ALMA

ALMA é arte - ALMA is art

Realidade paradisíaca

September 14, 2025

A hipótese de que a realidade é um sonho advém quando a realidade não satisfaz. Mas o que realmente se passa é o próprio que nela se sente incapaz.

Se a realidade é real ou simulação é uma questão trivial. Não porque a resposta é sabida, mas sim porque esta questão não pode ser respondida.

Questões triviais não merecem o incómodo. Trazem transtornações desnecessárias, que perturbam a sanidade do todo.

Dito de outra maneira: se a realidade actual é uma que eu hostilizo, que razão há para acreditar que a realidade que lhe deu vida será o Paraíso?

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Beijo

September 12, 2025

Sinto as tuas mãos suaves nos meus ombros. Para os meus braços deslizam, os cotovelos em brincadeira beliscam, até que os pulsos apertam.

Sinto o teu desejo nas minhas mãos. Ele aperta com força nelas, rouba-me o controlo, e puxa-me na tua direção.

Sinto o teu peito a acariciar o meu. Olhas-me de alto a baixo porque precisas de ver que a tua aura sedutora me faz todo teu.

Sinto-me arrastado pelo sentimento. Abandono a razão, e deixo-me ir, para saber onde me vai levar este momento.

Sinto a tua feição invadir o meu espaço. Não consigo olhar nos teus olhos penetrantes. Olho para a parede de embaraço.

Sinto as tuas mãos a despentearem-me os cabelos, e o carinho delas no meu rosto. Quero-as como almofada, mas tu pões-me de volta no meu posto.

Sinto que exiges obediência, que só no momento de maior desespero, que só quando me sinto ofegante irás ceder, e conceder-me audiência.

Sinto-me finalmente um servente total da tua divindade. Sei que é neste momento que vem o beijo que por tanto ansiava. O beijo da felicidade.

Mas de repente, lembro-me que isto é um sonho. Um pedaço da minha imaginação. Gostava de alguém que me amasse, me beijasse, me fizesse sentir vivo assim. Gostava muito. Mas infelizmente não tenho, não.

Tags: laranja, prosa-lírica

A Luz

September 10, 2025

Ó Luz, encontra-me! Iluminas aqui e acolá, e só a mim deixas na escuridão? Que mal te fiz para me deixares sem sentido, sem rumo, sem razão?

É isso que é estar vivo, eu encontrar a minha própria Luz? É a isso que achas que "Liberdade" se reduz?

Ó Luz explica-me lá então, como posso ser eu livre quando eu sou também prisioneiro da tua decisão?

Tags: laranja, prosa-lírica

Quando me for

September 10, 2025

Quando me for, deixarei os meus escritos, com tudo aquilo que gostava de ter dito, com tudo aquilo que era importante para mim, correndo o risco de que quanto mais neste mundo estiver enraizado, mais difícil será para os que ficam para trás quando eu estiver do outro lado.

Quando me for, haverá os que viram, os que ouviram, e os que sabem; os que disseram, que ajudaram, e que fazem. Haverá toda e mais alguma gente que antes de me ir não constavam, e logo no momento seguinte aos molhos como erva daninha brotam.

Por isso, nos escritos aparecem os que estavam na altura e mais não. E quem diz que lá estava e não aparece escrito, ou é mentiroso, ou é ladrão.

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Desespero

September 09, 2025

Em desespero constante, cada dia é ofegante,
equilibrado num pé desequilibradamente
mais o malabarismo da vida simultaneamente.

Em demasia, mais já não aguento.
Ainda assim, um dia de cada vez, sobrevivo,
parecendo até que estou vivo,

em vez de marioneta:
uma constância do que advém,
uma manifestação prisioneira num corpo mas de quem?

Tags: laranja, poesia

Segredos

September 09, 2025

Dobrada, a folha de papel esconde os seus segredos no interior, ficando duas belas e claras páginas de tamanho menor.

E é verdade que desdobrada a folha-se novamente maior, com todos os seus segredos para contar, mas fica também um vínculo no meio da folha que não dá mais para apagar.

Por isso, é que te digo, Ó minha querida: tira o nariz das minhas coisas e mete-te na tua vida.

Tags: laranja, prosa-lírica

Violência

September 09, 2025

Atinge-me, bate-me, ralha comigo.
Satisfaz o teu prazer em pôr-me de castigo.
E quando estiver magoado, triste, e zangado
proíbe-me de ter um amigo

com quem partilhar, desanuviar, sarar,
porque isolado e em confinamento
tornam-se assim tão mais fortes
a dor e o sofrimento.

Magoa-me, fera-me, agride-me
até a última faísca da minha alma se extinguir
e aí ficarás a sós, contigo própria,
e com a tua violência a te destruir.

Porque quando ascender da Terra para a Lua,
eu não a levarei comigo:
essa violência nunca fora minha,
ou por mim, mas sim tua.

Tags: laranja, poesia

Decidir o destino

September 06, 2025

Há uma tempestade à espreita. Se ela vem, tudo arrasa. E se não vem, a premonição nunca acaba.

É um prenúncio de um fado destinado àquele que a tempestade pressente.

É um castigo por se ser consciente, e ser-se conscientemente negligente.

O destino é a decisão que se espera tomar, e não a espera pela decisão que se torna a adiar.

É dando rumo ao destino que a vida toma sentido.

Não é por acaso que são anagramas: são um e a mesma coisa.

Tags: laranja, prosa