Como escapar? Bom... há escapes e escapes. Há escapes difíceis de tomar, fáceis de lidar. Há escapes fáceis de tomar, difíceis de lidar. Quer-se um escape rápido e limpo. Indolor. Bom... indolor para o próprio. Nunca é indolor para os demais, assumindo que demais se tem. Como se tem...
Indolor... Parece que a dor é o factor determinante. Parece... será que é? E se não houvesse dor, como seria? Seria banal? Ou convencional? Normal? Talvez até casual, quem sabe? Não seria medicinal. Mas... e higiénico? Poderia sê-lo? Certamente não seria constitucional. Excepcionalmente talvez o fosse em circunstâncias de segurança nacional. Uma aperto de mão, um piscar de olho, um olhar para o lado, e o horror nem é assim tão sensacional.
E a dor. O que aconteceu à dor? Bom... há duas dores: a do próprio e as dos outros. Bom, são três dores, porque também há a dor do próprio pela dor dos outros. E quatro haveriam se os outros desconfiassem da do próprio, mas raramente acontece. Nunca a há porque isto é sempre tudo segredo. E por que é que o tem de ser? Não sei. Parece que é como é.
E se não houvesse a dor do próprio? Bom, há a dor dos outros. Parece um alívio, não parece? Incongruente o próprio julgar a sua dor um obstáculo e a dos outros um travão. Parece que o próprio rendeu o seu poder de decisão. Assim é sempre tudo mais fácil. Porque sobram apenas as consequências "inevitáveis" que nunca estiveram sob controlo, não é? Não!
É incongruente, é ilógico, é desonesto. Embora haja muitas formas de desonestidade no mundo (e elas pesam muito), esta, a auto desonestidade, é uma que não tem como existir. Só se o próprio se mente em relação à sua honestidade. Portanto é preciso desonestidade para se conseguir ser auto desonesto. Parece que pelo menos a lógica prevalece, mesmo quando se parte de um princípio de incongruência. Será que há esperança afinal? Bom a dor não é lógica.
Então, mas e a dor que o próprio sente pela dor dos outros? Essa sim é uma dor real. Inquestionável. Imparável? Sim, imparável! Um facto indisputado. Até então ou até demais? Até então, sem dúvida. Até demais quem saberá? Apenas a bola de cristal, que não há. E se houvesse seria também um alívio, mas um refúgio para a renegação do poder de decisão. Estas esquinas estão sempre à espreita. E quando não se presta atenção ao caminho, está-se logo a virar à direita. Só que nesta direita não há nada de certo. É uma esquerda disfarçada de caminho correcto.
Mas essa dor pelos outros, a tal dor real, essa sim tem uma força brutal. É a única que obriga à perpetuidade desta constante asfixia habitual.