Há uma Estação da Mágoa em que o comboio nunca pára, o tempo nunca passa, toda a acção é inconsequente, e uma vida nunca se esgota. A linha de comboio navega para esse futuro tão distante e infinito, mas fá-lo parecer tão nítido como o presente que o precede.
O olhar para o futuro é tranquilizador e salvaguarda a alma porque a dor e a mágoa estão congeladas no tempo. A perspectiva não desvanece com a distância porque o amanhã nunca vem.
O passado opõe-se com o peso e culpa perseguidores que assombram, corrompem e entristecem. A sua fonte é uma linha de comboio que se perde num nevoeiro denso. Não há brisa que o alevante ou lente que o penetre.
Voltamo-nos em diante, de frente para o futuro e de costas para o passado, fingindo que passado não existe porque não o conseguimos ver. Enganamo-nos que o futuro nos resgatará porque eventualmente há-de passar o comboio que nunca pára.
Quando finalmente, viajando do passado para o futuro, o comboio passante não pára, é quando nos vemos petrificados nesta plataforma da Estação da Mágoa, incrédulos, questionando os alicerces da vida, o porquê da nossa mágoa e da nossa existência.
Apercebemo-nos de que o relógio traidor da estação avançou vários anos, o nevoeiro passado intensificou-se e a linha infinita do futuro encurtou-se, porque afinal não era assim tão infinita. Apesar de estarmos mais velhos, estamos exactamente no mesmo sítio de partida, mas aos poucos a vida escapa-se pelas mãos.
A ilusão da Estação da Mágoa é uma premissa pretensiosa. Queremos ser um espectro que provoca uma excitação no campo de forças do presente, para que o passado e o futuro não se repelem ou colapsem um sobre o outro.
Mas rapidamente a ilusão desfaz-se. Viver a um ritmo incessante em direcção a um futuro incerto e construir um passado irreclamável não é uma mágoa: é um medo.
Para realmente viver, é necessário aproveitar o momento e viver uma vida memorável. Mas acima de tudo, para viver é preciso aceitar que num futuro e lugar incertos se vai certamente morrer.