Durante muito tempo achava que paixão era algo que existia dentro de uma pessoa, em mim por exemplo. E que era algo que uma pessoa tinha mais ou tinha menos. Era uma característica individual. E mais do que isso era também algo que essa pessoa exercia, uma vez mais, podendo exercer mais ou exercer menos.
Parecia que era Bem, que era melhor, quando eu sentia mais paixão, mas mais importante quando eu fazia o esforço de exercer essa paixão, mostrá-la à minha alma gémea, e colher a minha alegria na alegria dela.
E parece que durante muito tempo assim foi. Até que chegou uma altura em que eu só colhia o que plantava e quando não plantava não colhia. Era unidireccional. Aliás passou a ser unidireccional.
Por isso, surgiu a questão: porquê exercer a paixão de todo? Porquê ser eu responsável pela paixão do dois? Não deverá haver uma igualdade de ambas as partes?
Como disse antes há a parte do exercício da paixão e há a parte da residência dessa paixão. Na ausência da recepção dessa paixão, poderei questionar se a paixão por mim existe de todo?
Queira ou não questionar, essa dúvida existe certamente e vai ser muito difícil arranjar maneira de a clarificar: não há maneira simples de perguntar e não parece haver maneira de obter a resposta senão perguntando.
A dúvida provocada pela paixão não correspondida não tem como ser abordada a não ser que respondida essa difícil questão que põe em causa se a paixão já estará mesmo perdida.
Mas como aceitar o risco do que poderá suceder se a aparente solução for criadora do problema que tenta resolver? Daí o dilema.
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