Conversa com o orientador
Temos que nos manter no tópico - afirmou o meu orientador da tese de doutoramento, como já havia feito uma dezena de vezes - Não temos tempo para distracções - O instituto para que tinha conseguido entrar tinha bom nome e reputação. Infelizmente, o processo de admissão não era bom para todos os alunos. Nem todos os que entravam conseguiam um orientador competente.
Em tempos, eu tinha sido bom aluno, motivado, empenhado. Mas o tempo passado como marioneta deste orientador havia corrompido esse espírito que uma vez residira em mim, que me levara a ingressar neste instituto. E estes últimos meses tinham sido os mais difíceis.
Os fins de semana eram passados na ressaca da depressão, na esperança de que o tempo depressa passasse e que a neblina se alevantasse, mas ao mesmo tempo que a manhã de segunda-feira nunca chegasse.
Durante a semana, o trabalho não progredia concentrado. Em vez disso, as manhãs prolongavam-se, os dias entardeciam rapidamente, e as noites aconchegavam-se prematuramente, e a memória de um dia inteiro não lembrava mais do que um monitor de computador escuro, no meio do nevoeiro.
Já conversámos várias vezes sobre isto! - resumiu o orientador - Tu tens um tema para a tua tese que se enquadra nos objectivos do grupo de investigação ao qual pertences, por isso, tens de te focar nos trabalhos da teoria de cordas que te dei para fazer o mês passado, e que ainda não acabaste. Eu sei que os teus interesses não se alinham com o tema, mas quando acabares o doutoramento vais ter muito tempo para investigares o que te interessa. E até lá não quero ouvir mais nada sobre este assunto - Terminado o sermão, o Professor virou-se momentaneamente de costas para se sentar no seu trono, por detrás da secretária, e assim aproveitei este momento para, longe dos seus olhos, fazer o sinal da cruz no ar, como o Bom penitente que agradece ao Senhor a bênção do padre.
Porque esta já era uma Missa que se rezava uma vez por semana, eu já estava vacinado e não voltava para o meu escritório enervado, antes exausto.
O colega de escritório
O meu colega de escritório estava a par dos desencontros científicos e pessoais entre o meu orientador e eu.
Ele ouvia as minhas desgraças, como um bom psícologo e dava-me algum apoio. Ele tentava o seu melhor mas a verdade é que ele tinha sido um dos alunos de sorte, tendo um bom orientador e um tópico do seu interesse, pelo que ele não era capaz de entender.
Ao fim e ao cabo, ele acabava sempre com o discurso de irmãozinho a defender a Ordem Templária, e eu escutava-o desatentamente enquanto admirava a grande paisagem montanhosa e pinheiral que se defrontava diante da grande janela do meu escritório, reclinado na cadeira e com os pés no parapeito, suspirando com tristeza e inveja da Natureza, na esperança de que um dia de tanto olhar conseguisse finalmente inspirar a solitária paz da paisagem, que se me reflectia nos olhos, para os meus pulmões (coração).
Curiosamente, a solidão, já eu a tinha, mas a paz não a acompanhava.
O meu colega de escritório desaparecia por detrás do seu grande monitor, marcando assim o fim da sua dádiva ao templo, mas para mim o tempo continuava parado, e continuava a observar a paisagem.
Mesmo no meio de tanta desgraça nada havia que conseguisse penetrar ou derrubar as muralhas que protegem a adrenalina que traz sexta-feira nas horas perto da saída para o fim-de-semana, o momento que mais se distancia do início da semana, quando não há droga forte o suficiente que dê por terminado o ciclo depressivo semanal que é trabalhar neste instituto.
Os pais
Por causa dos estudos, não venho a casa tantas vezes quanto gostaria. Mas quando venho fico contente por veus os meus pais novamente. Pelo menos até a realidade do que é vir a casa assentar e os meus pais começarem novamente com as reprimendas - Filho! - diz a minha mãe à mesa de jantar, onde se encontra o resto da minha família - Tens tantas capacidades. Podes fazer o que quiseres da tua vida - Não há como salientar as opotunidades que se tem para realçar ainda mais a inaptência de uma pessoa. E continou - O instituto onde te encontras neste momento, vais ver que as coisas vão mudar para melhor - Mal compreendia ela a situação em que me encontrava, como me sentia sozinho e triste, mas estes desabafos, aprendi eu com o tempo e inúmeras visitas a casa, são monólogos e por isso nada disse. Nada havia a dizer.
O teu pai e eu não tivemos oportunidades como esta, e por isso a nossa vida foi mais difícil do que poderia ter sido - Às vezes esqueço-me o quão importante é não deitar fora as oportunidades que a vida traz - E já começaste a fazer desporto? O exercício é fundamental para a saúde do corpo e da mente. É importante o bem-estar físico e mental, para ter um sistema imunitário forte e não ter depressão ou ansiedade - continuou.
Aceno afirmativamente com a cabeça dando a ideia de que vou cumprir todos aqueles deveres e que concorco com tudo o que foi dito, mas sei que é mentira porque para mim apenas aceno para indicar o fim de cada frase, que cada uma foi escutada do princípio ao fim.
A falta de desporto, o deterioramento físico, o cansaço, a ansiedade, são pensamentos que me assombram durante as horas de trabalho, que me roubam momentos de concentração constantemente. São sugestões que quero à força tirar da minha cabeça mas que foram impregnados pelo seio materno e que por isso são tão fortes como o código genético.
Mas eu já há muito aceitei a incapacidade de controlar o pensamento. Como físico, demonstrei num equeno artigo que mantenho junto de outros projectos, que o cérebro humano não tem livre arbítrio. É uma prova simples, mas longa, pelo que não me consigo recordar completamente dos detalhes enquanto me projecto da reprimenda dos meus pais no meu cantinho de desantenção, mas é algo que recorre a uma comparação com sistemas mais simples do que pessoas, nomeadamente, máquinas, computadores.
Imaginemos um computador a executar um programa que toma decisões, tal como uma pessoa faz. O computador toma a decisão de determinar se as suas decisões têm livre arbítrio e, para isso, começa a executar um novo programa que irá produzir essa resposta. O que este programa conclui é que o computador tem livre arbítrio porque consegue observar um programa que o computador executa a tomar decisões. No entanto, isto é a conclusão errada porque o programa não se interroga quem escreveu o programa que toma decisões.
Os críticos deste trabalho que desenvolvi discordam dizendo que o programa que toma decisões é capaz de decidir alterações a si próprio. Isto, claro, nunca foi provado mas mesmo que fosse verdade, é possível mostrar através de indução no tamanho do programa que este facto não é suficiente e que por isso não há livre arbítrio.
O artigo foi naturalmente rejeitado pelo meu orientador e uma data de pessoas que trouxeram argumentos de cariz social, teológico, e por aí fora, que para mim não são interessantes e não gasto tempo a abordá-los.
A conclusão do artigo dizia que livre arbítrio não é só a capacidade de tomar decisões mas é também a capacidade de alterar a maneira como pensamos e como procedemos à tomada de decisões ou seja o exercício da vontade, o que é incompatível com o livre arbítrio que é, por definição, o exercício da vontade.
O trabalho sabe bem como uma distracção das reprimendas dos pais, mas chegado o comboio de ideias ao destino, disparam os meus olhos por um túnel de luz que vai de encontro à expressão interrogativa dos meus pais, eu que surdamente os tenho escutado nos últimos momentos, acordo numa momentânea aflição na esperança de que a resposta correcta se me apresente como que produzida do éter e eis que algumas sílabas ecoam da caverna do meu crânio e cambaleieam ao encontro da palavra "Percebeste?" com um tom interrogativo.
Desde o momento da minha distracção até ao momento da inspiração divina que a minha expressão facial se manteve constante, pelo que agora só preciso de um tom de confronto e excessiva confiança para afimar que percebi, uma mentira ainda maior do que a última.
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