tempo vou gastando.

E quando dele sair vencedor, a sobra da vida que me restará vai mostrar-me como afinal fui eu o perdedor.

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Negação

September 05, 2025

Eu sei o que é preciso fazer e não faço. Adio, adio e adio, até quase me esquecer daquilo que eu sei que preciso de fazer.

Mas não é por adiar que o problema vai embora. Intensifica-se mais ainda porque até ele mesmo está à espera de uma resolução que a dor cinde.

Portanto, o meu saber e a minha dor unem-se em interrogação, tentando perceber por que é que eu estou em negação?

Eu até responderia só que infelizmente não sei. E se for por falta de coragem... bom, então assim nem o direi.

Ou direi amanhã, quando... se souber ao certo. E até lá continuarei a fugir, prolongando esta dor que há muito me vem a perseguir.

Tags: gratidão, prosa-lírica

Dizem que quando morremos a vida passa-nos à frente dos nossos olhos. Mas se calhar referem-se ao futuro e não ao passado. Se calhar não é o passado que passa como um filme acelerado na nossa mente.

Se calhar é o nosso futuro que passa. Uma segunda oportunidade de podermos ver os nossos filhos a crescer, de os acompanhar e ajudar quando precisarem, de ver os homens e mulheres que se tornarão.

Esta alternativa oferece pelo menos alguma esperança na eventualidade da sorte da vida não ser tão sortuda.

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Tentação

February 04, 2025

A força que me propela contra a minha vontade. É a força da tentação.

Ela alicia-me com sabores prazerosos, seduz-me com a sua irrefutável lógica, e garante-me ilibação de toda a responsabilidade.

Uma vez o acto cometido, ela desaparece. O sabor prazeroso torna-se agoniante. O sistema lógico colapsa e a realidade reinstaura-se. E o remorso enraíza-se, persegue, e tormenta.

Nasce depois o vício: a perseguição entre a tentação e o remorso. A tentação leva ao acto, o acto ao remorso, e finalmente a tentação suplanta de novo o remorso. É um ciclo vicioso.

Quanto mais se nega o vício, quanto mais se tenta quebrar o ciclo, mais forte o vício se torna, mais viciados nos tornamos, e maior o remorso.

É preciso aceitar que o vício é normal, que no acto não há nada de mal.

É assim que a tentação é derrotada. Porque quando se torna banal, o vício já não tem por onde seduzir.

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Coisas pequenas

February 03, 2025

Coisas pequenas fazêmo-las às dezenas e depois mais tarde são toda a nossa recordação.

Já coisas grandes, duas ou três apenas fazemos por ambição mas facilmente perdemos a direcção.

Somadas grandes e pequenas temos uma vida plena, do recordado e esquecido, do falhado e sucedido.

Resta pois o juízo da vida terrena, se convida ao Paraíso, ou se fora dele condena?

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Louane

February 03, 2025

O luar do antigamente. O luar antigo. A lua de antes. A lua anterior. A luta ante. A lu'ante. A lu'ane. Lu'ane. Louane.

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Silêncio

February 03, 2025

É silêncio paz? Ou é silêncio solidão? É silêncio ausência de som? Ou é meditação?

É silêcio um estado alvejável? Ou um castigo deplorável?

É silêncio ficar calado? Ou se falo pouco é porque estou chateado?

É silêncio a ausência de tudo? E então um silêncio mudo?

É silêncio           ? Ou uma pergunta em branco?

É silêncio pois físico? Espiritual? Linguístico, artístico ou social?

Só resta pois ficar em...

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Meditação

February 02, 2025

Separar o ruído da essência para que a fibra residual seja a captura mais autêntica da imagem do ser. É apenas quando este longo e difícil processo de meditação está concluído que podemos dar início à jornada de tentarmos perceber quem somos.

É irónico o esforço e energia gastos para perceber os mistérios do Universo, quando o mistério de quem somos está dentro de nós e não poderia estar mais perto. E quanta dedicação aplicamos na meditação? Provelmente não o suficiente.

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Não aguento mais

February 02, 2025

O limite fora atingido, está ultrapassado e será o colapso. Tudo tem a sua medida e tem de ser equilibrado. E, quando para além do limite excede, fica tudo estragado.

É como um balão cheio, que enche mais e rebenta, fica tudo de olhos nos outros a ver se o culpado a responsabilidade enfrenta.

Mas de quem é realmente a culpa? É do balão que se deixou encher em demasia? Ou do sistema que governa as condições que permitiram o sucedido acontecer?

É fácil reatribuir as culpas e desprover-se de responsabilidade. Traz um grande grau de conforto e de legitimidade à inacção do próprio que não se consegue governar, e que continuamente aceita as decisões de um sistema que não consegue mudar.

E se a questão de culpa não se pode decidir, será que ela faz alguma diferença? Ou é mais importante presidir ao julgamento que decidiu que esta vida é uma sentença?

É que se de sentença se trata, então o castigo está explicado e não há mais nada a saber. Mas caso contrário, então há algo de muito errado no que eu ando para aqui a fazer.

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Segredo

February 02, 2025

Este é um segredo que toda a gente teria curiosidade em ouvir mas que ninguém quer realmente escutar ou ficar a saber.

É um segredo que não só aguça a curiosidade mas também provoca desconforto e deslealdade depois de sabido.

É uma real espada de dois gumes. Mas infelizmente parece que esses dois gumes estão apontados para mim.

É um segredo que levo comigo para a sepultura.

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Profundo

January 31, 2025

Há um sentimento profundo, angustioso, que me fissura o coração. E desse estreito doloroso nasce uma amargura que me deixa em aflição.

O espírito aventureiro curioso desmoronara-se com a dura e pesada força da consternação. E no seu lugar encontrara um fantasma zeloso que desfaz o dia em noite escura e só subsiste se socorrido no seio da solidão.

Um involuntário instinto horroroso apavoradamente procura, e até reza, por uma solução. E o pavor é de tal maneira impetuoso que se esquece que a Vida é pura, e tenta forçar uma resolução.

No final sobra um fundo tenebroso: no espelho sinto-me irreconhecível criatura e fora dele pela morte uma cintilante atracção.

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Desconhecia

January 30, 2025

Era uma resolução minha absoluta na altura ser o mais dedicado que se pode ser. Há uma responsabilidade para com o Bem que é carregada nos ombros diariamente, que pesa, e que tem como missão entregar à sociedade aquilo que é o cidadão mais dedicado, o indivíduo melhor, que através do exemplo poderá conduzir sociedade para um Estado de maior igualdade e bondade.

Mas na altura, na minha inocência e ignorância, desconhecia, que o mundo não ser melhor não é por falta de exemplos, mas porque a ganância do individualismo é que rege o dia-a-dia.

Nasce assim um desequilíbrio porque os que querem o Bem de todos não conseguem através do argumento moral convencer os individualistas a aceitar um justo mercado económico social se esse ousa taxar os interesses individualistas sobre o capital.

Se assumirmos que toda a gente defende acima de tudo a sua riqueza individual, então todos os argumentos a favor do Bem social facilmente levam à desconfiança e facilmente se vêem como mentiras, até porque na sua maior parte mentir não é ilegal.

E com mentira metida na equação não é difícil conceber o capitalismo puro, a ideia de que o mercado não se preocupa com a mentira porque há competição.

Ou assim aparenta ser na brochura. Mas a realidade do capitalismo puro é bem mais dura porque o poder aliado à riqueza leva à desigualdade, e a oligarquia que a controla domina o mercado que serve a sociedade.

Portanto aquilo que começou por ser a expulsão da mentira retórica, como uma jornada, acabou tão ou maior mentira depois de implementada.

E é por isso que a única maneira de defender o Bem moral é através do mercado regulado do Estado económico social, codificado na Constituição que serve a todos equitativamente, e através de um Estado de direito que justamente se impõe como legal.

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Mentira e verdade

January 30, 2025

Há uma mentira que da sua verdade cara-metade é inseparável, e daí a memória da realidade que as criou ser indecifrável.

Para escapar do memorial nevoeiro, se a mentira é habilidosa ou a verdade duvidosa, é uma aposta, não tão diferente de rezar ao santo padroeiro e querer receber uma resposta.

Desta amnésia nasce inevitavelmente uma questão irresoluta, da qual não dá para forçar uma resposta para o passado esquecido de forma absoluta.

Mas não há qualquer tipo de ansiedade quando a memória está perdida. Nós repetimos vezes e vezes sem conta, dia após dia, "Não me lembro" e de novo segue a vida.

Por isso é que eu estou para aqui falando com os botões meus, questionando-me por que é que quando nos esquecemos da nossa origem, nós precisamos de invocar Deus?

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Energia

January 29, 2025

A vida é uma onda. São altos e baixos periódicos. São picos de energia que nos sustentam na travessia do dia, que nos apoiam com momentos de alegria. Que se opõem à prevalência da tristeza, à dormência deprimida que desgoverna a grande parte da vida.

Sorte dos que com um equalizador na alma nasceram, pois no meu caso os picos são sempre eufóricos porque não há alegria, e o que resta passada a euforia são longos cursos melancólicos de alta voltagem distorcidos pelo amplificador da dor.

Altímetros e voltímetros acusariam imediatamente qualquer problema derivado da corrente. Mas tendo em conta que toda a terapia fora psicológica e introspectiva, não há qualquer diagnóstico que se aguente.

Porque há problemas e problemas. Há os que se medem e os que se conversam. Mas se damos voltas a isto, o paciente entra e sai visto, e o problema não medido é aquele que dá com o paciente jazido.

Bom, pelo menos dá sempre mais para conversar.

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Redenção

January 29, 2025

Publicado a 32/01/2025.

Hoje é um dia glorioso. É o dia em que o Passado pertence ao Passado. O Futuro é brilhante, esperançoso e repleto de oportunidades. É uma nova perspectiva sobre a vida, uma perspectiva que me leva a apreciar cada dia, que me empurra para a aventura do que está ainda por descobrir.

Hoje é o dia da redenção. Durante toda a minha vida esperei que o Universo (ou deuses, ou Natureza) me perdoasse, me trouxesse paz interior. E hoje esse dia chegou. Não porque essa entidade divina se manifestou. Não. Mas porque eu me perdoei. Porque finalmente me apercebi que toda a força de vontade que precisava para adoptar uma nova perspectiva esteve sempre dentro de mim.

Estas são palavras que nunca imaginei escrever. Mas este é finalmente o dia em que tive de me render.

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Mortalidade

December 04, 2024

Mortalidade - é simultaneamente a maior certeza e incerteza da Vida. Todos lhe estão sujeitos mas ninguém sabe quando.

Morrer é assustador. Estar morto é libertador. A ideia de que morrer é doloroso é a fonte do medo. Mas a morte é pacífica porque nem o medo ou a dor lhe sobrevivem.

A morte é a única eventualidade da vida que é, e sempre será, individual. Não é transferível para outra pessoa. Não se pode falar sobre a sua experiência ou memória.

É a única experiência da vida que só pode ser vivida comunitariamente, empaticamente. Ela só pode ser vivida pelos outros que estão vivos. Mas mesmo esses não vivem a experiência da morte. O que eles vivem é a perda que sentem. Até no momento em que alguém morre aquilo que se vive, que se sente e em que se pensa é dos outros.

A morte é o único facto da vida que é realmente tautológico, que não pode ser desprovado, não está sujeito a honestidade, a teorias, e às falhas da ciência. Todos os outros factos da vida são aproximações da realidade, são fórmulas matemáticas a que faltam factores, são leis sujeitas a ambiguidade, são pedaços de história sujeitos a interpretação. A morte não.

Até a frase "Eu penso logo existo" é uma suposição, uma convicção. Mas facto? Não!

Queremos afirmar que a Vida é um facto quando simultaneamente vivêmo-la supondo a nossa existência?

Por seu lado, a morte não se deixa questionar em termos de suposições ou convicções.

Portanto entre vida e morte qual é que é facto? É aquela que providencia uma existência questionável? Ou aquela que por retrair a existência se torna irrefutável?

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Céu estrelado

November 27, 2024

As noites no Padrão eram calmas. No meio do campo, na escuridão da noite, a única luz radiante era a das estrelas. E no silêncio, o único ruído era o da própria respiração.

Era uma ausência total de vida em rodeio e o céu estrelado o único sinal de vida, que me convidava a olhar incessantemente para a sua radiância, a contemplar a sua expansividade, a desejar trocar a solidão que me regia pela companhia estelar dos astros.

Se ao menos pudesse partilhar este momento com alguém...

Este sentimento, eu muitas vezes o desejara, desejava, desejei...

No final, a realidade para a qual me voltei é uma em que estou rodeado de uma família que não deixa o enraizar da solidão.

Mas apesar disso, eu sinto-me profundamente sozinho.

E, portanto, ao realizar o meu desejo dos dias do Padrão, troquei a solidão pela companhia da família, mas esse desejo não trouxe o prometido: foi simultaneamente realizado e não realizado porque me sinto da mesma forma, abandonado.

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Consternação

November 19, 2024

Queremos viver num mundo guiado pela virtude. Mas vivemos num mundo de ganância, exploração e corrupção. Queremos viver num mundo justo, mas vemos a impunidade do sucesso e da riqueza. Queremos viver num mundo em que podemos exprimir a nossa consternação sobre ele mesmo, em que podemos gritar, protestar, marchar. Queremos poder usar livremente a nossa liberdade de expressão.

Mas de repente deparamo-nos com: a expressão já não é virtuosidade; o protesto já não é justo; e a marcha já não é sucesso.

A conclusão é muito simples: a maioria das regras existem para governar a maioria. E os buracos que nelas existem estão lá para que a minoria que pode pagar se possa desgovernar quando precisa.

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Quem sou (parte 3)

November 19, 2024

Se algum dia lerem este caderno vão achar que o autor era um tipo altamente perseguido pelo Passado, assombrado pelo sofrimento, e deprimido, não vão?

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Quem sou (parte 2)

November 18, 2024

Olhamos para o Passado para sabermos quem somos. Procuramos nele uma constância, um padrão, uma repetição. Enfim, uma resposta. Porque se há algo duradouro, então é porque deverá ser uma lei, uma regra, uma equivalência. Não é essa a resposta da física (ciência)? E porque só poderá ser da física e não minha também.

Se há algo que permanece imutável, inconstante, sereno, ao longo do tempo será certamente um traço meu. A tal resposta.

Porque apenas o eu poderia sobreviver às mudanças do tempo.

Mas o que é que eu vejo quando olho para trás?

Vejo uma exigência desnecessária com o cumprimento das regras.

Vejo uma fuga amedrontada de confrontos.

Vejo uma subserviência à autoridade sem questionar.

Portanto, quando olho para o Passado vejo todas aquelas coisas que não quero ser, não quero ter, não quero encontrar, nunca mais.

Como posso assim querer encontrar uma resposta no Passado, quando o meu Presente é definido por uma negação do Passado?

Posso continuar a não saber quem sou. Mas parece que, sem saber como, acabo por saber muito bem que não sou: eu sou pelo menos aquilo que decidi deixar para trás, e pelo todo aquilo que irei deixar construído para a frente.

Esta antítese entre o Passado e o Futuro chama-se esperança. O presente chama-se aposta. A soma destas duas partes chama-se vida.

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Quem sou

November 17, 2024

Há muito que me interrogo sobre "quem sou?". É uma pergunta que externalizo constantemente para que vagueie livremente e encontre uma resposta, sabendo perfeitamente que não há nada lá fora que me possa dizer quem sou porque quem sou parte do interior.

E é previsível que ande à procura dessa resposta lá fora porque no meu interior resposta não há, ou pelo menos desconheço que tenha.

Da mesma maneira que essa procura é previsível, não seria também de constatar (e aceitar) que essa procura do "quem sou" fora de mim não vai produzir resultado nenhum?

E no entanto essa previsibilidade já não é assim tão óbvia. É caso para dizer que a previsibilidade não determina o que vai acontecer. Por exemplo, sei que para descobrir quem sou tenho de tomar um passo, tomar decisões. E mesmo assim desconfio que já sei o que é que vai realmente acontecer. Ou dito melhor ainda, o que não vai acontecer.

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A vida é boa

November 15, 2024

"A vida é boa" - isso é uma declaração de facto ou uma expressão de alegria? Se de um facto se trata, então mostrem-me a prova. Mas se afinal é expressão, então não dependerá de quem a evoca?

Agora, quererem passar expressão por facto, ou como quem diz gato por lebre, é uma canalhice tão atrevida que me enfurece de tal maneira que até dá febre.

Esse lembrete "A vida é boa" é um maltrapilho ideológico, que visa a entranhar-se na mente com o tempo para instaurar uma doutrina no momento psicológico.

Mas eu contra todas essas doutrinações já estou mais que vacinado, nem que seja por ter aqui um lembrete que diz que todos os outros lembretes não passam de propaganda de Estado.

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Simplicidade

November 15, 2024

Na Vida há uma necessidade constante de simplificar. A complexidade gera desentendimentos, que se quer evitar.

A simplificação é o encontro da linguagem comum entre duas pessoas, a procura de uma semântica desprovida de ambiguidades ou duplo sentido. Uma maneira mais directa de comunicar.

A experiência leva-nos a encontrar essa ferramenta da simplificação através da tentativa e erro.

Mas como na vida nada se perde, tudo se transforma, se encontramos algo de novo, é porque deixamos algo perdido lá para trás.

A simplificação é a aceitação de que o mundo é muito mais complexo do que a capacidade que as pessoas têm de comunicar, sobre ele.

E portanto adoptar esta nova perspectiva pressupõe o abandono do ideal sobre o mundo que guardamos connosco desde a juventude.

É aquele ideal cheio de certezas, de como o mundo é concreto, de como os outros estão sempre enganados e o próprio tem sempre razão. O ideal que dá a confiança necessária para deixar a juventude para trás e entrar neste complexo mundo como adulto.

Parece que é preciso uma certa inocência e ignorância para dar o salto da jovem certeza para o meio da incerteza que governa sem se achar que nada mudou.

Só anos mais tarde é que isso se torna óbvio, claro!

E portanto da mesma maneira que deixamos a juventude para a vida adulta, deixamos a certeza para a incerteza, deixamos a complexidade para a simplificação, e a cada passo vemo-nos confrontados com a nossa própria moralidade, agora temos uma vez mais de lidar com um semelhante conflicto: se deixadas para trás todas as construções que fizéramos sobre a vida, teremos pois também de abandonar a razão?

Se calhar sou eu quem recusa andar para a frente. Ou se calhar a Sociedade actual não reconhece a moralidade como importante. Deve achá-la inconveniente.

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Conforto

November 14, 2024

A constante busca do conforto para fugir ao sofrimento é uma tentação irresistível.

Há quem lide com a ansiedade comendo. Há quem lide bebendo. Há quem lide com o sofrimento sofrendo.

O conforto é um remédio que trata mas não cura, porque para ultrapassar o sofrimento é preciso uma alma segura. Mas também repleta de alegria e força de vontade, capaz de gerar energia suficiente para derrotar a mágoa e saudade, em vez de sucumbir para a depressão à mínima contrariedade.

Para quem ache que o conforto não é mais do que uma mordomia, desconvença-se porque para onde a vida nos leva nem sempre é o que se queria.

Do mesmo modo que uma droga alivia o sofrimento, estes viciantes confortos prazerosos permitem-me esquecer a dor e respirar nem que seja por um momento.

E assim dia-após-dia fujo do mundo que me rodeia, e refugio-me num mundo criado dentro de mim que me reclui como cativo de uma vivência prisioneira.

Mas no balanço de contas vale mais ser prisioneiro de um mundo protegido do que ser livre num mundo vulnerativo.

Será? Mesmo? Não!

Nem eu próprio, na minha estratégia de autodefesa, consigo acreditar. Eu não tenho é a força de vontade necessária para esta fraqueza ultrapassar, e a minha vida finalmente conseguir mudar.

Provavelmente creio que o ideal estará numa próxima vida, já depois de morto. Mas o mais provável é esta desculpa iludida não ser mais do que uma nova artimanha atrevida desse meu mundo interno para me dar conforto.

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Alheio

November 13, 2024

A vida é uma aprendizagem contínua. Cada nova experiência dá-nos uma nova perspectiva que pode mudar completamente a maneira como vemos o mundo. E não é só como vemos o mundo agora, mas pode também relevar como víamos o mundo antes, no Passado.

Quando confrontada com as nossas memórias, essas novas perspectiva e experiência podem levar-nos a concluir que na altura nós não fazíamos nenhuma ideia do que se estava a passar.

São a nossa falta de maturidade, de experiência, de tacto que são reveladas a posteriori pela pessoa que nos tornamos mais tarde.

Esse confronto pode gerar remorso, dúvida, conflicto. Temos de nos confrontar com nós mesmos, com a nossa própria discórdia, a nossa ignorância e hipocrisia.

Essa trajectória entre quem éramos e quem somos leva à dúvida, a questionar-nos então se quem somos no Presente não é também uma desilusão para a nossa futura pessoa.

Queremos orgulhar o futuro "eu", queremos a sua admiração e respeito, queremos que se torne tudo aquilo que desejamos de bom e de melhor para nós próprios, tudo aquilo que sonhamos.

Se a construção do nosso futuro parte de um alicerce duvidoso, então não haverá como atingir os nossos sonhos. Precisamos de uma nova perspectiva.

Sirva este texto como uma aprendizagem, uma experiência, para quem quer saltar directamente para o futuro em vez de gastar anos do seu Presente até finalmente a sua vida lhe oferecer esta lição.

Eu próprio, como autor do texto, já conheço as palavras, mas aparentemente ainda não as aprendi porque preciso de mais uns anitos para incorporá-las nesta cabeça.

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Aquilo que está certo

November 13, 2024

Há uma enorme carga em mim que me obriga a fazer aquilo que está moralmente correcto. Não há outra maneira de fazer as coisas. Essa obrigação transcende-me como indivíduo, transcende os familiares e amigos, transcende até os desconhecidos.

É uma obrigação que transcende o ser e que encontra a sua responsabilidade apenas quando alargamos o seu âmbito até incluir toda a Humanidade.

É uma obrigação para com o ser humano. De todas as obrigações que me podiam ter calhado, esta é das maiores. E não a tenho porque quero. Tenho-a porque não me consigo livrar dela.

Não é lógico nem (biologicamente) vantajoso uma obediência excessiva pelos outros. É muito fácil os outros roubarem-nos as oportunidades quando nós estamos distraídos com o que é moralmente correcto.

Portanto, não há uma explicação para isto no cérebro reptiliano. Será uma vantagem para viver em sociedade, uma instrução do cérebro humano. Quem sabe?

A obrigação com o ser humano é a preservação da mente e o corpo, a salvaguarda do sofrimento. Nenhum ser humano tem o direito de provocar sofrimento a outro ser humano. Não há tribunal, guerra, ou Estado que tenha esse direito. Não há condição de retribuição, de vingança, de justiça que tenha esse direito. Não há justificação pelo capital também. Há apenas a autodefesa.

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Noite roxa

November 12, 2024

Uma premonição de que algo está para vir, para acontecer. Não é necessariamente algo bom ou algo mau. Simplesmente algo. É o sentimento de antecipação, de incerteza que há entre a noite do hoje e a manhã do amanhã.

Enquanto esse sentimento reina, a dúvida e a preocupação acrescem, e o tempo parece congelar. Quanto maior a ansiedade, mais devagar o tempo passa. Parece haver algo na vida que: quanto maior a dificuldade, mais prolongada a vivência da mesma. Nunca pode ser só difícil: tem de ser muito difícil.

Na noite roxa contemplamos a cor bonita do céu. Asseguramo-nos de que esta noite roxa é como as outras que já passaram, e de que não há nada de diferente nesta. Sentimo-nos reconfortados. Apaziguamos a nossa alma relembrando que este processo repetitivo das incertas noites roxas é ele próprio uma forma de certeza. E da mesma maneira que muitas já vieram, muita outras virão... certamente...

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Purgatório

November 11, 2024

Purgatório - é um tribunal para o julgamento da alma ou um santuário para a redenção da mesma?

Embora juízo signifique absolvição ou castigo para muita gente, para aqueles que vivem uma vida inteira em remorso, e que procuram desesperadamente um resgate dessa culpa perpétua e perseguidora, o juízo é a salvação. Vão poder finalmente descansar de uma vida de agonia, no Paraíso ou no Inferno.

A agonia advém em parte do constante auto juízo e da incapacidade de se auto decidir se se age correctamente ou não, dia após dia após dia. Assim, o santuário da alma, o tal tribunal, é em primeira instância um alívio imediato dessa responsabilidade. Dá logo fim a essa voz interior incessante, esse juiz interno que não dá sossego.

Venha pois o juízo final. Uma eternidade, no Paraíso ou Inferno, embora incerta, trará a certeza de que mais nenhum juízo virá.

E portanto só resta mesmo a decisão se a vida na terra em sofrimento não é ela mesmo uma pena de prisão à espera da absolvição pelo tribunal da alma, o santuário.

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Paixão

November 09, 2024

Durante muito tempo achava que paixão era algo que existia dentro de uma pessoa, em mim por exemplo. E que era algo que uma pessoa tinha mais ou tinha menos. Era uma característica individual. E mais do que isso era também algo que essa pessoa exercia, uma vez mais, podendo exercer mais ou exercer menos.

Parecia que era Bem, que era melhor, quando eu sentia mais paixão, mas mais importante quando eu fazia o esforço de exercer essa paixão, mostrá-la à minha alma gémea, e colher a minha alegria na alegria dela.

E parece que durante muito tempo assim foi. Até que chegou uma altura em que eu só colhia o que plantava e quando não plantava não colhia. Era unidireccional. Aliás passou a ser unidireccional.

Por isso, surgiu a questão: porquê exercer a paixão de todo? Porquê ser eu responsável pela paixão do dois? Não deverá haver uma igualdade de ambas as partes?

Como disse antes há a parte do exercício da paixão e há a parte da residência dessa paixão. Na ausência da recepção dessa paixão, poderei questionar se a paixão por mim existe de todo?

Queira ou não questionar, essa dúvida existe certamente e vai ser muito difícil arranjar maneira de a clarificar: não há maneira simples de perguntar e não parece haver maneira de obter a resposta senão perguntando.

A dúvida provocada pela paixão não correspondida não tem como ser abordada a não ser que respondida essa difícil questão que põe em causa se a paixão já estará mesmo perdida.

Mas como aceitar o risco do que poderá suceder se a aparente solução for criadora do problema que tenta resolver? Daí o dilema.

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Autenticidade

November 08, 2024

Uma das formas mais importantes de honestidade é a autenticidade. É a honestidade do próprio com os outros e, ainda mais importante, consigo mesmo. A autenticidade vem através de forma e através de informação.

A forma é a nossa postura, linguagem corporal, apresentação. Apresentamo-nos como somos realmente, ou somos actores de um ou mais personagens inventadas?

A informação são os factos que decidimos comunicar, ou até ocultar, distorcer, manipular ou mesmo fabricar.

As pessoas autênticas são as únicas com quem nos devemos querer relacionar. Tudo o resto é intriga, burla, sedução, mentira. É melhor um confronto ou desacordo com uma pessoa autêntica do que uma experiência agradável com alguém inautêntico, porque nunca se sabe quando nos vão trair.

Eu escolho ser autêntico correndo o risco de que possam tirar proveito de mim, de que me possam trair, de que me possam roubar uma oportunidade.

Isto porque eu escolho viver não do modo com o mundo realmente funciona, mas do modo como eu quero que ele funcione.

É esta a minha contribuição para a transformação do mundo para um mundo melhor: continuar a exercer autenticidade até que os que me rodeiam aprendam também a ser autênticos.

Se for traído pago o preço e sou prejudicado pontualmente. Mas este é também o mecanismo que me permite dividir o mundo no grupo dos que estão comigo e dos que estão contra.

Por isso, o meu ponto fraco é também uma armadilha para eu ficar a conhecer com quem estou realmente a lidar.

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Reflexão

November 05, 2024

Em frente ao espelho surge o nosso reflexo, uma imagem nossa, do nosso corpo. E embora vejamos a nossa aparência, aquilo que de mais importante acontece é a reacção emocional, a resposta emocional, ao confrontarmo-nos com nós mesmos. Esperamos ver, ou avaliar, o nosso nível de alegria ou tristeza. Estamos desiludidos se calhar quando nos revemos nessa constante reflexão diária que nunca muda, nunca melhora, nunca se alegra, mas sempre envelhece. Nesse instante reflectimos sobre o nosso reflexo. É uma reflexão sobre a reflexão. E apesar de reflectir e reflectir, tudo aquilo de mim que quero mudar permanece constante, e a única inconstância da minha vida é o contínuo tempo passante que tanto desejo travar. Mas talvez mais do que travar é o tempo retroceder, para um tempo em que a constância e a inconstância ter-me-iam necessariamente de obedecer. E essa incapacidade no Presente de mudar o impossível e criar novas possibilidades no Futuro leva à frustração, que por sua vez leva à desilusão; ambas visivelmente reflectidas no meu reflexo... na minha reflexão.

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Gratidão

November 03, 2024

Gratidão - A palavra que está no centro deste caderno. É também a palavra que menos me diz das palavras que estão na primeira página. Dizem para estar grato por estar vivo. Isso vai ser muito difícil. Eu vivo com uma constante dívida às costas que nunca será paga, e não há um número de actos bondosos que conseguirá apagar essa culpa, esse remorso.

O futuro ser uma oportunidade é algo difícil de entender também. O futuro é a perpetuação do Presente, sem diferença. É sempre e sempre igual até à morte. A incapacidade de transformar a vida e de trazer uma diferença faz com que esse futuro se comprima num instante só, mas muito longo. E a aparentada distante morte está senão à espreita, e estas são as últimas horas que se vive, já contabilizadas, descontando no relógio segundo a segundo.

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Purpose. Sentido de vida

November 02, 2024

Para que a minha vida sentido faça, é necessário que haja um propósito (um sentido de vida).

Tags: gratidão, prosa