ALMA

ALMA é arte - ALMA is art

A minha mantra sagrada

October 12, 2024

Evocara em mim a minha mantra sagrada um estado de espírito de paz total. Houvera uma harmonia pacífica entre a alma e a Natureza. Dera-me sentido à Vida. Confirmara-me constantemente. As minhas decisões pareceram acertadas. Absolvera-me da constante culpa perseguidora.

Mas um alcance profundo trouxe uma brisa de honestidade que afastou o nevoeiro e revelou que a Natureza é apenas uma miragem. Não é na Natureza harmioniosa na qual nos revemos. É em nós mesmos. A Natureza fora espelho para a alma. É em nós próprios que nos revemos realmente.

E é neste espelho que o nosso reflexo nos dá certeza, confiança, força de vontade. Isto é, se nos vemos a nós próprios dessa maneira. Se nos vemos de forma debilitada, então, vemos incerteza, insegurança, falta de vontade.

Como é que nos revemos?

A alma está em segurança porque está protegida, encerrada dentro do ser. O corpo é o albergue da alma. Mas vivência é o oposto do auto-contido, é a abertura da alma e os laços entrelaçados com os outros. Então quão protegida estará a alma verdadeiramente?

Procurada a fonte da dor surge uma alma fragmentada. Cada laço criado é uma vulnerabilidade que provoca preocupação, ansiedade e dor. A fragmentação da alma é uma relevação que surge em retrospectiva. Cada pedaço seu habita fora do nosso ser. Habita em outros seres, nos nossos filhos e cônjuges.

A felicidade é uma teia de laços. O bem-estar é o gradiente deste campo de forças. Para estar bem, todos têm de estar bem. É um peso sobre os ombros. Uma exaustão no peito. Um cansaço acumulativo.

Não há restituição da alma tal como não há como retroceder no tempo. Se um pedaço da alma se destrói, corrompe ou morre, a teia anímica sofre um dano irreparável e irreversível.

E embora a minha mantra sagrada profetizara uma vivência em paz de alma total, as minhas decisões trouxeram-me para uma realidade de alma fragmentada. E desta maneira a minha mantra sagrada abandonou-me, deixando-me sozinho, sem fé, sem promessa, sem profecia, e sem esperança.

Ela fizera-me um ateu da vida continuamente em busca de um oásis de felicidade. Sou um caixeiro viajante que anda de cidade hedónica em cidade hedónica, procurando viciadamente um sustento prazeroso que me dê força suficiente para ultrapassar a perversidade provocada na alma pela descrença que fui obrigado a transpôr.

Tags: prosa, alma