ALMA

ALMA é arte - ALMA is art

O mudo

May 31, 2024

Frequentemente imagino como seria se alguém lesse o que escrevo. Mas ao mesmo tempo sei que nunca irá acontecer. Imagino como seria se me compreendessem. Se me entendessem. Se me aceitassem. Toda a gente quer ser aceite, não quer? Mas ao mesmo tempo sei que aceitação vem de dentro. Não é preciso uma multidão para nos sentirmos aceites. Basta apenas um. E às vezes parece que a aceitação desse um é mais difícil do que a da multidão.

Mas porquê? Porque a aceitação do um requer iniciativa do próprio, requer decisão, requer a própria auto aceitação. Requer tomar um passo. Uma passo que é difícil de tomar ou um passo que não se quer tomar? Há uma resistência. É claro. Mas de origem desconhecida. Não se consegue tomar um passo quando não se sabe o que quer.

E por que é que saber não chega? Se sei qual o problema, não saberei já tudo? Que mais há quando já se sabe? Quando é insuficiente com o todo que já se sabe, o que sobra é uma incongruência que nos leva a ter que concluir que a única explicação é uma fissura na personalidade. São duas vozes. A do humano, lógica, sabedora, científica; e a do ser, honesta, enraizada na realidade, profunda, ensurdecedora mas sem palavras, como o rugido de um mudo que está preso num colete de forças.

São duas vozes que comunicam através de um canal de largura de banda mínimo, como uma página de texto, um desenho, uma fotografia, ou um vídeo. Um processo criativo conduzido por uma bússola moral que apenas diz "certo" ou "errado", "melhor" ou "pior", "quente" ou "frio". O que está mais certo é aquilo que mais de acordo está com o que o mudo quer comunicar. Estes média artísticos são a manifestação da voz do mudo. Eles vêm e vão consoante o que me vai na alma. Ora o saco está cheio, ora vazio. É autónomo e de vontade própria. Quando se esgota, esgota-se. Não há como mais produzir. Quem não entende, não entende. A explicação é simples, e já foi exposta. Querem chamar-lhe de inspiração, estão à vontade.

Mas não é inspiração. E por mim estejam à vontade quão enganados queiram estar. Eu não me ofereço a juízos públicos. Nunca quis saber e assim o há-de continuar a ser. Não quero saber do que pensam de mim.

E também não é um bloqueio mental do artista. O artista nunca existiu. O artista aparente é um medium (um veículo) condutivo à voz do mudo. E para quem ainda não compreende, não aceita, mais ainda se recusará a compreender e a aceitar o desfecho disto.

A verdade é: alguém que venha e salve o mudo porque eu não sei como.

Tags: prosa, alma