Olhamos para o Passado para sabermos quem somos. Procuramos nele uma constância, um padrão, uma repetição. Enfim, uma resposta. Porque se há algo duradouro, então é porque deverá ser uma lei, uma regra, uma equivalência. Não é essa a resposta da física (ciência)? E porque só poderá ser da física e não minha também.
Se há algo que permanece imutável, inconstante, sereno, ao longo do tempo será certamente um traço meu. A tal resposta.
Porque apenas o eu poderia sobreviver às mudanças do tempo.
Mas o que é que eu vejo quando olho para trás?
Vejo uma exigência desnecessária com o cumprimento das regras.
Vejo uma fuga amedrontada de confrontos.
Vejo uma subserviência à autoridade sem questionar.
Portanto, quando olho para o Passado vejo todas aquelas coisas que não quero ser, não quero ter, não quero encontrar, nunca mais.
Como posso assim querer encontrar uma resposta no Passado, quando o meu Presente é definido por uma negação do Passado?
Posso continuar a não saber quem sou. Mas parece que, sem saber como, acabo por saber muito bem que não sou: eu sou pelo menos aquilo que decidi deixar para trás, e pelo todo aquilo que irei deixar construído para a frente.
Esta antítese entre o Passado e o Futuro chama-se esperança. O presente chama-se aposta. A soma destas duas partes chama-se vida.