Há uma crença em mim
que me a vida dirige.
E quando caio em erro
ela me perdoa e corrige.
Há quem "alma" lhe chame
por conferir a identidade.
Mas eu chamo-lhe "crença"
por me criar a realidade.
Se "crença" e "realidade"
afiguram-se incompatíveis
por desacordo de significado
no que diz respeito à vida,
constate-se que crença é
afinal uma sensação de certeza
guiadora pela realidade da vida,
toda ela repleta de incerteza.
Para quem nega a natureza da realidade
e que foge da incerteza
para o conforto da identidade
e no discurso do método se refugia,
é cego para a teia de ambiguidades
que se sobrepõem à Verdade,
que põe em causa a identidade
e a "crença" que sublinha a vida denuncia.
A crença nasce de uma sensação
confiante e forte no peito,
exigindo com tumultuosa vibração
uma existência de seu direito.
E embora a minha existência
pareça singular manifestação,
um binário da consciência,
se revela, com o coração.
Mas o sensível coração todavia
é fraco, e como um buraco negro
suga e substitui toda a alegria
com um triste vazio de enterro.
E a mente, embora lógica,
face à falta do sustento emocional
da sua cara-metade dialógica,
acaba colapsada numa espiral irracional.
Tão simples os alicerces da vida
e fácil ter de os explicar.
A sentença de prisão perpétua é
a dor do corpo ser obrigado a habitar.